TREMA!: teatro, arma de desconstruir distopias

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Por Clarissa Macau

“Já não adianta fazer de conta e marchar em torno de uma ordem, um progresso que já percebemos que não dará certo e nem será encontrado. Mas há uma urgência em discutir e debater novos caminhos”. Essas palavras são de Pedro Vilela, o curador e idealizador do TREMA! Festival de Teatro que chega em 2017, entre os dias 03 e 14 de maio no Recife, com quinze espetáculos que evocam a ideia de que 2016 não foi o pior ano dos últimos tempos, mas só mais uma página da contínua barbárie que o Brasil e o mundo vivem. O grupo português Circolando abre a programação no Teatro Barreto Júnior (Zona Sul da cidade), nesta quarta-feira (03), às 20h, com a peça performática Noite. Nela, três homens dançam na escuridão à procura de luz. A curadoria, com o tema distopias e realidades, traz ainda destaques como a trilogia Abnegação, do grupo paulista Tablado de Arruar, que questiona frontalmente quem é e o que foi a esquerda política que chegou ao poder do Brasil por 12 anos. Outras atrações são Leite Derramado, peça inspirada no livro homônimo de Chico Buarque, dirigida por Roberto Alvim e interpretada pela atriz Juliana Galdino – no papel principal de um velho que reconta a história brasileira do seu ponto de vista -; e o musical Cabeça – Um documentário Cênico, do grupo carioca Complexo Duplo, com músicas e dramaturgia baseada no disco Cabeça, dos Titãs. O corpo como plataforma política também é posto em cena na performance de Orgia ou de como os corpos podem substituir as ideias, do grupo Kunyn (SP), e na estreia da instalação Utopyas to Everyday Life, das atrizes Flávia Pinheiro (PE) e Carolina Bianchi (SP/RS). Entre as produções locais, está Ossos, adaptação do livro de Marcelino Freire, pelo Coletivo Angu, e o ator Márcio Fecher apresenta pela primeira vez seu solo Meu nome é Enéas – o último discurso, que homenageia os 10 anos da morte do homem que dedicou seus últimos 18 anos ao projeto de uma nova política nacional. Os ingressos que custam entre R$20 e R$10 reais.

Espetáculo Noite (Fotografia: José Caldeira/divulgação)

Espetáculo Noite se inspira nos poemas sombrios do poeta português Al Berto (Fotografia: José Caldeira/divulgação)

Numa carta-release a equipe do TREMA! lista uma série de nomes, palavras que lembram acontecimentos conhecidos pelos brasileiros e que chocaram a opinião pública ao longo de mais de duas décadas: “Antes disseram que era culpa de um portal. Na verdade, costumamos recorrer a esta história a cada final de ano para justificarmos tudo que passou. Assistimos os Nardonis, ônibus 174, Eliza Samudio, Amarildo, chacina da Candelária, Índio Galdino. Quer mais? O menino Bernardo, Celso Daniel, Maníaco do Parque, Tim Lopes e Cláudia Silva Ferreira arrastada por 350 metros numa viatura….. Já tinha existido Urso Branco, Carandiru, Pedrinhas. Mas ainda veio Alcaçuz, Anísio Jobim, Monte Cristo. E tome delação, lista, vazamento e invenção. A última, chamaram de ‘fim do mundo’. Não acabou nada por aqui. E por aí?”. Desde sua primeira edição, em 2012, o TREMA! tenta compor curadorias conectadas com o espírito do tempo. Ano passado, às vésperas do impeachment da petista e então presidenta Dilma Rousseff, época em que o maniqueísmo de opiniões entre esquerda ou direita política se agravava de forma agressiva, o mote do festival foi (Re)Construção. O desejo era propor um espaço para conversar sobre as ruínas ideológicas de uma nação a partir de trabalhos sensíveis de grupos como As Travestidas ou solos teatrais como Vaga Carne, da atriz Grace Passô, e Soledad, a terra é fogo sob nossos pés, da atriz Hilda Torres interpretando uma militante durante a ditadura militar. “Estávamos num momento pré-golpe.Trazíamos a ideia de que se as pessoas não poderiam debater em paz nas ruas, que elas tivessem a possibilidade de fazer isso no espaço do teatro. Um ano depois as coisas no país desandaram mais ainda”, afirma Vilela à Cardamomo. O cenário das repetitivas passeatas a favor e contra o impeachment, ocorridas naquela época, foram substituídas pela atual revolta da greve geral contra a aprovação de reformas trabalhistas e previdenciárias propostas arbitrariamente, sem consulta à população, pelo governo do presidente Michel Temer. No Maranhão os índios Gamela recentemente tiveram suas mãos decepadas por fazendeiros que não querem dividir as terras nativas. A lista de políticos ladrões de cofres públicos de partidos de variadas doutrinas só aumenta em operações escandalosas como a Lava Jato.

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Segundo Vilela, a quinta edição traz esse senso de realismo apurado sobre a condição da sociedade, que pode ser confundido ou mesmo assumido como pessimismo. “E se esse mundo for o inferno de outro planeta?”, a famosa frase do escritor inglês Aldous Huxley é a inspiração original para o tema distopias e realidades, uma relação que parece não se distinguir mais, porque o “lugar ruim”, essa sátira que alerta para uma utopia negativa resultado de possíveis escolhas ruins feitas pela humanidade parece ter virado o nosso cotidiano. Um dos maiores escritores de romances distópicos, Huxley escreveu no seu livro Contraponto, de 1928,  pensando na condição humana após o fim da primeira guerra mundial: “– Mas isso é tão tolo, todas estas disputas políticas (…) fascistas, radicais e conservadores, comunistas e Ingleses Livres – por que diabos estão se batendo eles? Eu lhes digo. Estão lutando para decidir se nós vamos para o inferno pelo trem expresso comunista, ou pelo auto de corrida dos capitalistas, ou pelo ônibus dos individualistas ou pelo bonde coletivista que rola sobre os trilhos do controle do Estado. O destino é o mesmo em qualquer dos casos. Todos eles vão direito ao inferno”. Um pensamento irônico do início do século 20, mas que se comporta, com algumas poucas adaptações, pertinente na realidade contemporânea.

A Revista Cardamomo conversou com Pedro Vilela sobre as motivações do TREMA! 2017 e o inferno instaurado ao redor do público, dos artistas, enfim da sociedade.  “Dentro dessa configuração distópica, em que o país está inserido, existe uma ótica muito negativa e destrutiva na relação entre público e artistas. É um estágio tão absurdo que os artistas começaram a ser meio que criminalizados por viverem de arte por trabalharem com arte, acusados de mamar nas tetas do governo”, relembra de polêmica criada durante a ameaça de fechamento do Ministério da Cultura, feita pelo governo Temer em maio de 2016. Apesar do pessimismo, algumas notícias boas se realizaram ao festival. Orçado em R$200 mil, pela primeira vez em cinco anos, o evento, inicialmente independente e focado no teatro de grupo, conseguiu apoio da Lei Rouanet, através do Ministério da Cultura e Banco Itaú, além de patrocínios do SESC PE, da Prefeitura do Recife e incentivo do FUNCULTURA – Fundo de Incentivo à Cultura de Pernambuco.  “Á princípio pode ser meio esquizofrênico [esse relacionamento entre arte e mercado privado], mas que bom que existe brecha para que isso aconteça, algo ainda raro. Eu também acredito muito num Estado extremamente presente funcionando como um regulador financeiro em torno das artes. Então, se pensamos na França, Alemanha, sentimos a presença do Estado muito forte financiando espaços privados, financiando uma grande quantidade de companhias. Investir no teatro é necessário. São muitos direitos [sociais e políticos]sendo destruídos, questões simples que não são discutidas e o teatro é um aliado para criar debates necessários e que estão ausentes na sociedade” acredita e completa: “Partimos de um lugar de incertezas, quando não sabemos ao certo ainda como nos colocar diante de uma situação, mas a única certeza que temos é que estamos em busca de compreensões”. Para conhecer a programação completa com peças a preços democráticos, debates e oficinas gratuitas, ler as resenhas dos espetáculos e adquirir os ingressos acesse o site www.tremafestival.com.br. Confira a entrevista:

O curador Pedro Vilela (Fotografia: Bernardo Dantas para a Revista Cardamomo)

O curador Pedro Vilela (Fotografia: Bernardo Dantas para a Revista Cardamomo)

REVISTA CARDAMOMO – Nos dias de hoje, escutamos bastante essa palavra DISTOPIA. Na visão do TREMA!, que distopia é essa e como vocês buscaram a partir do recorte curatorial contemplar uma possível resposta, ou uma plataforma para ecoar a perguntar “E se esse mundo for o inferno de outro planeta”?

PEDRO VILELA – Eu acho que o TREMA! desse ano é quase uma continuidade da nossa edição do ano passado. Ano passado a estávamos  discutindo muito a situação política que o país vivia. Foi num momento pré-golpe. E de alguma maneira as peças que estavam no festival traziam reflexões pulsantes daquele momento como uma antena para o que viria. O golpe se consolidou e percebemos que não saiu do lugar. A verdade é que as pautas conservadoras ganharam mais espaço e começamos a regredir, entramos num lugar de distopia. Alguma coisa deu muito errado aqui. O festival passa por esse lugar. Fruto também dos espetáculos que nós fomos acompanhando entre a edição passada e essa edição, no qual há um tom de pessimismo, de incompreensão da situação política e social que o país vive. Nesse lugar não existe muita clareza e sim uma diversidade de questões que precisam ser postas. Então, quando pensamos, por exemplo, nos espetáculos da trilogia da Abnegação, que estão na programação, eles passam muito por esse lugar de se perguntar e perguntar o que foi essa esquerda política que chegou ao poder do Brasil. Como lidar com a esquerda? Que país foi esse que ela criou? Que desilusão foi essa que tivemos? As obras do festival passam por esse lugar de contestação sem otimismo.

CARDA – A edição anterior veio com o mote (Re) Construção. Havia um desejo de reconstruir as ruínas de um país, pelo menos ideologicamente. Como vocês analisam a relação entre essas duas edições do TREMA? Se antes vocês queriam inspirar a reconstrução, vocês agora querem inspirar o quê?

VILELA – Queremos, talvez, constatar que a arte pode ser uma aliada para encontrar caminhos. Dentro dessa configuração que o país foi inserido existe uma ótica muito negativa e destrutiva na relação entre público e artistas. É um estágio tão absurdo que os artistas começaram a ser meio que criminalizados por viverem de arte, por trabalharem com arte e navegarem num lugar onde não é operacionalizado apenas sob a ótica do lucro, mas que também gera reflexão, sensibilidade, não só produto, mercado, mas também geramos economia. De alguma maneira, o festival desse ano serve para mostrar que nós, artistas, podemos ser uma via de reflexão. O teatro pode ser esse lugar de encontro pra tentarmos buscar alternativas… Não sei o que queremos inspirar nessa edição… [risos]. Eu, particularmente, ando com uma visão muito pessimista das coisas. Acho que isso de alguma maneira reflete na programação e na grade.

CARDA – Nós sabemos que existe uma intolerância extrema entre ideologias políticas no Brasil, tanto do lado da direita, quanto do lado da esquerda. O cenário artístico mais experimental do teatro é dominado pelo pensamento de esquerda e aí o TREMA traz para 2017 essa trilogia chamada Abnegação, do grupo Tablado de Arruar, que toca basicamente num tabu, ousando escancarar os podres de um partido esquerdista específico como o PT. Qual a importância de apresentar na programação um trabalho como esse?

VILELA – Eu percebo que estamos num momento que não podemos abrir concessões. Não é tempo de se fazer de besta nessa relação que pretendemos ter com a sociedade. Já não adianta fazer de conta e marchar em torno de uma ordem, um progresso que já percebemos que não dará certo e nem será encontrado.  Não há mais espaço para entrar no teatro e dedicar uma hora da nossa vida para uma peça que só vai me entreter. Pelo menos é isso que refletimos muito dentro da TREMA! Plataforma. Quem acompanha festival pode perceber isso. Outra coisa é a necessidade que nós temos de fazer autocrítica. Só vamos conseguir nos reconstruir e reestabelecer novos paradigmas a partir da autocríticas para entender o que foi que deu errado, tentar refletir que país foi esse que conseguimos construir até agora, quais as alternativas, que caminhos são esses que podem ser trilhados. Que bom que a arte possibilita isso. E a trilogia da Abnegação faz exatamente isso. Eu acho maravilhoso porque o Alexandre [Dal Farra, seu autor] tem esse lugar potente de se autocriticar. Tanto na trilogia quanto nesse último trabalho dele [Branco, O Cheiro do Lírio e do Formol] que estreou na MIT – SP tentando refletir sobre o racismo no país. E é uma obra que basicamente é sobre o processo artístico que ele teve para construir a própria peça e a possibilidade de um branco não ser racista. É esse lugar de incertezas, quando não sabemos ao certo ainda como nos colocar diante de uma situação, mas a única certeza que temos é que estamos em busca de compreensões. Existem esses assuntos que achar o tom para debate-los é complicado, mas mesmo assim precisamos falar, é difícil falar sobre o branco e também é complexo falar da esquerda que tem essa ideia de ser intocável para nós artistas. O Alexandre dá esse sacolejo que é urgente. Se não fizermos isso ficamos num lugar de inércia. O abismo que estamos nos aproximando cada vez mais é fruto disso. Os caras [os políticos]estão aí aprovando a reforma trabalhista, previdenciária, enquanto isso estamos só fazendo guerrilha de internet, postando coisinhas e tal, mas não acontece nada. Se olharmos pra outros países da América Latina, coisas muito menores aconteceram e as pessoas foram pra rua, quebraram o congresso e se posicionaram. É difícil! Nós precisamos reconstruir essa lógica de que a nossa sociedade está inserida de que o vândalo é o cara que quebra a janelinha, mas que não é vandalismo você chegar num hospital e não ter vaga, nem ser atendido. Isso também tem a ver com a nossa formação cultural, né? Está tudo muito ligado, porque quando há a proposição de se fazer um festival com um recorte como o nosso, com essas reflexões, com ingressos com preços democráticos, possibilitando que não seja um festival elitista, isso nos dá uma missão de apontar: “Olha a gente tá aqui, vamo construir esses caminhos juntos. Não tem como ser como está”.

Abnegação 1 (Fotografia: Jennifer Glass/divulgação)

Abnegação 1 (Fotografia: Jennifer Glass/divulgação)

CARDA – A peça Branco, de Dal Farra, foi assunto de polêmica na última MIT- SP sendo taxada de racista por alguns. Você como crítico e que esteve lá para assistir como observa essa análise?

VILELA – Na verdade, a polêmica surgiu em torno do texto de outro crítico que julgou a peça como racista. Eu não concordo com a leitura dele sobre a obra. A peça problematiza a dificuldade em não ser racista ao lidar com o tema do racismo. No espetáculo, o Alexandre compõe diferentes situações cotidianas que existem quando o branco lida com esse assunto e falha. Escreve as cenas e percebe nessa escrita como é difícil se desvencilhar desse racismo na sociedade. É uma autorreflexão necessária e muito difícil.

Leite Derramado (Fotografia: Edson Kumasaka/ Divulgação)

Leite Derramado (Fotografia: Edson Kumasaka/ Divulgação)

CARDA – O espetáculo mais aguardado do TREMA! Festival, segundo declaração de vocês no programa do evento, é LEITE DERRAMADO. Por que?

VILELA – Eu vi a estreia de Leite Derramado no festival Mirada que acontece em Santos. O Roberto Alvim [diretor e dramaturgo]conseguiu fazer uma leitura da obra do Chico que chega a ser inusitada e com um grau de execução muito sofisticado. Ele consegue apontar para um lugar de reflexão do Brasil que não vai pelo caminho mais direto entre os personagens principais. A presença da Juliana Galdino fazendo o personagem principal é um dos trabalhos mais emblemáticos que eu vi nos últimos anos na cena brasileira. É um espetáculo que vale muito a pena ser visto pela temática, por lidar com o trabalho do Chico, e também pelo trabalho desenvolvido por essa atriz em cena que vem chocando muita gente. Ela faz um velho, o Eulálio, com seus oitenta e poucos anos. Juliana tem uma pesquisa desenvolvida com o Antunes Filho que está muito pautada com o estudo da vocalidade, é uma atriz que tem muitos recursos em cena. Outro trabalho que eu curto muito é o Cabeça – um documentário cênico [do Complexo Duplo], que é em cima de celebrar os trinta anos do disco Cabeça Dinossauro do Titãs [banda de rock]. É maravilhoso ouvir músicas gravadas em 86 que ainda possuem tanta pertinência em refletir sobre a violência, sobre a polícia, o papel da igreja e do Estado, dessas famílias conservadoras. Tudo isso continua muito latente. É muito gostoso ver o elenco tocando o disco ao vivo, o lado A e o lado B, e essa relação com o documental. E essa questão do texto e da cena feita a partir da dramaturgia do disco para compor outras camadas de dramaturgia. Tem o espetáculo de abertura também, o Noite, que é do grupo Circolando de Portugal, uma das referências no país deles. Inicialmente, eles tinham uma pegada mais voltada para o circo, mas foram mudando em sua trajetória. É um trabalho plástico visualmente muito bonito de se ver. É muito intenso, três corpos predispostos ao que estão impondo naquele momento. Dentre as obras locais tem o Salmo 91 que parte do massacre do Carandiru. Não precisamos ir lá no Carandiru [em 1992]para saber com o que essa peça se relaciona, podemos pensar nas penitenciárias de Alcaçuz, Pedrinhas. A crise carcerária atual que o país vive está presente nela. O coletivo Angu que junto ao teatro Kunyn traz esse recorte mais para a pauta do LGBTT. O Orgia [ou de como corpos podem substituir as ideias], do Kunyn, há muito tempo queríamos trazer para Recife. Um espetáculo que quem viu foi Mariana que é coordenadora de produção do festival. É uma peça baseada no livro Orgia dos diários do Tulio Carella, que foi um professor argentino que viveu no Recife na década de 60 e aqui ele conseguiu viver a sexualidade dele nas ruas recifenses, nas pontes e principalmente no parque 13 de Maio. É um espetáculo que nasce em São Paulo e tem tudo a ver com Recife. Vai dialogar muito com a cidade.

A peça Orgia vai caminha pelas ruas da cidade do Recife pela primeira vez (Fotografia: Vitor Viera/ divulgação)

A peça Orgia vai caminha pelas ruas da cidade do Recife pela primeira vez (Fotografia: Vitor Viera/ divulgação)

CARDA – A quinta edição do TREMA! Festival conseguiu ser apoiado pela Lei Rouanet, através do Ministério da Cultura e Instituto Itaú Cultural, algo inédito. Também conseguiu recursos do FUNCULTURA – Fndo de Incentivo à Cultura de Pernambuco, entre outros apoios. Até ano passado, para acontecer, o TREMA contava com o dinheiro pessoal de seus próprios idealizadores. Esse ano as coisas mudaram ou vocês ainda têm que investir de maneira quase que totalmente independente?

VILELA – Esse ano estamos fazendo com um pouco mais de tranquilidade. Acontece também que somos meio doidos. O recurso que recebemos do Funcultura só contemplaria três grupos nacionais e estamos trabalhando nessa edição com quinze grupos, entre eles um internacional. Usávamos muito da nossa amizade pra conseguir trazer os grupos pra cá com cachês vergonhosos. Esse ano estamos conseguindo ser mais respeitoso com os grupos que aqui estarão. É importante também falar da presença dessas empresas que estão ao redor do TREMA. O momento do país é extremamente complicado e existem também muitas dessas empresas aderindo a essa palavra “crise” pra poder se eximir de certas responsabilidades sociais  que deveriam ter com o país. Eu acho louvável conseguir essa gama de apoiadores, patrocinadores para a realização de um festival como esse, principalmente pelo seu caráter. O festival não vai trazer globais, não vai trazer grandes nomes que teoricamente joguem uma grande luz de mídia ao redor do evento. O festival continua com o mesmo recorte e a mesma pegada de teatro de pesquisa. Trabalhos muito potentes que modificam um grupo que tenha contato com eles. E aí eu acho louvável você ter um Itaú e o Estado através do Funcultura apoiando esse tipo de realização.

CARDA – Sobre essa nova relação de vocês com o mercado privado, a partir do Banco Itaú, e junto a todos os apoios públicos conseguidos, queria fazer uma provocação.  Na opinião da teatróloga Iná Camargo Costa, em entrevista ao Brasil De Fato, ela diz que lutar por mais recursos públicos em editais é de certa forma reproduzir o sistema capitalista. Porque, de certa forma, é atuar dentro de um mercado onde já existem hierarquias de quem detém mais saber, de quem já é conhecido no meio, de quem já está no mercado e assume uma competição [Ela diz: “Não dá para imaginar que daí saia alguma alternativa revolucionária. Por isso venho perguntando com insistência aos artistas: vocês acham possível se dar bem e ser feliz neste mundo, tal como ele está organizado, ou a sua felicidade pessoal e profissional depende de uma mudança total? É claro que “mudança total” é código para revolução”]. Parcerias com o mercado de trabalho também entraria nessa lógica, que acaba alimentando esse capitalismo e que vai contra ideais revolucionários de mudar o mundo e que muitas vezes são endossados e desejados por parte dos espetáculos teatrais. Vocês acham que essas peças que vão se apresentar no festival têm a capacidade de mudar alguma coisa no mundo a partir desse sistema?

 VILELA – É um sistema que está em construção. Ainda não tem como negar nenhum dos lados. Eu acredito muito num Estado extremamente presente e que ele é um regulador financeiro em torno das artes. Então, se pensamos na França, Alemanha, sentimos a presença do Estado muito forte financiando espaços privados, financiando companhias. A quantidade de companhias que possuem esses países, companhias estáveis de pesquisa, é enorme em relação ao nosso país. O efeito desses recursos pode ser visto nos últimos dez, doze últimos anos. Através de, consideravelmente, poucas ações desenvolvidas pelo governo federal conseguimos a estabilidade de muitos grupos teatrais. Se olharmos para a trajetória do país são muitos grupos fortalecidos, justamente porque foi um período em que o Estado esteve muito presente participando ativamente na manutenção desses coletivos. Eu acho que precisamos de diálogo. Não temos como refutar a relação com o campo privado. Hoje eu estava pensando sobre isso, porque é meio louco, né? Um festival que tem essa pegada, tem essas reflexões e ser patrocinado por um banco. Mas não é louco da nossa parte, eles que são meio loucos. Ao patrocinar um festival como esse eles estão assinando em baixo o compromisso que eles têm em torno da responsabilidade social do país. Que bom que eles fazem isso. Nós temos um monte de empresa privada que não está nem aí para isso. Mas se pensarmos no Itaú, especificamente, no Instituto Itaú Cultural, Observatório Itaú, os programas que o Itaú desenvolve como o programa Rumos, então conseguimos perceber que é uma empresa que tenta estar antenada às necessidades do país e se relaciona com essas necessidades e realiza investimentos em prol dessa sociedade. A primeira relação que eu tive com o Itaú foi num debate pelo grupo Rumos, lá em 2012, quando eu ainda fazia parte do grupo Magiluth. Uma das questões colocadas foi: “Por que é que vocês acham que um banco está financiando vocês, um grupo de teatro que se encontra e reflete sobre a vida e a sociedade?”. Nós ficamos pensativos sobre isso. Á princípio pode ser meio esquizofrênico. Mas que bom que existe essa brecha isso acontecer. O que é defendido institucionalmente por eles é que isso surge da necessidade de investir em cultura no país e fazendo um mapeamento na área teatral brasileira perceberam que a produção era muito pautada por grupos e que existia essa demanda de encontros, de trocas e de intercâmbios.  Mas também é muito louco quando olhamos para os principais eventos culturais do país e são essas mesmas instituições que estão financiando, que estão bancando.

 CARDA – Ano passado na entrevista feita à Cardamomo, a equipe do TREMA mencionou um debate no qual a produtora do festival Janeiro de Grandes Espetáculos, Paula de Renor, falou sobre a luta anual para adquirir recursos para continuar existindo, que é “quase humilhante um festival de 22 anos ficar justificando a importância, dizendo que não pode se deixar morrer”. Em entrevista com o idealizador do FETEAG, de Caruaru, Fabio Pascoal, ele também falou algo parecido, principalmente em relação aos recursos públicos. Levando em conta que o dinheiro público oferecido em Pernambuco não é o bastante para contemplar a todos, no dilema entre incentivar novos projetos ou fomentar a continuidade dos festivais e projetos que já estão consolidados, como seria possível equilibrar isso, na opinião de vocês?

 VILELA – Essa talvez seja uma das maiores distopias, porque vivemos num país onde a demanda é alta e o recurso é muito pouco. É preciso que o poder público tenha compreensão das linhas de ações que eles podem desenvolver porque também não podemos trabalhar nem com oito nem com oitenta. Eu super entendo as potencialidades de novos projetos, da mesma forma que super entendo trabalhos consolidados, referência para a cidade, estado. Para você ter ideia, por exemplo, quando pensamos o Funcultura, eles têm apenas uma linha pra contemplar festivais e se olharmos pro panorama do estado, existem no mínimo uns dez festivais. Isso faz com que para o meu ser contemplado é preciso torcer para que o outro não seja. Mas no fundo, no fundo cada um tem sua potencialidade. O TREMA! não consegue dar conta do teatro pra infância e juventude como o Festival de Teatro para Crianças de Pernambuco é capaz de fazer. A gente não consegue dar conta de estudantes, jovens promissores que podem ser contemplados pelo Festival  Estudantil de Teatro e Dança. Isso serve para apontar que não tem como caminhar em lados opostos, é necessário se juntar não para brigar pelo pouco que tem, mas se juntar  para lutar e aumentar esse recurso para que todos sejam contemplados, para que o meu projeto exista, sem que eu precise torcer pela derrota do outro.

A peça "Procura-se um Corpo" também está na programação (Fotografia: Rubens Henrique/ divulgação)

A peça “Procura-se um Corpo”,  do grupo Ói Nois Aqui Traveiz, também está na programação (Fotografia: Rubens Henrique/ divulgação)

MáquinaFatzer, do grupo cearense Teatro Máquina (Fotografia: Deivyson Teixeira)

“MáquinaFatzer”, do grupo cearense Teatro Máquina (Fotografia: Deivyson Teixeira)

 CARDA – E como fazer isso?

 VILELA – Eu acho que é a união da classe, né? Na verdade, isso tudo o que está acontecendo com o país é fruto da nossa incapacidade de mobilização, de estarmos juntos construindo, debatendo, de irmos às ruas, de reivindicar os nossos direitos. Estamos às vésperas de uma greve geral, mas o que isso de fato representa? O que isso vai reverberar? Porque essa greve geral vem sendo apontada há um mês, mas ontem os caras lá passaram o projeto da reforma. É quase como se eles dissessem, “Então, vão, vocês querem o quê? Vocês querem ir na rua, parar um dia? Podem ir. Parem. É um dia, vá lá, para. Vai sair no jornal, vocês vão postar coisas, vídeo no Facebook. Mas é a gente é que manda, a gente é que tá tocando e fazendo”. Onde podemos operar pra desconstruir isso? Qual é o nosso real poder? Como podemos dar uma prensa nesses caras para que de fato tenhamos conquistas? Só podemos descobrir isso juntos. Existe essa crise de identidades e lideranças. Talvez o momento seja esse de gerar o coletivo. O que esse coletivo de artistas que fazem teatro acha que pode fazer, onde ele pode operar? Quais são nossas questões urgentes, a médio prazo e a longo prazo?

CARDA – ¨Distopias são frequentemente criadas como avisos ou como sátiras, mostrando as atuais convenções sociais e limites extrapolados ao máximo”. Essa é uma frase que vocês fazem referência no programa e release do TREMA!. Essas distopias eram sátiras, mas parecem, hoje, ser a realidade. Diante disso, eu te pergunto utopias ainda são possíveis?

VILELA – Não tem como se esgotar, senão não tem como continuar a viver. Mas o estágio que vivemos hoje é de uma grande sátira. Aquilo que aconteceu no rito do impeachment é surreal [risos]. Eu acho que nenhum artista conseguiria construir uma obra como aquela de tão tosca, de tão grosseira do jeito como as coisas estavam expostas. Mas há quem ainda acredite, há quem não consiga ser crítico sobre aquilo. É isso. Estamos num estágio de bizarrice inserido num circo dos horrores. São muitos direitos sendo destruídos, questões simples que não são discutidas. De alguma maneira nesse momento histórico que vivemos de redes sociais, parece que não é preciso ter clareza sobre as coisas, não precisa compreender bem as coisas, mas sempre temos opinião. Opinião pra tudo. Isso agrava ainda mais, porque somos regidos pelo computador, mídia, rede social. Uma rede social faz você ter uma opinião qualquer, aí a outra faz você propagar mentiras e falácia, aí repassa. No final, não conseguimos debater, é só um repasse de informações e negação do outro. É aí que é a sacada do teatro, uma arte na qual é necessário o convívio, o encontro e que de alguma maneira vamos estar ali durante mais ou menos uma hora pra pensar sobre alguma coisa. Podemos também nos entreter, passarmos tempo. Mas nosso intuito é que essa uma hora seja potencializada ao máximo, que seja modificadora.

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(Fotografia: Bernardo Dantas especial para a Revista Cardamomo)

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Sobre o autor

Clarissa Macau

Idealizadora, jornalista, editora e produtora da Revista Cardamomo. Formada em comunicação pela Universidade Católica de Pernambuco.