Os Estados Unidos na frente do espelho

0

Fundamentado em uma ampla pesquisa de arquivos, “Em nome da América” apresenta a relação Estados Unidos-Brasil com foco na relação entre estadunidenses “voluntários da paz” e o Nordeste

Por Chico Ludermir

Ao mesmo tempo em que os Estados Unidos enviavam tropas para o Vietnã e articulavam golpes de estado em toda a América Latina, o Corpo da Paz, programa do governo norte-americano, espalhava-se pelo mundo em ações humanitárias e assistencialistas. Em nome da América filme dirigido por Fernando Weller, que estreou na última quarta-feira (06) no CachoeiraDoc, esmiúça essa contradição nos lançando para uma complexidade que parece mais comprometida em entender do que julgar. Resultado de uma pesquisa vasta em arquivos do Brasil e, sobretudo, no acervo estadunidense, que torna o longa metragem uma preciosidade histórica, o filme mergulha numa parte da relação (Nordeste do) Brasil-Estados Unidos ainda pouco conhecida e apresenta imagens e documentos que ajudam na reconstrução do passado e na compreensão do presente.

O quebra-cabeça que aparece na tela vai, aos poucos se montando, na medida em que as peças vão sendo apresentadas. Weller está de tal maneira comprometido em descrever um emaranhado geopolítico tenso que não hesita em assumir o tom didático. É neste primeiro momento também que nos aproximamos de uma visão sensível da relação afetiva entre esses norte-americanos e os nordestinos que, ao nos tocar, chega a acordar dúvidas sobre as consequências de uma abordagem condescendente ou demasiadamente compassiva com os Estados Unidos. Uma das voluntárias da paz se emociona (e nos emociona) ao narrar, de dentro de uma casa em que nada falta, como foi seu encontro com a miséria nordestina: ao exercer um serviço de aplicação de vacinas no interior de Pernambuco, encontrou algumas crianças que eram tão magras que se tornava impossível achar alguma gordura pra enfiar a agulha. Também dos Estados Unidos, ouvimos um dos entrevistados relatando sobre o quanto aprendeu e se transformou com a experiência.

O que poderia nos parecer uma visão ingênua (ou que endossa a ingenuidade dos próprios entrevistados) aos poucos se converte em um duro questionamento sobre a pertinência de ações pessoais bem intencionadas diante de uma estrutura extremamente imperialista e desumana. O idealismo, próprio daquele momento de juventude, como diz um dos personagens do próprio filme, acaba por dar lugar a uma amargura. “A ação do Corpo da Paz não mudou nada daquela realidade social” conclui outro, nos apresentando um tom, dessa vez radicalmente pessimista. Mas não é só na fala dos entrevistados espalhados pelo Brasil e Estados Unidos que as críticas aparecem. Duas cenas emblemáticas de Em nome da América nos joga na cara as muitas contradições. A primeira é uma imagem de arquivo que mostra, em preto e branco, uma voluntária da paz dando aulas para um grupo de mulheres. Ela ensina como ter uma alimentação balanceada enquanto mostra figuras de alimentos ricos em vitaminas, carboidratos e proteínas para pessoas que estão morrendo de fome. Nas hora da demonstração prática, a dureza da realidade se escancara: “Como não temos fogão, geladeira ou comida, vamos usar as figuras recortadas”. A segunda é um reencontro entre uma norte-americana e uma mulher negra moradora de Timbaúba, Zona da Mata Norte de Pernambuco. Em dado momento da conversa, a brasileira, em tom agridoce, fala sobre a diferença entre as posições das duas, onde ela, obrigada a ficar calada para não morrer, leva até hoje uma vida marcada por opressões, enquanto a outra antropóloga e pesquisadora voltou para os Estados Unidos. “Eu sei. Eu sei…” repete a norte-americana incomodada.

No decorrer dos 96 minutos, o filme se engaja com uma investigação de uma trama preocupada também em dar conta de alianças e traições dentro do cenário da ditadura militar e da Guerra Fria. Sem abandonar o tom marcadamente pessoal sempre presente na fala dos entrevistados, remonta o contexto das Ligas Camponesas, de Francisco Julião, a ação da Igreja Católica comprometida em legitimar o golpe, e descamba numa busca por um agente da CIA, infiltrado no grupo dos voluntários da paz. Weller imprime um clima forte de suspense e tensão e, de maneira consistente, mantém um posicionamento ao mesmo tempo ético e corajoso, frente a um espião.

O tom critico que o filme assume, passo-a-passo, vai inscrevendo o documentário em um lugar raro e sóbrio. De um confronto firme, que prescinde o embate. Weller pretere a fala incendiária e as notas inflamadas de denúncias, o que certamente pode fazer falta para muitos espectadores. Em nome da América recusa o maniqueísmo e não enquadra ninguém no lugar de inimigo, o que certamente, em tempos de acirramento das tensões e demarcações muito definidas de lados opostos, pode ser lido como uma estratégia menos potente. No entanto, é em duas cenas síntese e contundentes que o filme se encerra. De um lado, os norte-americanos, em imagens de um documentário gravado pela próprio Corpos da Paz, na década de 1970, reconhecem que, querendo ou não, estão vinculados a uma estrutura imperialista e que, por mais se esforcem e se engajem, ainda estarão trabalhando a serviço dela. É ao final, uma forma de mostrar às elites mundiais, inclusive as brasileira, as mais diversas incoerências de um modelo de ação assistencialista que não afronte o sistema de maneira macro-estrutural. É ao mesmo tempo, uma forma de mostrar, que, em momentos em que as escolhas parecem escassas (servir na guerra do Vietnã ou ser voluntário da paz no Brasil – ou servir aos voluntários da paz para não ir para as trincheiras do Vietnã, ou ainda, ser voluntário da paz ou ser infiltrado da Cia no voluntários da paz), ainda assim existe uma enorme diferença, mesmo que apenas na motivação.

No Brasil de hoje, o último personagem nordestino a ser ouvido, diante de uma réplica à Estátua da Liberdade, desconhece completamente qualquer presença dos Estados Unidos na sua cidade e, acaba por nos lembrar, o quanto parte de nossa história e, para muitos, ainda é escondida e que a memória e a informação estão no campo da disputa política. O que não se pode negar é a maestria com que a história é remontada. Em Nome da América escolhe colocar um espelho na frente dos americanos e subverte a lógica de quem representa quem. Em 2017, com uma configuração ao mesmo tempo similar e distinta da de 1964, Weller nos mostra a importância de acreditar nas teorias conspiratórias (afinal, as conspirações, existem) e nos ajuda a interpretar o contemporâneo.

Compartilhar:

Sobre o autor

Chico Ludermir

Chico Ludermir é jornalista, escritor e artista visual. É integrante dos movimentos Coque Vive/Coque (R)existe e Ocupe Estelita. Atualmente é mestrando em sociologia pelo PPGS-UFPE e pesquisa as relações entre arte e política.