Uma leitura sobre “A História Incompleta de Brenda e de Outras Mulheres…”

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Por Bruna G. Benevides

De repente recebo um pedido na minha caixa de mensagens, falando de um livro escrito por uma pessoa, cis, a respeito de histórias de pessoas Trans e pedindo para dar a minha opinião sobre a forma que as coisas foram postas. Especialmente a partir da discussão sobre representatividade x visibilidade.

De inicio, acabei não dando a atenção devida, por se tratar de histórias que, enquanto militante ativista, estava acostumada a ouvir. Recheadas e dor e amargura. Mas cheias de vida e superação de desafios por sobrevivência.

1-minNo entanto, ao me deparar com a obra do Chico Ludermir, fiquei muito surpresa com a delicadeza e a simplicidade que as pessoas são mostradas. Retratadas enquanto seres humanos de fato, tão diferente de textos outrora escritos sobre nossas vidas. Entrelaçadas, como uma colcha de retalhos que em muitos momentos se confrontam exatamente com as mesmas violências, perspectivas, necessidades e possibilidades.

Enquanto ainda me ambientava sobre a leitura:

Clarissa, eu tenho uma super amiga que mora em Recife. A Brenda…

– Legal.

Passados alguns dias e já com a leitura iniciada:

– Menina, tu não vai acreditar! A Brenda do Livro é minha amiga!

Em muitos momentos fiquei feliz, triste, excitada e algumas vezes senti a dor de cada  uma, especialmente por ser uma Mulher Trans – com identidade Travesti, que a cada linha, página e capítulo se enxergava ali. Nua, exposta na minha mais interna singularidade. Tendo meu corpo e minha vida escancarados diante do alcance que os textos poderiam causar. Diante de toda mudança e ressignificação, desconstrução e construção que ele poderia promover. Cada pessoa ali era um pouco de mim e eu um pouco de cada uma delas.

– Oxe, Bruna, mas eu falo de tu nele – Disse Brenda, quando falei que estaria lendo sobre sua história. O que me deixou ainda mais eufórica para terminar de ler…

Mariana (Fotografia: Chico Ludermir)

Mariana (Fotografia: Chico Ludermir)

Desde a Diva européia à uma moça moradora do barraco, todas vivemos uma realidade cruel devido ao preconceito e falta de diálogo a respeito da nossa identidade de gênero e todos os tabus e estigmas atrelados a ela. Desde a infância e problemas familiares, à negação da cidadania. Falta de direitos, de expectativas ou perspectivas. Na luta por (re)existir em uma sociedade que não quer que existamos. Que diariamente tenta nos calar, perseguir, silenciar e matar. Para nos manter no único lugar que ela determinou que estivéssemos.

Nas esquinas. Cumprindo nossos destinos e endossando a estimativa dos noventa por cento da população de travestis e mulheres transexuais que vivem da prostituição, a maioria por falta de oportunidade. E mesmo as que querem estar lá, sem a possibilidade de ver uma humanidade, às vezes perdida, em seus corpos.

Corpos esses que servem para o show midiático, mas nunca para uma convivência natural, respeitosa e harmônica em sociedade. Construído a partir de padrões pré-estabelecidos, que nos aprisionam e nos faz sofrer para buscar esse modelo que está normatizado. Nos fazendo, às vezes, negligenciar nossa própria saúde por conta disso. Corpo que não pode ser amado, mas pode ser desfrutado nas mais delirantes fantasias. Que pode ser violentado, usado e assassinado, sem que ninguém chore por nossas percas.

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Francine (Fotografia: Chico Ludermir)

Tudo isso e muito mais é dito de uma forma muito peculiar. Sublime. Intensa e honesta. Por alguém que se fez espectador, despindo-se claramente de seus privilégios para incorporar os desafios de cada vivência, e sentir na pele o peso de ser quem é. De lutar para afirmar a sua vida enquanto pessoa, irmã, filha, esposa, mãe… mulher ou não!

E essa mulheridade que trazemos no corpo é constantemente confrontada no dia a dia. Mas no livro, ela fica clara como uma salvadora de nós mesmas. A busca eterna pela nossa mulheridade é que nos motiva a seguir adiante, confrontando a tudo e a todos para nos reconhecermos frente ao espelho e marcarmos nosso lugar na sociedade. Para dizer que existimos e que precisamos ser ouvidas.

Agradeço a Clarissa, por ter me apresentado e me desafiado.

Fiquei com uma vontade imensa de visitar a cada uma delas, ou nenhuma, mas de buscar essas pessoas que estão gritando caladas, e que quase nunca somos capazes de ouvir. Simplesmente ouvir o que elas têm a dizer.

Christiane (Fotografia: Chico Ludermir)

Christiane (Fotografia: Chico Ludermir)

E ao Chico, a minha gratidão, por conseguir falar sobre uma realidade tão distante e presente na vida de todos, de forma tão clara e objetiva. Por falar de mim e delas! Me senti representada, amparada e principalmente amada. Pelo carinho que senti e pela certeza de que temos mais que um amigo, mas um aliado em nossa luta.

Leiam o livro, presenteiem as pessoas que gostam com esse magnífico relato cheio de vida. Cheio de sonhos, esperança e força! E mais do que isso, promovam a mudança que queremos ver e ser na sociedade, e na vida das Brendas que viermos a conhecer…

Gratidão!

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Sobre o autor

Bruna G. Benevides

37 anos, casada, Travesti, Militar, 1ª Mulher Transexual a Receber o Prêmio Mulher Cidadã da ALERJ, Militante LGBT e Ativista Transfeminista. Coordenadora do PreparaNem Niteroi, Presidenta do Conselho Municipal LGBT de Niteroi, Secretária de Articulação Política da ANTRA, Coordenadora GTN, Cidadã... HUMANA!