Sobre epílogos ou de como não conseguimos lidar com a indomável ficção

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Por Rafaela Cruz

Há quase dez anos, note a gravidade de uma frase que começa com uma marcação de década, eu lia o último livro da série Harry Potter. Até hoje uma das primeiras páginas do meu exemplar tem uma mancha preta desconcertante, isso porque uma lágrima gorda- composta 30% de água e 70% de rímel preto – rolou do meu rosto e caiu sem nenhuma cerimônia no final da dedicatória que a autoria fez aos fãs,a qual dizia mais ou menos assim: para você que ficou com Harry até esse final. Esse lembrete, antes mesmo do começo propriamente dito do livro, de que estávamos caminhando, Harry e eu, para um certo final da nossa trajetória foi suficiente para me emocionar instantaneamente. Parece contra produtivo começar a falar dessa lágrima na dedicatória quando no título anunciei que estamos aqui para falar de epílogos, mas tenham paciência comigo.

Diferente do que aconteceu quando a li fatídica dedicatória, não há marca de lágrimas na última página do meu exemplar de Harry Potter e as Relíquias da Morte (na verdade no meu exemplar de Harry Potter and the Deathly Hallows, comprei o livro em inglês no primeiro minuto do lançamento mundial, depois de ter esperado o dia inteiro na livraria pela abertura das caixas à meia noite, sabendo que ia demorar um século para ler por questões de dificuldade lingüística. Sintam o peso dessa conversa).

Naquele momento, ao invés de comovida, eu estava revoltada, me sentindo roubada de algo que eu jamais poderia recuperar. O epílogo, que se passa dezenove anos depois da ação do último capítulo, tratava de um Harry, um Rony e uma Hermione que eu não conhecia. Homens e mulher casados, pais e mãe de família, de quem eu nada sabia. Obviamente, eu conhecia quem eles foram, quem nós fomos juntos, pois era esse o nível empático da relação que eu e outros tantos tínhamos com esses personagens. Contudo, sobre aquelas pessoas eu não sabia nada. Não sabia se Rony e Hermione namoraram por muitos anos, ou se casaram logo depois da guerra. Não sabia se Harry e Gina engravidaram antes de casar. Não sabia se Rony desmaiou quando a primeira filha deles nasceu, se Gina jogou quadribol profissionalmente ou se Harry tinha contato com a família trouxa da mãe dele. Enfim, eu havia começado aquela última jornada me sentindo parte, me sentindo irmã e terminei me sentindo prima de quarto grau. Não foi bonito, gente, não mesmo. Aviso aos descrentes que esse sentimento não fora só meu, é comum no fandom de Harry Potter a sigla EWE (Epilogue, what epilogue?) que significa ‘Epílogo, que epílogo’?

Revisitando esse sentimento de traição, compreendo a infantilidade da minha concepção de ficção, a forma simplista, ainda que apaixonada e comprometida, com a qual eu encarava literatura. Um desejo feroz de saber tudo sobre aquelas pessoas, entender tudo, controlar tudo. Hoje continuo meio desconfiada com o epílogo, agora porque identifico na autora esse mesmo desejo ingênuo de domar sua cria, dar palavra final para além da palavra final.

Voltei a minhas considerações sobre os epílogos porque essa semana fui assistir o último filme da série Jogos Vorazes. E, muito a maneira de Harry Potter, a estória termina com o flashfoward para um futuro onde a personagem principal, a destemida e truculenta caçadora Katniss, está sentada sobre a relva usando um vestidinho amarelo horrível e um penteado de cabelo caricaturalmente materno enquanto balança um bebê e olha apaixonadamente para Peeta, agora seu marido, enquanto ele brinca com uma criança mais velha. Eu poderia desviar do assunto e comentar como pode duas meninas tão incrivelmente diferentes – Katniss e Hermione – tornarem-se a mesma mulher, a mesma mãe com o mesmo tipo de penteado horroroso? Como pode que Gina, além de casar com alguém que ela conheceu aos onze anos, não teve direito de escolher o nome de nenhum dos seus filhos, já que Harry precisava homenagear os adultos mortos da vida dele, mesmo ela tendo seus próprios mortos para homenagear? Deixemos essas questões para outra xícara de café, voltemos ao controle.

Não pareceu suficiente para as autoras o final feliz da vitória contra os monstros e demônios que assombraram a infância e a adolescência desses personagens, elas desejavam um final feliz absoluto, aliás, o final feliz absoluto. Aquele final que todos nós já ouvimos falar, o da realização amorosa, da calmaria familiar, o final dos dois ou mais filhos. O que vem no meio é irrelevante, a jornada torna-se insignificante.

Quando atingi esse ponto do meu raciocínio fiquei particularmente triste porque considerei que a academia esteve certa todos esses anos quando me gritava “Isso não é literatura” e eu esperneava e bradava “Claro que é! Vocês não sabem de nada”. Se literatura é linguagem cheia de significado e possibilidades, se literatura é não sobre o que aconteceu, mas sobre o que poderia ter acontecido; como defender essas Autoras que se esforçam sobremaneira para não deixar nenhum espaço, nenhum ponto de dúvida? Recentemente, inclusive, Rowling, a autora de Harry Potter deu entrevistas fazendo alguns adendos aos livros, como se ela fosse mesmo a rainha onipotente de um universo que pariu sozinha. Recobro a compostura ao lembrar o que eu queria dizer quando comecei toda essa conversa e meus ânimos retornam: perdoemo-nas, elas não sabem o que fazem.

A ficção é um monstro que, para existir, assassina o criador. Existe no espaço da suspensão entre o texto e a leitura de um leitor, e é outra e é nova a cada leitura e a cada leitor. A nossa cruzada sedenta por domar a ficção não é diferente de como entendemos e experimentamos o mundo, é na verdade sintoma disso. A diferença é que nossa vida acaba antes que possamos contemplá-la inteiramente e assim a gente se pergunta: se eu não posso ver a vida do começo ao fim, como vou extrair o sentido? A ficção, que começa numa página e termina na outra, chega contida entre capas, numa embalagem que carregamos para qualquer lugar, parece ser inteiramente absorvível, completa e inteligível. Apenas parece, amigxs, não se engane.

Tão louca é a ficção combinada com a nossa vontade de controlar as coisas que humanizamos os personagens literários – para que possamos amá-los e, num ato tão solitário quanto a leitura, aplacar nossa solidão- e, por outro lado, ficcionalizamos pessoas reais para que seja de boa exigir saber tudo sobre elas, cada mínimo detalhe, cada particularidade, cada coisa estranha, cada hábito corriqueiro, cada vício, cada amante; afinal é só papel num revista com os resumos das novelas, se rasgar não tem problemas.

Os escritores românticos alemães acreditavam estar vivendo o começo de uma era onde as pessoas não mais ansiavam por uma literatura como a vida, mas uma vida como a literatura. Eles entenderam disso que todo mundo estava louco para viver aventuras, para se arriscar, para revolucionar. Tenho pensado que eles estavam errados, que as pessoas queriam uma vida como a literatura porque essa eles, em tese, poderiam controlar, saber exatamente como começa e como devia terminar. Traduzindo, era tudo caretice fantasiada de v1d4 l0k4.

A coisa é que esse tipo de epílogo é uma espécie de censura, uma tentativa meio maníaca de restringir as possibilidades, de enfiar uma bandeira nesse solo e se chamar imperador. A vida é humana e por isso é caos, a ficção sendo também humana como pode ser ordem? É claramente diferente da vida, (já dizia Borges: tudo que eu vejo é simultâneo, tudo que eu escrevo, porém, é seqüencial) em primeira instância é sim um recorte controlado, mas aponta para uma incompletude e um caos que uma vida humana não pode dar conta. Uma vida humana vem e vai, a ficção deve ficar para que outra vida chegue e a transforme,  a faça outra, se possível radicalmente diferente.

Meu desejo, concluo, é que a ficção do nosso tempo seja nosso testemunho não apenas sobre como tentamos- e falhamos- controlar e entender a vida, mas a herança de perspectivas diferentes sobre o caos que é o mundo. Que todos os nossos livros, independente do público-alvo, sejam uma ode, amável ou amarga, ao descontrole. Em dez anos, talvez menos, talvez mais, voltarei a ler meus queridos livros da infância e da adolescência e vou me permitir considerar as mais loucas e absurdas possibilidades entre cada sentença, entre cada espaço de tempo, entre cada momento de silêncio. Principalmente, vou tentar ler os epílogos com o coração tranqüilo na certeza de que eu posso ignorar completamente esse ímpeto de controle dos ‘criadores’. E, ainda assim, se eu não gostar, tudo bem, afinal de contas: epílogo, que epílogo?

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Sobre o autor

Rafaela Cruz

Oficialmente, Rafaela é Mestra e doutoranda em Teoria da Literatura, professora de Literaturas de Língua Inglesa na UFRPE (Universidade Rural Federal de Pernambuco, tradutora e intérprete de formação. Extraoficialmente, ela é uma eterna fã de Harry Potter, entusiasta apaixonada da internet, especialmente em sua manifestação tupiniquim, uma entre trinta primos e devota fervorosa da ficção e suas engrenagens loucas. Para além de ler, escrever, emitir opiniões não solicitadas, montar o apartamento ideal em painéis do Pinterest e cantar Alcione no karaoke, seu maior hobby é meter os pés pelas mãos. Reflitam.