TREMA!: Márcio Fecher e o último pronunciamento de Dr. Enéas

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TEXTO Clarissa Macau

FOTOGRAFIA Bernardo Dantas

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O ator pernambucano Márcio Fecher quer ajudar a construir a chamada “era da verdade” refletindo sobre as ideias de um personagem muito curioso da política brasileira. Enéas Ferreira Carneiro revive no espetáculo Meu Nome é Enéas – O último pronunciamento. O solo teatral estreia nesta sexta-feira (05), às 21h, no Espaço Cênicas (Av. Marquês de Olinda, 199), dentro da programação do TREMA! Festival de Teatro. Márcio começou a se interessar pelo personagem a partir de vídeos virais do Youtube. Neles, Enéas dá foras em jornalistas e colegas de profissão com o famoso “oclinhos” do “Deal With It!”. Enéas sonhava com uma nação onde a educação seria para todos, era nacionalista confesso, à favor da construção de uma bomba atômica, queria colocar ordem e defendia que o Brasil era um país com total capacidade de autonomia graças à sua natureza rica de minerais e energia, porém pouco explorada. Dez anos depois de sua morte, completados no dia 06 de maio, o político, médico, físico e matemático nascido em Rio Branco, no Acre, aparece nesse texto construído a partir de fragmentos de discursos reais de Enéas. “A internet foi uma grande parceira da peça. Como não existem livros falando sobre ele, eu conheci suas palavras com mais profundidade nos vários vídeos publicados online”, conta Márcio.

Enéas não poucas vezes foi taxado de moralista e histriônico. Márcio se contrapõe a essas únicas imagens e afirma que construiu seu personagem observando o lado positivo. “Ele dedicou 18 anos da vida sem precisar de cargo público em função da vida pública nacional e anunciou a desgraça que estamos vivendo agora em relação aos políticos. Não é uma peça onde estamos com um cunho partidarista,  mas, sim, elucidador social. Enéas sempre fala as mesmas coisas sobre libertação de um povo que é oprimido. A luta pela liberdade. Esse lugar da distopia é seu próprio discurso.  Pra ele não é o ‘Bicho pega, o bicho come”, mas o bicho já ficou e já comeu e estamos dentro desse inferno. Enéas sempre diz que a pessoa que conhece o valor dos bons o valor da honestidade muda a concepção sobre ela mesma. Mas ele era humano e como todo humano também era incoerente”, pondera.

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O criador do Partido de Reeificação da Ordem, o PRONA, costumava dizer: “Com quinze segundos fiquei conhecido em todo o Brasil. Claro que a grande maioria da população brasileira por ser mal alimentada não tem condição de acompanhar um ritmo de expressão a três, quatro palavras por segundo”. Políticos de carreira como Fernando Collor de Melo tinham três horas para falar durante o horário político da TV dos anos 1980 e 90, enquanto Enéas, candidato à presidência três vezes, ficou conhecido com seu bordão ultra-rápido de voz rouca e estridente: “Meu nome é Enéas”. Insatisfatório para conhecer suas propostas, mas o bastante para torna-lo rosto conhecido em rede nacional. O que lhe deu capacidade de alcançar o terceiro lugar na corrida presidencial de 1994 com mais de quatro milhões de votos e anos mais tarde se firmar como o deputado federal mais votado da história do Brasil. Alguns dos eleitores viam no ato de escolher Enéas uma forma de protesto contra a situação precária do país daquela época, outros simpatizavam com suas propostas. Em cena, Márcio se caracteriza fisicamente com o esperado terno, a barba do intelectual, os grandes óculos, uma bandeira do Brasil e um relógio enorme que sinaliza o tempo que sempre parecia tão curto para Enéas expressar suas ideias.”O processo de descoberta do personagem não se dá pela imitação. Claro busco uma aproximação de características, mas em nenhum momento é cômico ou é para vender o conteúdo de Enéas para ganhar o público. Eu entendi que é necessário ser portador da nova era da convicção. Nós não queremos mais mentira”, afirma Márcio Fecher.

A Revista Cardamomo conversou com Márcio sobre seu novo espetáculo. Confira a nossa entrevista em vídeo e texto:

“CAIR PARA CIMA”

Antes de escolher fazer essa peça eu vivi o monólogo Andar-te andarilho que é sobre um personagem que é abandonado pelo seu autor no início da sua criação. Não teve praticamente nenhuma aceitação popular. Quando eu tive, vivi esse fracasso porque os artistas vivem fracassos eu quis evidenciá-lo. Eu quis cair para cima. É preciso buscar o que as pessoas querem escutar e pensar, mas não só no sentido mercadológico, não só para ir para gostar. Com o fracasso eu repensei o que eu deveria colocar na praça. Todo ator, artista tem que ter um solo para ir para onde quiser. Anos atrás eu fiz o solo Severino da Gota Serena, que era para infância e juventude. Eu queria agora um solo para conversar com o público adulto do teatro contemporâneo. Eu não tinha uma ideia profunda de quem era Enéas, mas assistindo suas coisas e também com trabalhos como a Trilogia Vermelha eu fui apreendendo novos valores como artista, como pai, como filho e entendi que a minha luta tem que ser uma luta sócio-política pelas artes cênicas. Eu entendi que é necessário ser portador da nova era da convicção. Nós não queremos mentira.

AS POLÊMICAS

Eu escolhi as palavras para o pronunciamento, para o texto em cena. Eu não fugi das polêmicas dos homossexuais [Enéas é tido como homofóbico por já ter afirmado que a existência de casais gays e lésbicos seria uma ameça à reprodução da humanidade], ou da guarda nacional mas eu acredito que se ele estivesse vivo em 2017, ele com certeza já teria feito a sua relação com a opinião que ele tinha com os homossexuais, vírgula! Ele dizia que não sabia lidar com essa fórmula. Em meados de 1990, ele disse em uma entrevista, “Já existem pesquisas que dizem que uma criança adotada por um casal homossexual tem muito mais chance de crescer com bons valores”. Ele era um estudioso, acadêmico, ele não tava ali pra ficar de achismo. Em relação à Bomba atômica, eu acho que foi uma falta de preparo das pessoas que escutaram ele e fizeram o filtro que quiseram. Porque ele nunca defendeu que jogassem a bomba atômica, mas a defendia como instrumento de defesa e estudo. Ele também falava sobre empoderamento feminino. Na época do pagodão, do axé ele falava do lugar da mulher na sociedade. Na década de 1960 ele lembrou que as mulheres eram poucas na faculdade. Eu não estou fugindo desse conteúdo polêmico, mas as pessoas que querem confrontar com as principais limitações dele devem entender primeiro o seguinte: ele é um homem nascido em Rio Branco, no Acre, no Norte do país. Eu por exemplo, sou machista porque nasci numa sociedade assim, falo de empoderamento mas ainda sou machista. Como é que você quer que um homem nascido no norte do país, pobre, onde houve um processo de educação coronelista forte, tenha um pensamento mais libertário. Ele conseguiu fazer bastante, pular esse bloqueio, sair da zona cômoda. Ele é humano ele tem direito a ser incoerente. A escolha do meu roteiro sobre Enéas é para um sociedade melhor, são suas palavras elucidativas.

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(Fotografia: Bernardo Dantas para a Revista Cardamomo)

TEATRO SEM PÚBLICO?

O teatro político está sem público não por conta do discurso ou da qualidade cênica. É uma falta de preparo dos produtores que produzem o espetáculo. Não podemos culpar o teatro, nem a falta de sala. Se tem um drama, uma comédia cabe aos produtores, e eu me incluo, descobrir aonde está esse público e como fazê-lo consumir. Essa crítica tem que existir sobre teatros vazios, mas não é culpa do teatro. É nossa culpa de só colocar a peça em cartaz e esperar que o publico vá, sem pensar como divulgar melhor, como fazer pras pessoas estacionarem com segurança e ter um momento prazeroso por mais crítica que seja a peça. Temos que pensar numa manifestação total. É um momento de elucidação, mas também é um negocio e se não for bem gerido está fadado ao fracasso.

O TREMA! E A NOVA GERAÇÃO DE PRODUTORES

Eu só tenho a agradecer ao TREMA! Eu não posso fugir do problema do teatro vazio. Isso me magoa, isso dói. Se você quer montar um espetáculo, você tá tirando dinheiro do próprio bolso. Se eu estou montando isso, eu acredito. Quando eu fui encontrar a TREMA! plataforma teatro foi em janeiro. O TREMA! já estava com as peças escolhidas desde o ano passado. Então, isso quer dizer que o dinheiro para usar já estava todo separado e ele conseguiu um espaço para mim na grade. Eu só posso acreditar que eles defendem um lugar melhor. Eles são exemplos de produtores que tiram leite de pedra. O projeto está me pagando uma ajuda de custo. O Pedro e a equipe do TREMA! são produtores da terra valorizando um artista da terra. Isso é um respeito fora do comum. Ele está colocando a mão na fogueira. Eu sei que ele está me dando a mão. Quando eu estou com Enéas dentro desse tema das distopias, eu estou cumprindo uma função social, assim como o festival também está ao acolher essas peças. Nós não somos amigos pessoais, não sei onde ele mora, mas nós somos companheiros de uma mesma batalha. O TREMA! é a plataforma dessa nova geração, é geração a minha fazendo uma nova plataforma completamente diferente da que está aí hoje com respeito ao artista e diálogo frente a frente.

(Fotografia: Bernardo Dantas para a Cardamomo)

(Fotografia: Bernardo Dantas para a Cardamomo)

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Sobre o autor

Clarissa Macau

Idealizadora, jornalista, editora e produtora da Revista Cardamomo. Formada em comunicação pela Universidade Católica de Pernambuco.