Um segundo conto da era Schumpteriana:

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Por Gudeco

Os códigos de barra passam pelos sensores ópticos, que emitem sons irritantes para confirmar a leitura. A atendente do Caixa 1 tem um coeficiente médio de produtividade 5% maior que o da atendente do Caixa 2, que é 3% menos produtiva que a atendente do Caixa 3. Isso significa que a atendente do Caixa 1 se esforça demais por um reconhecimento que nunca vai ter. Também significa que, caso elas passem produtos simultaneamente pelo leitor óptico, o próximo ruído estridente virá primeiro do Caixa 1, depois do Caixa 3 e, por fim, do Caixa 2, até que o Caixa 1 complete 100 ruídos no mesmo período em que o Caixa 3 completar 98 e o Caixa 2, meros 95. Esse efeito de síncope pode ser interessante tanto se os caixas estiverem distantes, causando uma sensação de movimento panorâmico do som, quanto muito próximos, de forma que os picos de amplitude de uma onda influenciem os declínios de outras, provenientes de outro caixa, em diferentes momentos, até que o ciclo eventualmente se complete e os Caixas soem em uníssono antes de uma repetição.

É claro que existem outras variáveis. Pode haver uma demora maior em algum pagamento. Uma das atendentes pode passar algum produto em duplicidade e ter que solicitar o cancelamento. Pode ser necessário inserir manualmente no sistema o código de um produto cujas barras estejam ligeiramente danificadas ou de outra forma ilegíveis, eliminando o som de confirmação. Esses elementos serão de caráter livre.

O telefone toca. Os empacotadores abrem suas sacolas. Laís abre muitas de uma vez e simplesmente espera pelos produtos. Pablo tem dificuldades. O telefone continua tocando. Um cliente resmunga na fila.

Marcos atende o telefone e digita uma sequência numérica em um computador pré-histórico que foi preservado em âmbar até a contemporaneidade.

Os caixas são divididos em duas alas: lateral e frontal. Os cinco caixas da ala lateral estão fechados para balanço. Em quatro deles, os funcionários friccionam suas canetas contra uma folha de papel vagabundo. Transcrevem informações de comprovantes fiscais para uma planilha completamente desnecessária que ninguém vai ler. Gilberto, do quinto caixa, não faz nada. Vivian passa dois produtos pelo leitor, Josi passa um e Edna passa o mesmo produto duas vezes. Marcos fala algo sobre o estoque. Pablo ainda tem dificuldades. Edna solicita o cancelamento. Pablo finalmente consegue abrir a sacola. O Gerente passa um cartão na máquina de Edna, que acabou de chegar, mas já quer ir embora.

Isso tudo se repete com pequenas latências que comprometem a sincronia, de forma que aos poucos as ações passem a se alternar em ordens diferentes da que foi citada. Sim, os erros de Edna e a dificuldade de Pablo também se repetem na mesma proporção. Eles serão devidamente demitidos.

Gilberto ouve com atenção e mentaliza este texto, exatamente como escrito até o parágrafo anterior. Repara que ele poderia ser uma partitura, que esta poderia ser uma peça musical brilhante ou razoável, dependendo do esmero dos intérpretes. Poderia inclusive ser um Gesamtkunstwerk, se perfeitamente coreografado. Sente-se frustrado por estar preso a uma caixa registradora, sem poder se dedicar à sua arte. Percebe que gasta todos os seus dias ali, em atividades sem sentido, enquanto poderia estar aprendendo sobre algo ou produzindo sua obra-prima. Conclui que o trabalho serve para manter as pessoas burras.

Gilberto então inclina sutilmente a cadeira para trás e, após empurrar o chão com os pés para ganhar um curto impulso, se levanta, vai ao banheiro e se mata. É previsível, eu sei. Perdão. O barulho resultante do impacto de sua caixa craniana com a divisória de granito que separa os mictórios é ouvido por todos. Não houve grito. Alguns funcionários correm para o banheiro e percebem o que aconteceu. Acham que foi um escorregão. Culpam a faxineira. Ligam para os paramédicos, para os bombeiros e para a família. Nada adiantaria, ele já está morto. Já está morto há umas oito ou nove frases. Mas ninguém ali poderia saber disso e, portanto, continuam as ligações e acusações. Afinal, Gilberto usava os sapatos que lhe foram presenteados no amigo oculto da empresa. Um modelo vagabundo, sem sola antiderrapante, escolhido pela preguiçosa da vendedora de frios.

Todos param de executar suas funções. Tadeu e Gabriela sentem um certo alívio por não estarem trabalhando agora.

Constatada a morte, a filial fecha e todos são liberados mais cedo. O céu nublado passa a revelar pequenos raios de sol.

Ilustra por Gudeco

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Sobre o autor

Gudeco Sobrenome

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