“Real”: dedo no erro e gritaria

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Por Fillipe Vilar

A vontade era começar o texto com uma grande risada, mas há algo por trás de Real – O plano por trás da história (Rodrigo Bittencourt, 2017) que me impede o impulso. A década de 1990 é gritada na nossa cara, assim como todo o resto. Montagem, som, mise en scene, são amalgamados dentro de um grito. Real é histriônico, mesquinho e unilateral como uma birra. Um chilique. É patético, irrita, mas está ali para chamar a atenção e dizer (o que o agente da histeria acha que são) verdades.

O que o filme comunica é que não há tempo. Não há tempo para nada. Eles já foderam tudo. Nós fizemos isso aqui (o dezenas de vezes citado “Plano”), mas aqueles outros estão aí para foder com o que fizemos também. Além da ideologia, Real, em seu tucanismo panfletário – Meu Deus, como isso existe? – se põe como os olhos da retidão, da prática, do anti-heroísmo atávico e da rebeldia de cima de uma direita cool. Que anda de jaqueta de couro no sol de quarenta graus do Rio de Janeiro ou no sol de quatrocentos graus do centro-oeste. Talvez a jaqueta seja a cruz do nosso pagador de promessas Gustavo Franco, o ego, centro e olho do enredo.

Franco, assim como todos os outros personagens, é de uma irredutibilidade asinina. Unidimensional, vive como profeta em seu desprendimento de tudo, seu temperamento de Diógenes (o filósofo grego que ignorou Alexandre), e sua agressividade. Em outras palavras, Gustavo é o dedo no erro alheio. Quase não dá espaço para a ternura ou para a inocência, a não ser em sua relação com Pedro Malan, mentor e amante (paterno/fraterno).

Real, em sua indigência de camadas psicológicas, age como panfleto. Propaganda, em nuances que me fascinam. Daí também sai bom cinema (Riefenstahl), e bom cinema ruim (Mikhail Chiaureli).

A ficção, em geral, se fia na teia dos arquétipos. A propaganda, filha menor, passeia confortável nos campinhos dos estereótipos. Os tucanos – vá lá, o Serra não – são políticos, mas querem fazer algo que os coloque como heróis. Os petistas, um personagem à semelhança de Genoíno os concentra, querem o poder acima de tudo.

Lula, espectro que ronda essa nossa tentativa de Europa, é citado, mas não aparece. Outra citação é ao juiz federal Sergio Moro, quando o filme adentra a seara do Banestado e suas contas CC5. Prequela, que acabou em pizza, da Lava-Jato, que acabou não acabando nunca.

Real é um filme para ser visto daqui a cinquenta anos, passadas quaisquer possibilidades de entendimento de suas motivações. O que sobra – nessa parte eu chuto – é o videoclipe, as referências a thrillers populares do cinema americano, gritos e total falta de sarcasmo. A não ser em cenas onde Franco, ao se defender de acusações, se vale de discurso semelhante ao utilizado pelos petistas no fervor dos anos 2010. Mas esse sarcasmo raso não resiste às décadas.

Queria utilizar o termo reaçochanchada aqui, mas Real se leva a sério e quer, a cada cena, impor uma frase de efeito. Nem a narração noticiosa de alguns fatos – o que remeteu, sem querer, a O Bandido da Luz Vermelha – ajudou. Abastecido financeiramente, não tem o charme indigente crowdfundiano de O Jardim das Aflições, outro representante da onda.

Propaganda, Real entretém. É possível ver sem dormir. Seu exagero, sua gritaria, servem para que seja ouvido. Provavelmente não aproveitado como os autores e financiadores queriam, mas ainda assim assume seu lugar. Nem que seja para receber um “cala a boca” cheio de enfado e cinismo como resposta.

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