O canto de asfalto e areia de “Vestuário”, primeiro álbum de Isadora Melo

0
Por Thaís Cavalcanti 
Vestuário, primeiro álbum da cantora pernambucana Isadora Melo, é desde a primeira faixa um convite à nostalgia – não a que cessa fogo do presente, mas a que canta sobre o asfalto ainda quente do hoje. Em 2014, o EP Isadora Melo já dava os primeiros vestígios do que encontraríamos neste disco que a cantora nos entrega dia 20 de outubro, no Teatro Santa Isabel, às 20h, com a mesma formação de bandolim, acordeon, baixo, guitarra e violão e atmosferas melancólicas. Embora seja seu primeiro álbum, sua voz firme, precisa e leve já era conhecida pelo público pernambucano há anos, desde quando participava do grupo Arabiando, momento em que seu canto fazia chorinho, até a participações de discos como o da Kalouv, Trio Pouca Chinfra, entre outros. Na produção de seu álbum estão músicos que já passaram pelas bandas Arabiando, Saracotia, Mundo Livre S/A e Orquestra Contemporânea de Olinda, como Rafael Marques (bandolim), Júlio César Mendes (acordeom), Areia (contrabaixo) e Juliano Holanda (guitarra e violão), que assina a produção do disco e seis das doze composições. Também participam nomes como o arranjador Jaques Morelenbaum – de trabalhos emblemáticos de Tom Jobim, Caetano Veloso e Gal Costa –, Karlson Correia, Zé Manoel e Clara Torres.

A relação de Isadora com sua atual banda data desde 2008, quando conheceu Júlio e Rafael. Os dois dividiam com ela o projeto da Arabiando. Após a amizade com os músicos, veio a necessidade de explorar sonoridades musicais como o chorinho, que foi trabalhado em projeto paralelo com releitura das músicas da carioca Elizeth Cardoso. “Tenho muito essa coisa de voltar ao passado. Nessa época, pesquisei muito sobre o gênero, mas nunca curti o lado ‘A’ do chorinho. Daí me encontrei na Elizeth. Ela consegue ter essa amplitude de repertório, adoro o canto dela e como ela se coloca com uma elegância”, diz Isadora em entrevista à Cardamomo. “Mas havia esse outro plano de fazer algo autoral”.

Esse outro momento surgiu depois de dois shows com a Orquestra Contemporânea de Olinda, até ser convidada a ter uma banda com Juliano Holanda. “Foi um divisor de águas. Quando [o contrabaixista]Areia apareceu falando ‘Dora, vamos fazer teu projeto’, não teve jeito. Daí começamos a usar músicas que eu e o Areia amávamos e que o Juliano não usava nos shows, como Braseiro e Partilha e fomos criando sons em casas pequenas do Recife”. A primeira foi num show improvisado no Coletivo Sexto Andar num tom intimista.

Há dois anos, lançaram, pelo estúdio Muzak, o EP que funciona como uma sinopse do atual trabalho. A ideia era manter esse formato e deixar as músicas espaçadas, sem precisar todos os instrumentos. Como afirma a própria Isadora a respeito da narrativa desse disco: “A ideia é que as letras sejam notadas. Os arranjos são limpos, não tem muitos coros, eu não dobro muito a voz. A ideia é atentar às canções”.

(Fotografia: Bruna Valença)

(Fotografia: Bruna Valença)

AS CANÇÕES

Com identidade visual de Isabella Alves e João Vitor Menezes (A firma), a capa do disco já constrói a ideia de um som que remete à matina e ao abrasamento, mas com uma nuance sombria, fria e melancólica. “Queríamos fazer algo muito nosso, não necessariamente queríamos colocar a cidade na música, mas ter música feita por pernambucanos”, diz Isadora, “As escolhas de música falam muito de mim e do universo que eu vivia na época”, pontua enquanto lembra-se de Tom Waits e sua peculiaridade sombria como uma referência pessoal à época da gravação do disco. Como referências atuais, ela lembra Mayra Andrade, Lhasa de Sela e António Zambujo. “São pessoas que trazem muito da tradição, mas com leituras novas, sabe?”

A primeira música, homônima ao disco, traz gentis choros dos bandolins de Rafael e lembra essa atmosfera simultaneamente quente e sombria: “Visto o verso e ele é minha roupa se faz frio ou faz calor”. A voz de Isadora e os riffs de Juliano escolhem aquecer na seguinte, Braseiro – aqui a poeira do concreto do asfalto arde – para manter a temperatura, descer e se envolver com ela: “A saudade é uma vela, a tristeza tão macia”. Esse clima se evidencia em Habanera, em momento de suavização após a tumultuada Pequena (com vibrante participação de Karlson Correia nos vocais) que busca fôlego em meio ao caos de concreto. Ouvir Pequena é entender a leveza em suas aparições mórbidas e honestas que Vestuário traz. “Mostrei a um amigo que achou que ‘Pequena’ tinha um discurso antigo. Pra mim, cantar ‘ouço o canto dos pássaros em meio às construções’ é mais pulsante do que nunca. Ainda que um projeto seja leve, que se fale das torres [da construtora de prédios] Moura Dubeaux, das favelas incendiadas pra erguer um shopping e também da loucura da geração da gente que tem crises de pânico e de ansiedade”, opina Isadora.

Seguimos, então, nesse cruzeiro com o anoitecer lindamente conduzido pelo violoncelo de Jaques Morelenbaum e a voz mansa de Zé Manoel, que acompanha a de Isadora para fornecer algum acalento em Ave D’Alma. O descanso da gaivota parece finalmente ocorrer em Do tempo, quando cada segundo cresce orientado só pela voz de Isadora e o baixo de Areia. Temos novamente um rasgão de luz e sombra: “o sol era feito navalha, o sono de noite se espalha”.

Se De mais valia e Canção bonita encontramos faixas que funcionam sozinhas e um espaço para descansar a densa narrativa, em A Joia, encontramos um cenário apocalíptico prestes a ruir, que já nos sentencia desde o início através do coro de Isadora e Juliano “não há ontem, nem hoje, nem amanhã” e termina com “e então um incêndio há de fim queimar / as paredes do andar da desilusão / Ela, sentinela, vai partir pra nunca mais voltar”. A redenção se encontra, finalmente, na última música Praia do sossego, que exalta a voz (cheia de sotaque) de Isadora sendo ritmada por um violão de aço e-bow, evocando um tom etéreo. É curta e bonita mas ressoa como uma canção interminável. Ou como a praia que retornamos em diferentes horários, mas que segue seu curso todos os dias.

É no meio do álbum que Isadora nos conta um segredo: “Escuta o barulho do mar acima de nossas cabeças, essa abóbada que se arrisca a cair e o mundo a se expandir’. E se as canções arriscadas parecem conosco é porque são para nós, que corremos risco sempre. Bom lembrar que, assim como o sal do mar, as canções bonitas nos servem como remédios.

Compartilhar:

Sobre o autor

Thaís Cavalcanti

Jornalista, formada em Comunicação Social/Jornalismo pela UFPE. Foi repórter setorista de cultura no portal FolhaPE e repórter estagiária no caderno de cultura do mesmo jornal.