“Pague Quanto Puder”: aos flertes artísticos

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Por Clarissa Macau

Com um senso de urgência enorme, os meninos do Grupo Magiluth criaram um festival para convidar artistas e público ao diálogo entre as artes, o Pague Quanto Puder. A primeira edição surgiu da mostra homônima que já acontecia há três anos funcionando como uma apresentação de repertório de peças do próprio coletivo – como as montagens Aquilo que o meu olhar guardou para você, Viúva, porém Honesta e O Canto de Gregório -. Os atores começaram a colocar em debate a disposição financeira do público em relação a uma obra artística. Como sugere o nome do evento, decidiram deixar as pessoas livres para escolherem o preço de seus ingressos. Bruno Parmera, Erivaldo Oliveira, Giordano Castro, Lucas Torres, Mário Sergio Cabral e Pedro Wagner – conhecidíssimos pela energia de criação e agilidade nos palcos, transcenderam seu ofício e –  produziram em duas semanas uma grade de programação extensa. Entre dia 06 e 18 de agosto serão apresentados shows de música, oficinas ministradas por jovens e instigantes nomes do teatro nacional, ações para crianças, debates sobre cinema, exposição de artes visuais e sessões de tatuagem, além das peças de teatro como Leve Cicatriz, da Cia Temo (BH),  Alegria de Náufragos, do grupo Ser Tão Teatro(PB), e as performances Ruído, de Marcelo Castro (BH), Elégùn – Um Corpo em Trânsito, de Jorge Kildery (PE) e um experimento inédito entre a banda Ex-exus e o próprio Magiluth, no qual música e teatro se encontram. As atrações estão distribuídas pelo Teatro Barreto Júnior, Edifício Texas e o Largo de Santa Cruz.

A abertura aconteceu no dia 06, às 20h, no Teatro Barreto Júnior, com a montagem O Ano em que Sonhamos perigosamenteestreando a circulação nacional do trabalho contemplado pelo prêmio Myriam Muniz de Teatro – Funarte, que também passará por Porto Alegre, Belo Horizonte, Florianópolis e Salvador. A peça desconstrói e debate o movimento de revoluções e protestos da sociedade contemporânea.

O "Ano em que sonhamos perigosamente", do Magiluth, abre o festival e também celebra a reinauguração do Teatro Barreto Jr. na Zona Sul do Recife que estava fechado até o começo desse ano. A programação ainda conta com a apresentação de outra montagem do grupo, "1 Torto" (Fotografia: Renata Pires)

O “Ano em que sonhamos perigosamente”, do Magiluth, abre o festival e também celebra a reinauguração do Teatro Barreto Jr. na Zona Sul do Recife que estava fechado até o começo desse ano. A programação ainda conta com a apresentação de outra montagem do grupo, “1 Torto” (Fotografia: Renata Pires)

Sediados desde 2014 no edifício Texas, no Largo de Santa Cruz (centro do Recife), o Magiluth se encontra hoje num dos pólos de maior eferverscência cultural da capital pernambucana. Os atores sempre descem do terceiro andar do prédio – local onde ensaiam e trabalham – e se deparam, no térreo, com os shows produzidos pelo Texas Café Bar: um espaço idealizado pelo agitador cultural e fotógrafo Pedro Escobar, que acolhe do Rock ao Noise e já recebeu esquetes teatrais. Fora do estabelecimento, lá pelas ruas do pátio cheio de outros bares, eles esbarram com pessoas de diferentes cenas artísticas da cidade. “O nosso grupo sempre foi bastante paquerado artisticamente pela galera da música, ilustração e do audiovisual”, conta Mário. “Agora é o momento de aproveitar isso e consumar os flertes artísticos”, conclui Erivaldo. A ideia já estava sendo cogitada pelos integrantes.”Pensamos em fazer um evento como esse, inclusive colocamos o projeto no Funcultura [Edital do Fundo Pernambucano de Incentivo à Cultura de Pernambuco]. Não sabemos se seremos contemplados. Esse ano a ideia era fazer, novamente, apenas uma mostra”, diz Giordano.

Mas, os planos foram modificados após um simples convite. Eles decidiram perguntar ao performer e ator mineiro Marcelo Castro – integrante do Grupo Espanca! – se era possível reproduzir, na cidade do Recife, Ruído, uma performance que, brincando com a técnica do viewpoint e o limiar entre a realidade e a ficção, transforma cidadãos que andam pelas ruas em personagens de uma narrativa imprevisível. “Bastava que ele se comunicasse pela internet, no Skype, com a gente e a ação seria reproduzida”, explica Giordano. Marcelo propôs algo maior: queria vim para Pernambuco apresentar a sua obra. Mesmo sob o lamento do Magiluth que disse não ter dinheiro para trazê-lo, o ator confirmou que pagaria a própria passagem. De maneira semelhante os outros artistas se juntaram  e foram agregados à programação. “O Ser Tão Teatro vem ao Recife com a promessa de que, próximo ano, o Magiluth irá participar do festival que eles fazem em João Pessoa”, diz Mário.

A partir da vinda de Marcelo Castro ao Recife, o Magiluth teve a ideia de chamar outros amigos e contatos para montar a programação do festival (Fotografia: Bernardo Cabral)

A partir da vinda de Marcelo Castro ao Recife, o Magiluth teve a ideia de chamar outros amigos e contatos para montar a programação do festival, como a atriz Carolina Bianchi (SP). Ela se tornou conhecida dos meninos após o Cena Brasil Internacional, no Rio, e vai apresentar a oficina “Manifesto de um Corpo Delirante” (Fotografia: Bernardo Cabral)

Numa manhã ensolarada e bem quente no Largo de Santa Cruz, a Revista Cardamomo subiu as escadas do Texas para conversar com alguns integrantes do Magiluth na sua sede. Eles se disseram admirados com a mobilização das pessoas para um evento criado, praticamente, às pressas. No primeiro dia de divulgação do cartaz, nas redes sociais, foram alcançadas, de maneira orgânica, mais de 15 mil pessoas. Grupos de teatro, que não estavam na programação, abordaram os idealizadores para saber se também poderiam participar do novo formato do evento. “A verdade é que rolou um constrangimento de fazer convites, sem ter dinheiro pra oferecer aos grupos. Mas, a gente percebe que as pessoas gostam dessa ideia de se jogar”, conta Mário à CARDA.  Com um tímido apoio da Prefeitura da Cidade do Recife e do Teatro Barreto Jr., ao disponibilizar a pauta do seu edifício para algumas apresentações do festival, o Magiluth está tirando dinheiro do próprio caixa para investir no Pague Quanto Puder.

Neste bate-papo, os integrantes mostram o entusiasmo em criar motivos para artistas e públicos de diferentes linguagens se encontrarem e se conhecerem, discutem o surgimento e as propostas para o festival que foi criado no presente e as ideias para o seu futuro, falam sobre o sucesso do grupo Magiluth – uma trupe afeita a discutir a vida cotidiana com afeto e inquietação – diante das audiências e pensam sobre a necessidade de espaços alternativos para as artes cênicas. “É muito importante que as pessoas não desistam”. Boa conversa!

REVISTA CARDAMOMO – Muitos grupos de teatro da cidade já aderiram ao formato do Pague Quanto Puder. Da onde surgiu a ideia do Pague Quanto Puder para vocês?

GIORDANO CASTRO – Esse formato é uma coisa que já existe por aí há muito tempo. Aqui, no Recife, esse movimento começou muito por causa da mostra que a gente estava fazendo. Tenho a impressão que no Recife foi o Magiluth, mas é uma forma que já rolava em São Paulo e outras cidades. Assim, quand0 a gente veio pra o Texas esse formato também foi adotado pelo lugar. Era uma questão também em relação a esse espaço. Aqui não é um lugar perfeito, tem problemas de acessibilidade e conforto, a gente acha que seria um pouco leviano cobrar um ingresso de R$20.

ERIVALDO OLIVEIRA – A gente sempre ficava se perguntando os preços dos ingressos para os nossos espetáculos. Bilheteria não paga nada de custo, não paga nada. Não adianta dizer vamos cobrar R$40, R$30, R$20. E aí veio a questão: e se a gente colocar na mão do público essa pergunta? Quanto você acha que deve sair do seu orçamento mensal para a sua construção intelectual, cultural? Já teve uma galera que deu R$0,30 centavos.

MÁRIO SERGIO CABRAL  – Na primeira edição rolava de pessoas muito próximas aparecerem para ver a reação do bilheteiro. A média de preço das três edições foi R$5, R$7 e R$10. Ou seja, a gente está conseguindo valorizar o preço do ingresso. Tem gente que gosta do espetáculo e pede para pagar mais depois e nós não aceitamos. O valor não é em relação ao se você gostou ou não, senão você teria o direito de pegar o seu dinheiro de volta também. Se você quiser, você vem ver amanhã e paga mais. O quanto do orçamento em tempos de crise – quando o quilo de feijão está custando R$14 na feira – uma pessoa pode destinar para consumir uma obra? Uma vez aconteceu de uma mulher, com mais de 50 anos, chegar com três amigas e pedir três ingressos. Quando ela foi pagar ela tirou da bolsa uma nota de R$10, uma nota de R$5, depois uma de R$20 e ela ainda ficou procurando mais dinheiro. Aí a amiga dela chegou e falou “Tá bom, mulher!” [risos]. A pessoa chega com uma nota de R$50… O bilheteiro pega a cédula um pouco desconfiado e já pergunta “Quer troco?”. Mas, tem muita gente que bota nota só pra testar você… Quando eu pego, a pessoa demora um pouco e aí diz “Não é tudo não. É só tanto”. É engraçado a atitude das pessoas. Tem também gente que vem perguntando “O valor pode ser a partir de quanto?”, a resposta é – eu não sei.

GIORDANO  – Há oscilações nessa contribuição. No entanto, existem duas vias interessantes. Fazendo essa média, como Mário falou, a gente acaba tendo uma bilheteria como se a gente fizesse uma apresentação normal com ingressos com preços já pré-combinados. Mas a diferença é que essa proposta do preço livre atrai muito mais gente. O que se tem é a média normal de um ingresso, custando uns R$10, mas com um teatro cheio. Um outro ponto positivo é que muita gente teve experiências ruins com o teatro, mas alguém chama e a pessoa diz “vou nada”, mas escuta de volta: “Vamo, tu paga quanto tu puder”, aí “Beleza”. O cara chega lá paga quanto puder e às vezes volta para assistir outros dias, a gente já viu isso acontecer muito. Isso é formar público.

CARDA – O Pague quanto puder era uma mostra do trabalho de vocês e virou um festival. Uma surpresa: do nada vocês surgem com a primeira edição de um festival. Eu queria que vocês me contassem como foi que surgiu a ideia. 

GIORDANO – Quando existe um projeto que a gente gosta muito e ele se torna periódico a gente fica querendo perpetuar isso. A mostra do Pague Quanto Puder já existia há uns três anos.  Não havia uma pretensão de fazer um festival, agora. Mas isso tudo tem muito a ver com a nossa vinda para o Texas [Bar]. Antes, a gente ensaiava lá numa sala do Recife Antigo e ficava mais fechado no nosso universo e tudo mais. Aqui a gente desce e sempre tá tendo um show, alguma coisa. Escobar [fotógrafo e o idealizador do Texas Bar] vive provocando a gente com outras propostas artísticas como os vídeos do Miró [No começo do ano os meninos do Magiluth foram filmados por Escobar declamando poemas do poeta marginal recifense, Miró da Muribeca]. Toda essa vivência, nesse espaço, começou a pulsar na gente a vontade de fazer não só um festival de teatro, mas um festival no qual a gente poderia integrar um monte de coisa que já estava acontecendo aqui no prédio. O festival começou a tomar forma semana passada. A gente percebeu duas semanas livres no começo de agosto e já existiam pessoas paquerando com o nosso espaço e o nosso trabalho, como a banda Ex-Exus. A gente pensou “Opa, dá pra fazer o Pague Quanto Puder nesse período”. A ideia do festival se firmou de verdade quando a gente decidiu falar com [o ator e performer]Marcelo Castro do grupo Espanca! de Belo Horizonte. A gente viu uma performance dele, em BH, que é muito legal. Tivemos a vontade de trazer a ideia para o Recife. Essa performance poderia ser passada via Skype. Ele poderia explicar o que era a performance e a performance seria executada. Só que ele não só topou, como disse “porra Giordano, eu queria ir pra aí. Eu só fiz essa performance em BH e vivo querendo fazer ela em outros cantos e não consigo”. A gente deixou claro: “A gente não tem como te trazer”. Ele disse “eu pago minha passagem e vocês arrumam um lugar para eu ficar”. Toda a composição da grade tem sido feita de forma muito colaborativa. O Magiluth está como realizador, a gente tinha esse projeto que a gente já faz há um tempo, mas ele está acontecendo graças a galera que está unida com vontade de fazer.

ERIVALDO –   Esse movimento de troca não é só nesse festival, mas são em todos os encontros de artistas que a gente tem participado. Mesmo sem cachê e com os cortes de verbas muito altos no setor da cultura há a contribuição entre a classe para que esse movimento continue. É um festival que não tem financiamento. O único apoio é da Prefeitura da Cidade do Recife e do Teatro Barreto Jr. que ofereceu a pauta para as apresentações. Mesmo se tivéssemos fora do formato do Pague Quanto Puder, a  bilheteria nunca cobre os gastos. Esse festival continua com a ideia de formar um público. Queremos pegar os frequentadores do cinema, artes visuais e música – talvez um público que já está mais formado aqui no Recife – e juntá-los com o de teatro, que ainda não é tão presente.

CARDA – O Pague Quanto Puder se propõe um festival de artes integradas. Vocês acreditam que as artes estão articuladas no Recife?

GIORDANO –  Esse é um campo que a gente está tateando. É muito novo. Existem alguns respiros como a nossa proposta de fazer uma performance com os Ex-Exus ou a performance de Marcelo que se junta a um disco vinil que foi pensado junto ao seu trabalho performático. A música e a performance entram em diálogo. Existem essas tramas sendo organizadas por linguagens diferentes. Na próxima edição essas trocas serão ainda maiores.

ERIVALDO A gente nunca havia trocado experiências com outra linguagem. Essa com a banda está sendo a primeira. No Recife, o cinema e as artes plásticas conseguem dialogar mais, o teatro ainda não dialoga muito com o audiovisual ou outras artes.

MÁRIO O festival de artes integradas vem como um resultado que, além de responder a esse fato do Pátio de Santa Cruz estar efervescendo e com muitas coisas de várias linguagens acontecendo para as artes se integrarem, demonstra o próprio flerte do Magiluth com certas coisas e o flerte de certos grupos com o Magiluth. Bandas que querem fazer algo junto, a Flavia Pinheiro [performer e integrante do grupo Mazdita]que quer fazer um espetáculo de dança, Hilton [Lacerda, roteirista de filmes como Tatuagem e séries como a Conto que vejo] que quer fazer uma série com a gente, fulano que é ilustrador que quer fazer alguma coisa a partir dos movimentos que nós estamos fazendo.É muito particular fazer isso rolar. Isso parte muito do local em que estamos. O Texas está se propondo a ser um polo de eferverscência.

Magiluth e a banda Ex-Exus prepararam performance inédita para o evento. É a primeira experiência de troca de linguagens feita na carreira do grupo. (Fotografia: divulgação)

Magiluth e a banda Ex-Exus prepararam performance inédita para o evento. É a primeira experiência de troca de linguagens feita na carreira do grupo. (Fotografia: divulgação)

ERIVALDO – Como a gente planejou o festival de forma rápida não tivemos tempo de pensar espetáculos nos quais as linguagens interferem uma na outra.  A gente vai amadurecer isso para uma outra edição. Esse é o momento de juntar essas pessoas de alguma maneira, os flertes artísticos. Esse festival é para isso, para nos aproximar dessa ideia, e aí a gente vai poder pensar a longo prazo em ações nas quais de fato essas artes irão se integrar, dialogar, juntar-se sem ser só uma vitrine de artes e linguagens.

MÁRIO – Mas eu acho que também há o viés de quem está acompanhando o festival: o estudante de teatro, de artes plásticas, música ou quem frequentemente vai aos shows das bandas no Texas, ou quem vai às peças do Magiluth, ou sai querendo ver um quadro do Raoni Assis [artista plástico que irá expor no festival]– Essas pessoas poderão se encontrar no PQP. O público também vai se integrar. É uma tentativa de tentar fazer uma rede maior ainda de público e movimentação cultural.

CARDA – Muita gente no Recife, de uma geração mais jovem, começou a ir ao teatro por causa do Magiluth. De certa forma vocês foram um marco para o teatro pernambucano, sem falar na repercussão que vocês têm no país. Por que vocês acham que o Magiluth faz tanto sucesso?

MARIO – A gente não tem consciência disso não.

Erivaldo – A gente tem uma consciência que tem uma galera que segue o trabalho como referência. Tem uma galera na faculdade que já fez um monte de artigo sobre a gente, não só aqui, mas fora do país também.

MÁRIO – Um dia desses uma menina da Sorbonne estava escrevendo sobre a gente.

ERIVALDO – Talvez isso se dê pela maneira como a gente trata esse fazer teatro.

MÁRIO – A gente desmistificou muita coisa! O público, as pessoas se sentem mais à vontade. Não sei bem explicar…

GIORDANO – A gente está o tempo todo, por exemplo, tentando dialogar com o momento, com as coisas que estão ao nosso redor. Isso se torna muito acessível. As pessoas acabam se reconhecendo em algumas questões e buscas dos espetáculos. A última vez que a gente se apresentou com o Ano em que sonhamos perigosamente foi incrível por causa dessa interação com o público. E até pra gente, às vezes, esse é um espetáculo que a gente não entende. É difícil entender o que acontece, apesar da gente saber o que está proposto. Nessas últimas apresentações, ele está se solidificando. A gente está vendo o peso e a pertinência do que a gente está falando nesse espetáculo.

ERIVALDO – Em todos os outros espetáculos a gente dá, para quem vem nos ver, possibilidades de construir algo. Isso ajuda no entendimento da identificação. A gente não costuma dar só uma leitura do que é essa peça. A gente dá um indício pra que você construa essa peça em todos os trabalhos. No Aquilo [que o meu olhar guardou para você]eu jogo na tua mão esses indícios de uma maneira não agressiva. Eu vou te trazendo e, na verdade, o espectador vem voluntariamente para essa interação. Essas possibilidade de leitura são diferentes daquela de outros teatros que são feitos aqui, no Recife, onde você faz um Shakespeare e tem que ir lá em 1500 e ficar lá, ao invés de resgatar isso para o hoje. Isso faz com que o espectador se sinta autônomo.

MÁRIO – Também há a possibilidade de desistir de entender algo. Tem muita gente que chega pra mim e faz, “Então, não entendi porra nenhuma, mas é que vocês fazem tudo com uma energia tão grande que vai prendendo a gente, mas é massa”. Mas como tu gostou, se tu não entendeu nada?

GIORDANO – Por que o entendimento, às vezes, não passa pelo racional… Passa pelo sensitivo e sensorial.

ERIVALDO – Você costuma não entender na hora, mas depois você vai absorver isso. Tem uma amiga da gente, a Larissa, que ela disse que foi assistir o Ano… Na primeira vez ela aplaudiu, na segunda aplaudiu de novo, na terceira aplaudiu de outra forma e disse “de repente eu entendi de uma maneira totalmente diferente”. É esse o movimento de entendimento que eu acho que o teatro da gente tem. O Canto de Gregório [peça encenada pelo Magiluth desde 2011] também tem isso. Você se joga na experiência e depois você entende o porquê da experiência. O Ano tem uma empatia que é forte pra caramba. O que é isso? Está em mim e está em quem vê. Eu acredito que é a maneira de trabalho como a gente encara o grupo. A gente não encara o teatro só como o ritual mágico, é um negocio que a gente tem que trabalhar mesmo. Dormir às três da manhã, acordar cedo e ficar com cara feia pros coleguinhas.

MÁRIO – Essa coisa de “alma de artista”… Meu cu. Artista está fodido eu não vou sentar na mesa do [Bar] Central e ficar falando, “Ah porque artista sabe como é né? Artista acorda meio-dia”. Essa não é a nossa dinâmica, pode ser a de outros. Porque de manhã a gente tem que ir no atacadão, comprar as coisas para a montagem e as coisas vão se desmistificando e quando elas sabem e sentem isso a arte vai se tornando acessível para as pessoas e ao público.

CARDA – Vocês falaram que sentiram uma certa vergonha de convidar os grupos de teatro daqui do Recife, porque não poderiam oferecer dinheiro. Mas, quando vocês lançaram a programação muita gente começou a perguntar se ainda dava para participar do Pague Quanto Puder. Qual o futuro do festival?

GIORDANO – É muito instigante quando as pessoas chegam para você e querem participar ou dizem “Vamos arranjar um espaço pra colocar esse artista”. Mas aí a gente está começando a ponderar e pensar “Ano que vem tem mais”. Vamos organizar mais ainda o que foi pensado, atualmente, em uma semana.  Mas ao mesmo tempo é importante notar esse movimento. No FIG [ Festival de Inverno de Garanhuns, que aconteceu em julho desse ano] foi notável o público envolvido junto aos artistas, na busca pelo espaço do teatro alternativo, foi uma luta coletiva. Alguns grupos pensaram – “Muito provavelmente nosso trabalho não cabe naquele espaço que está sendo cedido lá”. Mas porque não cabe, eu vou sair? A resposta é “Claro que não”, é uma formação de classe! A gente tem muita fé e pensa que no próximo ano o Pague Quanto Puder venha a ser um festival que não aconteça só aqui no espaço do Magiluth, mas aconteça na cidade em outros espaços de outros grupos de teatro como o Fiandeiros, o Poste Soluções Luminosas, entre outros. Se eles quiserem seu espaço para montar o seus trabalhos, e também receber outros trabalhos, vai ser massa. Esse ano não tivemos braço para abraçar isso. Apesar do projeto ser muito ambicioso, a gente está tomando cuidado para não dar um passo maior do que a gente pode.

CARDA – Como vocês veem o que vem sendo produzido no teatro do Recife, atualmente?

GIORDANO – Eu acho massa. As pessoas têm cada vez mais claras suas pesquisas e identidades. O trabalho do Poste [Soluções Luminosas], eu gosto muito.  Conheço o trabalho de Samuel [Santos, diretor do grupo] há um tempo. Achava massa desde os infantis que ele dirigia, como A terra dos meninos pelados. Mas, eu acho que a curva estética que o Poste faz é interessante, as buscas deles em relação a um teatro mais ritualístico com as matrizes africanas eu acho massa. Você entende o que está vendo. A Companhia Fiandeiros de Teatro tem um trabalho, hoje, na cidade, de formação importantíssimo com crianças e adultos no teatro. Eu acho que Recife sempre foi muito feliz em produções em relação a outros estados que a gente passa, lugares que não têm nada. A gente está doido para ver A Bicha Borralheira [remontagem pelo autor original, Henrique Celibi, do grande sucesso do teatro e TV pernambucana Cinderela, a História que a sua mãe não contou, que fez história ao ficar em cartaz no palcos do Recife durante toda a década de 90 com a Trupe do Barulho]. Quem, aqui, não assistiu a Cinderela?

MÁRIO – Se você pegar um vídeo de Cinderela, hoje, você vai se espantar com a velocidade dos atores. É muito rápido, a Cinderela vai aos prantos, xinga, é tudo muito rápido. É um monstro. E eu acho massa como o trabalho é. Eu fico puto quando alguém vem ver o meu trabalho e diz eu queria que fosse assim. Eu não vou ver o trabalho da Bicha Borralheira, ou as peças do Coletivo Angu ou do Poste achando que tem que ser parecido com o Magiluth. Eu vou ver o que eles estão fazendo. Eu não sou quadrado para achar que tudo deve ser feito como eu faço. Tem gente que pensa “Eu combato as coisas engessadas, mas eu encontrei o melhor pedaço de gesso que é esse daqui”. Lógico que não! Eu acho massa a diversidade. Eu sinto que a produção da galera mais alterna deu uma diminuída, falo, isso, com um pesar. A galera que apresenta teatro em casa, em apartamento, fora dos teatros, deu uma diminuída grande. Os espaços continuam fechados e isso era algo que estava movimentando. E parece que deu uma esfriada e tal. Eu acho isso triste.

GIORDANO – Eu acho que essa mostra, que teve agora no FIG, vai dar uma acendida na galera.

MÁRIO –  Aqui no Espaço Texas, houve um movimento muito bom no primeiro semestre e final do ano passado. Recebemos outros espetáculos. Porém, a gente acabava ficando com dificuldades de ensaiar. Mas, a gente quer voltar. É muito importante que as pessoas não desistam. As casas de teatro continuam fechadas e pouco equipadas.

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Sobre o autor

Clarissa Macau

Idealizadora, jornalista, editora e produtora da Revista Cardamomo. Formada em comunicação pela Universidade Católica de Pernambuco.