Os gêneros e as cores nos festivais

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Por Germano Rabello

Os dois últimos longas que eu vi na décima edição do Janela Internacional de Cinema do Recife são duas poderosas afirmações. De identidade, de raça e de gênero: Uma canta, a outra não de Agnès Varda e O casamento do meu irmão de Charles Burnett. A forma tradicional do cinema tem na raiz um elitismo fundamental, por ser uma arte que depende de um investimento, de capital. Uma arte baseada num equipamento caro. Uma arte dominada, portanto, pelo homem branco, com raras exceções.

O casamento do meu irmão, de Charles Burnett (EUA, 1983), é um antídoto contra essa dominação, uma resposta vinda do coração negro da América. Pierce é um jovem negro às voltas com seus problemas, ou do que é visto como um problema para a sociedade – não tem emprego, não é casado, seu melhor amigo é um ex-presidiário. Acompanhamos seu cotidiano, um monte de  pequenos eventos que vão revelando algo muito maior. Porque é um filme de família e comunidade, num sentido que os filmes brancos não costumam ser. Cada personagem secundário é um pedaço da vida de Pierce. O interessante é a forma como tudo isso acontece, orgânica, bem humorada. Em meio aos dogmatismos, a vida na família é de muito amor, da presença ativa e reclamona da mãe, do pai que sempre brinca de sair no tapa com o filho. Essa fisicalidade, essa maravilhosa cadência do inglês afro americano. A agilidade da câmera, a forma de mostrar a vida das ruas. Que cenário seria esse em 2017?

“O casamento do meu irmão” – Divulgação

Filmes como esse de Charles Burnett, são herdeiros /contemporâneos do cinema dos 60 e 70. Época em que as câmeras começaram a se libertar dos estúdios e filmar em locações reais, nas ruas. Evoca algo de John Cassavettes. Feito com recursos mínimos e transbordando de vida. Esse tipo de filme abre caminho para que cineastas negros construíssem suas carreiras. Para que em 2016 fosse exposta a branquitude do Oscar (#oscarsowhite), para que a premiação viesse enfim a contemplar o cinema negro, nesta edição 2017, com Moonlight e outros filmes.  Como levou tempo pra ficha cair! Filmes como o de Denzel Washington, Fences, 2016, ou Faça a coisa certa de Spike Lee, 1989, trabalham também essa ideia de comunidade. Ainda que Burnett traga uma carga de urgência das ruas que Denzel Washington não chega nem perto de captar e traga uma leveza diferente do filme de Spike Lee.

Charles Burnett é chamado por alguns de o maior diretor afro americano e é embaraçoso que só agora eu tenha visto algum filme dele. Foi incluído na mostra L. A. Rebellion, junto com seu primeiro trabalho (Matador de Ovelhas, 1978). Há um texto no site do Janela falando um pouco sobre essa mostra. Dificuldades de financiamento, de visibilidade, várias coisas colaboram para que o cinema negro ainda seja bastante desproporcional aos números da população negra.

Mais uma questão muito vivenciada nos últimos tempos e que é necessária: a questão da mulher, em Uma canta, a outra não, de Agnès Varda (Venezuela/França/ Bélgica, 1977). Agnès Varda é uma cineasta importante, dos nomes que correm pela periferia da Nouvelle Vague, formando com Alain Resnais,  Jacques Demy e  Chris Marker  o que seria conhecido como o grupo Rive Gauche (ou Left Bank).

Imagem de “Uma Canta, a outra não”

No começo, Pomme tem 17 anos, se não me engano. Está ainda no colégio. Precoce, ela ajuda Suzanne, primeiramente OUVINDO o que ela tem a dizer. Depois a ajuda na busca por um aborto seguro, uma vez que a amiga já conta com dois filhos e sua situação econômica. A situação se complica quando o marido de Suzanne morre. Marca o começo de uma nova fase: a partir daí se forma um vínculo que jamais será quebrado, mesmo enquanto suas vidas seguem rumos distantes.

A descrição da sinopse é sempre insuficiente. Para mim, teve um efeito de mergulho na vida destas duas mulheres, de viver uma encarnação junto com elas. Aliás, várias, do jeito como elas se transformam ao longo do filme. A sabedoria de Varda é mostrar que todas as vidas são possíveis, todos os caminhos. Não existe vida ideal. Cada uma destas mulheres está lutando por sua própria dignidade, por sua própria liberdade, pagando o preço de suas escolhas. Suzanne tem que retornar ao interior, morar com sua família. Ela está isolada, na família conservadora, mas é um ambiente seguro e propício para suas crianças. Enquanto isso, Pomme segue com a banda, cai na estrada. As músicas são hippies demais pra mim, mas é bonito o caminho, sua dedicação, os vestidos bordados que ela usa lembram alguns que minha mãe usou quando estava grávida… o resto  deixo você experienciar.

Talvez seja importante usar os filmes pra também pontuar questões que estão lá fora. Uso um caso pra ilustrar: uma amiga minha relata um caso de assédio imediatamente após a exibição do filme de Agnès Varda, por um cara que curiosamente estava presente na sessão. Ou seja, muita coisa a ser transformada, e machismos que nem mesmo um filme desses consegue expulsar. Pelo que tenho visto, a participação das mulheres tem sido constante no Janela; embora haja algumas outras questões que podem ter me escapado. Por exemplo, o coletivo Deixa Ela em Paz retratou em uma vinheta a objetificação e agressão de mulheres em vários filmes presentes na programação. Cada caso pode ser um caso, mas muitas vezes essa agressão e objetificação estão no cerne de várias obras canônicas, sem consideração real por esses problemas, usando-os para reafirmar mais do que para rebater.

Já sobre a questão negra, são outros quinhentos anos. Na vida ao vivo e nas redes sociais tem sido questionada a participação negra no Janela. Nas festas, na audiência dos filmes, nos debates: onde estão os negros? Porque ainda são minoria e o que está dificultando o acesso deles a essa produção? Parece que o evento que é vitorioso de muitas maneiras, por trazer uma seleção interessante de filmes, que por si só questionam o mundo que a gente vive. Mas as estruturas reprisam a questão econômica, a pirâmide da injustiça social. Alguns filmes foram questionados, isso é bom. Não me cabe aprofundar agora nessas questões, mas elas já estão pipocando e demandam novos enfoques, novas estratégias.

Sem lançar novas estratégias de alcance para um público menos privilegiado, torna-se quase vazio o ato de organizar mostras como L. A. Rebellion. Fica a dica deste branco que não pode ficar vinte minutos na praia sem pegar insolação.

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Sobre o autor

Germano Rabello

Jornalista formado pela UFPE, Ilustrador, quadrinista, roteirista, escritor, músico e profissional na arte de participar de sorteios avulsos promovidos pela TV e pelas mídias sociais