Uma paisagem em transformação

0

Por Chico Ludermir 

Filmado entre Pernambuco e Brasília, Onde Começa um Rio se passa no calor das ocupações de 2016. Documentário assumidamente engajado planeja exibições em universidades e ainda este mês será disponibilizado online gratuitamente

As cenas de dentro de um ônibus em movimento, que abrem o documentário Onde Começa um Rio (Pernambuco, 2017, 75min), codirigido por Julia Karam, Maiara Mascarenhas, Maria Cardozo e Pedro Severien, nos mostram mudanças na paisagem. Pelas janelas, vemos uma estrada longa, cinza, margeada por uma vegetação que muda sutilmente, passando por tons de verde e amarelos amarronzados. O som de uma viola dedilhada e o horizonte que compõem com os estudantes a atmosfera do prólogo parecem afirmar: “Não é depois. É agora. Não é lá. É aqui – no deslocar-se – onde brota a transformação”.

Talvez soe precipitado dizer desde tão cedo (ou mesmo paradoxal diante de um País em colapso – em que as reivindicações sociais são comumente midiatizadas através dos gritos, bombas, e spray de pimenta) que é já na simplicidade de uma abertura delicada que Onde Começa um Rio se anuncia como um retrato potente do cenário de uma efervescência política dos últimos meses de 2016, mas de outra perspectiva: das micronarrativas, de dentro para fora e não o contrário. Não do conflito das ruas, mas da nascente dos desejos e das pulsões de jovens com vontade de se construir emancipadamente. Um horizonte incerto, um percurso no qual não se é possível definir nem os pontos de partida, nem vislumbrar a chegada, mas onde nuances nos apresentam uma pluralidade de matizes e a certeza de que algo está mudando. O filme é um mergulho naquilo que poucos vêm – ou que poucos estão dispostos a querer mostrar – e só é possível pelas relações horizontal entre xs diretorxs e os estudantes.

O documentário parte de uma viagem dxs realizadores (indivíduos que também são engajados nas ocupações e com histórico de militância em movimentos como Ocupe Estelita, Ocupe Cine Olinda e Ocupa MinC) desde o interior de Pernambuco até Brasília, acompanhando duas dezenas de ocupantes da Universidade Federal de Pernambuco doscampi do Agreste. Na capital do País, o filme se encontra com estudantes do Brasil inteiro que foram pressionar e se fazer presentes nos dias que circundaram a votação da PEC do Fim do Mundo, a que aprovou o congelamento dos recursos da saúde e educação para os próximos 20 anos. Vistas de perto, as ocupações que o filme se propõe a registrar, ou mais especificamente, as pessoas que Onde Começa um Rio nos permite ouvir se anunciam como sujeitos políticos que têm demandas que extrapolam as pautas institucionais e revelam uma transversalidade de reivindicações.

A narrativa do documentário ultrapassa o discurso polarizado que a mídia hegemônica foi capaz de (ou desejou) capturar e adentra as interseccionalidades de uma luta que era sim, contra uma série de retrocessos sociais implantados por um governo golpista, de Michel Temer, mas que, a partir desse mote, desdobrou-se em uma insurgência, em grande parte autonomista, contra opressões históricas de classe, raça, (identidade de) gênero e sexualidade. Onde Começa um Rio contribui, assim, para uma representação com a complexidade merecida de um momento intenso de ação política do país, quando mais de mil instituições de ensino foram ocupadas e se inscreve ao lado de filmes como a Revolta do Buzu e Acabou a paz: isso aqui vai virar o Chile, ambos do cineasta Carlos Pronzato, que dão conta de discursos contra-hegemônicos acerca de revoltas sociais. O ano de 2016, assim como 2013 – ou como reverberação dele -, reascendeu a força da mobilização política que, ao mesmo tempo em que se contrapôs a gestos governamentais, colocou-se como o questionamento de um modelo excludente vigente sob a égide do capitalismo.

Como evidencia o filme, dentro das escolas e universidades ocupadas, amadureceram e se expandiram os discursos acerca das faces da exclusão que, portanto, assumiram também a cara de pautas identitárias. Com uma proposta de universidade inclusiva, alunxs abriram as portas para moradorxs vizinhos aos campi, que nunca sequer tinham pisado em um ambiente universitário. No mesmo desejo de troca, estudantes assumiram as funções da limpeza e segurança do prédio enquanto os funcionários  participavam de aulas públicas. Emblematicamente, Onde Começa um Rio entrevista integrantes da ocupação Quilombo, da UnB, diretório negro criado como espaço de resistência frente aos racismos dentro do ambiente acadêmico,  assim como uma estudante indígena de medicina que reafirma sua origens étnicas diante de um modelo de conhecimento que silencia seus saberes. Na Ocupa das Minas, prédio ocupado exclusivamente por mulheres, ouvimos vozes femininas lerem seu manifesto contra o machismo, enquanto (para manterem suas identidade preservadas) aparecem em silhuetas na contraluz, durante uma aula de defesa pessoal.

O filme é construído a partir de entrevistas e reflexões dos estudantes acerca de um momento presente, mas não propriamente da ação. É a possibilidade de complexificar o debate sobre um período histórico que ainda não passou e se apresentar como um documento mnemônico a partir da perspectiva dos alunos, sendo também ferramenta para mais uma etapa das reflexões e compreensões de si. Para além de um capítulo importante da construção do Brasil, o que dá ao documentário um peso histórico, as ocupações são também uma experiência transformadora partilhada por uma geração. Diante disso, o documentário não deixa de ser um registro de um comum tatuado na memória de uma coletividade.

Onde Começa... é sobre um rio do presente, que fala por si. Das margens e de um desejo caudaloso de seguir em frente, no contra-fluxo do mar, questionando modelos postos como sendo únicos. Onde Começa um Rio é sobre representar-se e colocar em xeque os representantes, é horizontalizar-se colocando a prova as representações verticais. É entrincheirar-se experimentado outras formas de vida em comunidade, quando tudo conspira para dizer que só é possível reproduzir o igual. A partir da aproximação desses que o filósofo francês Didi-Huberman chamaria dos “vagalumes”, o documentário é capaz de promover um escuro momentâneo  que dá a ver parte da narrativa silenciada pelos holofotes e refletores da sociedade espetacularizada.

Filmado entre outubro e novembro 2016, durante duas semanas, e assumindo a estética do cinema que se propõe a ser intervenção na sociedade, o documentário foi lançado com o tempo da urgência pouco mais de um semestre depois da volta dos realizadores ao Recife, no CachoeiraDoc (BA), em setembro. Produzido de maneira independente e declarando seu vinculo e comprometimento com  aqueles que entrevistou, o documentário circulará em universidades em um momento em que se celebra um ano das ocupações e, ainda este mês, estará disponível online gratuitamente. Passados 12 meses, paira sobre muitos estudantxs a perseguição política, de modo que, na UFPE, como caso mais próximo do filme, inquérito solicitado pela reitoria recomenda a expulsão de seis alunos da universidade. O filme, mais uma vez, se mostra urgente e, por mais um motivo, necessário.

Compartilhar:

Sobre o autor

Chico Ludermir

Chico Ludermir é jornalista, escritor e artista visual. É integrante dos movimentos Coque Vive/Coque (R)existe e Ocupe Estelita. Atualmente é mestrando em sociologia pelo PPGS-UFPE e pesquisa as relações entre arte e política.