“Onde começa um rio”: um cinema de ocupação – Entrevista

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Por Chico Ludermir

O documentário Onde começa um Rio encontra com os estudantes das ocupações universitárias de 2016 nos dias que margeiam a votação da PEC 55 (que congelou os gastos da saúde e da educação públicas brasileiras). O filme, que parte de uma viagem de ônibus do interior de Pernambuco até Brasília, apresenta versões pouco abordadas pela mídia hegemônica e opiniões que não ecoam muito até mesmo dentro da esquerda tradicional. Entrevistamos três dos quatro diretores (a quarta criadora é a Maiara Mascarenhas) de Onde começa um rio, às vésperas de sua estreia nacional, na oitava edição CachoeiraDoc. Julia Karam, Maria Cardozo e Pedro Severien, compartilham o que viram e filmaram e refletem como um filme pode contribuir para a resistência dentro e fora das universidades. “A forma como fomos construindo os contatos com xs ocupantes para mim reflete essa vontade de se alimentar mutuamente, de trocar para nos fortalecermos”, responde Maria, sobre o que as premissas norteadores do processo de construção do longa metragem. Confira abaixo a entrevista:

(divulgação)

CARDA – Onde começa um Rio é um filme que embarca numa viagem com estudantes universitários do interior de Pernambuco, vinculados às ocupações, rumo à votação da PEC 55 em Brasília. Porque vocês decidiram fazer ESSE filme? Que motivações foram acionadas para ativar o desejo de pegar carona naquele ônibus?

PEDRO SEVERIEN – Eu sinto que esse filme começou a se fazer a partir de uma vontade de intervir num espaço que passa por uma intensa disputa, a universidade pública. Quando o Centro de Artes e Comunicação da UFPE foi ocupado pelos estudantes da graduação, eu estava no segundo semestre do mestrado, e me reconheci também enquanto um estudante nesse lugar. De forma intuitiva foi se formando o coletivo do filme, atraídos pelo desejo de pensar esse gesto de realização em associação a mobilização. Começamos sem um discurso ou formato pré-determinado. Entendemos que havia uma potência nessa movimentação e nos pusemos em movimento também. A partir daí, os encontros, as conversas, uma forma de reflexão coletiva foi nos guiando. Talvez, a única premissa que eu colocava pra mim mesmo desde o início do processo é que este não poderia ser um filme “sobre” os estudantes, mas um filme “feito com” os estudantes. Tem uma diferença importante aí que é justamente não enveredar por um caminho da representação generalizante, onde teríamos que supostamente dar conta de toda uma movimentação estudantil nacional que é bastante diversa, ou que um recorte narrativo teria a pretensão de representar o todo. Então, com essa decisão de nos colocarmos próximos, de pensarmos com os debates vigentes nas ocupações, fomos formulando o filme. A viagem para Brasília com estudantes dos campus de Vitória de Santo Antão e de Caruaru surge dessa investigação, desse diálogo, da construção de uma relação com esses grupos de ação política e emancipação.

CARDA – Títulos de obras costumam ser reveladores e, por isso, sempre me interessam. Me falem sobre a escolha desse nome Onde começa um rio.

MARIA CARDOZO – Não queríamos um título que tivesse a pretensão de racionalizar o momento político das movimentações estudantis. Então, começamos a pensar em títulos que pudessem remeter a ações ou a imagens que de alguma forma sugerissem mais do que retratassem a resistência. Foi quando me apareceu uma estrofe do poema “O cão sem plumas” de João Cabral de Melo Neto, no qual ele indaga sobre o lugar onde começa o rio Capibaribe. Durante a viagem de ônibus para Brasília, um pedaço da estrada no sertão pernambucano margeia o rio São Francisco, e ao entrevistarmos Jacqueline, uma companheira estudante de enfermagem, ela fala que aquele rio é resistência, que ele é uma imagem daquilo que os estudantes estavam fazendo naquele momento, seguindo um fluxo mesmo com tantos ataques e barreiras. Então, vislumbramos esse lugar onde não “o” rio especificamente começa, mas “um” rio, afinal não sabemos nunca ao certo onde a mobilização coletiva começa. Mas é esse o lugar que buscamos com o filme.

CARDA – O filme se apresenta de maneira engajada na luta dos estudantes que ocuparam universidade e escolas durante o final de 2016 e dialoga fortemente com a própria trajetória de vocês. Contem em que pontos esse filme toca as suas militâncias/convicções.

PS – Já há alguns anos venho participando tanto de coletivos que desejam formular e pensar políticas públicas para a cultura e o audiovisual, quanto em movimentos de ocupação que promovem uma intervenção mais direta nos espaços urbanos, como o Ocupe Estelita e o Ocupe Cine Olinda. Essas experiências de militância me atravessam e tem me conectado com um fazer cinematográfico que tem também um desejo interventivo. Em outras palavras, fazer filmes que disputem a narrativa, confrontando as narrativas hegemônicas, mas que também tenham nos seus modos de fazer um vínculo com o espaço, com a coletividade e a partilha.

MC – Eu ainda não fazia parte do filme quando fiquei sabendo da possibilidade de ir no ônibus para Brasília protestar contra a PEC do Fim do Mundo com xs ocupantes das universidades. Tinha acabado de sair de uma oficina interna de auto-cuidado no Ocupe CineOlinda e Pedro veio compartilhar comigo essa viagem. Como toda ocupação ou militante político, passávamos por um momento de muito desgaste e naquela oficina senti a potência de nos alimentarmos mutuamente com afetos, com a escuta e o olhar. A proposta do filme e da viagem então se abriu para mim como essa experiência de trocas de afetos, de espaço de escuta e de nos olharmos. Sendo que ampliaríamos essa troca com ocupantes ainda mais diversos. De outros lugares que não apenas da nossa cidade. Com outras vivências. A forma como fomos construindo os contatos com xs ocupantes para mim reflete essa vontade de se alimentar mutuamente, de trocar para nos fortalecermos.

JULIA KARAN – Os debates políticos e sociais sempre estiveram presentes em minha vida por ter uma família muito engajada na luta política. Cresci me envolvendo na micro política do dia dia e ativa nas manifestações do Rio de Janeiro. Foi quando cheguei no Recife que participei da ocupação no Ministério da Cultura que pude me deparar com outras formas de encarar uma ocupação. Foi um período de extremo aprendizado e aonde pude conhecer os companheiros em que futuramente viria a fazer esse filme. Considero os processos de ocupações fundamentais para a retomada dos nossos direitos e da reflexão sobre o que é nosso.

CARDA – O cinema tem se consolidado como uma ferramenta potente de resistência. De que forma vocês acham que o cinema resiste? Como esse filme contribui com isso?

PS – Eu acho que as diversas formas narrativas e linguagens artísticas podem ser utilizadas para fortalecer ou desmobilizar resistências, assim como podem se configurar como uma resistência em si. Nesse sentido, o cinema tem uma potência emancipatória e de construção de autonomia em sua linguagem tanto quanto as outras artes. Mas o que instaura uma das potências específicas do cinema, a meu ver, não é propriamente apenas a linguagem cinema, mas os modos de se fazer cinema. E aí podemos pensar o cinema de intervenção não só pelo viés narrativo, mas também pelo viés prospectivo, e essa força reside na experimentação que se faz nesse contato com a câmera, com as telas, com os corpos, com as pautas emergentes. Pra mim, o contato daquele que filma com aquele ou aquilo que é filmado maquina essa produtividade política. O nosso filme só existe nesse contato com os estudantes, com os discursos dos estudantes, com as ações desses estudantes. E esse contato pode servir para um contágio no sentido de uma troca consistente. Um contágio que possivelmente desloca ou modifica um pouco de cada um dos sujeitos envolvidos nesses diversos pólos de ação.

CARDA – A construção da narrativa hegemônica é muito estreita. O filme parece falar de um Brasil que as grandes mídias não acessam por sempre priorizarem as narrativas institucionais e traz à tona novos sujeitos. Que outros brasis é possível ver com esse filme? Que outros discursos o filme deseja trazer à tona?

JK – Acho que o filme foi se revelando nas margens. Tínhamos muito material e dava para se ter feito muitos filmes diferentes, mas foi impossível não se atentar para o que esses sujeitos estavam nos falando. É esse Brasil que queremos escutar. O filme percorre um caminho extenso, de vários sotaques e formas, e ele foi se mostrando à medida em que íamos escutando as entrevistas e pensando no que normalmente não nos é dito.

CARDA – Onde começa um rio se passa no momento em que Brasília, na votação da PEC, se configura como um ponto de convergência de lutas. Por isso mesmo, vocês tiveram a oportunidade de entrar em contato direto com os movimentos de resistência de todo o País. Que outras pautas vocês conseguem ver que atravessam o debate do congelamento do teto de investimentos em saúde e educação? O que diziam as ruas de Brasília?

MC- Acho que havia uma tentativa de uma convergência de lutas e pautas. Principalmente por parte da esquerda institucionalizada e hierárquica. Tanto que o custeio das caravanas foi em sua maior parte feito por essa esquerda institucionalizada e hierárquica. Mas havia também uma diversidade imensa de pautas e lutas que não se sentiam representadas pelas pautas ouvidas nos carros de sons, que acabavam por abafar falas de outros grupos que caminhavam. A crise de representatividade, o genocídio do povo negro e dos povos indígenas, a violência de gênero, entre tantas outras diversas pautas estavam colocadas também. Pois havia essa reflexão de que não era apenas um golpe, o que se deu em 2016, mas uma sequência de golpes que formam a desigualdade do Brasil. Era um apontamento mais profundo sobre as estruturas opressoras do estado brasileiro. Por isso, no filme não trabalhamos uma narrativa de luta contra O Golpe, algo totalmente convergente, unificado. Porque não era assim. Aliás, poderia ser feito esse recorte, mas acreditamos que esse recorte seria uma invisibilização de toda essa luta que está se fazendo à margem da esquerda institucionalizada e hierárquica, que não por acaso, é em sua maioria branca.

CARDA – Vocês perpassam, no filme, por temas centrais das militâncias identitárias (raça/etnia, gênero, sexualidade). Como vocês percebem essa interseccionalidade dos debates que é característico desse momento político atual.

JK – Não dá para fazer um filme sobre as ocupações e ignorar esses temas. Eles são a base do que estamos enfrentando, é impossível falar sobre saúde e educação e não entrar nos temas de gênero, raça e classe. Acho que é impossível falar sobre qualquer coisa sem passar por eles. As instituições ainda hoje desconsideram esses fatores que fazem parte da estrutura da nossa sociedade e constroem uma visão política que parte de uma falsa igualdade. Acho que um dos momentos chave do filme é a parte do Quilombo da UnB, em que nos é escancarado que a universidade “já é um centro de convivência branca”, palavras de Lua Xavier. Percebemos um esgotamento dos discursos que não trabalham com interseccionalidade, esbarramos com eles e os consideramos vazios. Esse filme se descobriu na montagem, quase como se ele tivesse “falando” com a gente. Ele foi revelando os sujeitos que tinham que estar ali. Quem está hoje no embate e não considera essas características, desconfie se é mesmo um aliado.

CARDA – Onde começa um rio foi filmado em dezembro de 2016 e, nove meses depois, o filme já está pronto. Esse tempo é muito próprio de um tipo de filme que nasce com urgência, o que inclui, além desse tempo acelerado de produção/realização, nenhum ou pouco financiamento/recurso, autorias coletivas e um roteiro aberto que se amarra durante a edição. Falem mais sobre esse conceito (urgência) que norteia essa prática documental e compartilhem a experiência de vocês (tempo, recursos, divisão de trabalho…).

JK – Tenho me interessado muito sobre esse tipo de documentário que nasce com uma urgência de ser visto. Entendo que esse tipo de documentário serve como um instrumento de denuncia, a imagem serve como uma possibilidade de defesa na hora do embate, quase como um escudo e a urgência do tempo se torna também parte da memória do que houve e nos ajuda a olhar para o nosso presente. Tenho visto muitas oficinas sobre documentário urgente em ocupações de moradia, retomada de terras indígenas em que se utilizam por exemplo ferramentas de filmagem como o celular e é extremamente fundamental para assegurar nossos direitos que isso seja revelado. Se dependermos da narrativa hegemônica não haverão mais espaços e o que temos está sendo retirado. No caso do nosso filme deveria sair rápido pelo nosso desejo de intervir em defesa da universidade pública. Tomamos a decisão de fazer com nossos próprios recursos materiais e subjetivos, de forma colaborativa e investimos nosso tempo, concentrando nossa energia produtiva para que o filme ficasse pronto o quanto antes. Cada dia, semana, mês a mais faz diferença nesse cronograma, porque o ataque a universidade só tem aumentado com o desmonte e a privatização, que atende aos interesses de conglomerados empresariais e outros grandes grupos econômicos nacionais e internacionais.

MC – Tenho refletido muito sobre os modelos de produção do cinema. Meu primeiro filme (Cheiro de Melancia, 2016) fiz em um modelo de produção clássico e hierárquico e foi algo que me gerou muitos conflitos. Estava na busca por outros processos e Onde Começa um Rio me trouxe essa oportunidade. Primeiro tiramos essa ideia de direção, somos todxs codiretorxs. E a feitura do filme foi muito fluida e intuitiva. É uma reflexão que ainda não encerrei, mas gosto do diálogo de um modelo de produção que traz a horizontalidade, tema tão debatido nas próprias ocupações. Independente do grau de experiência de cada um, conseguimos através da escuta mútua respeitar as criações de cada um no filme e trabalhar nossas divergências. Não acho que para fazermos um filme coletivo precisamos concordar em tudo, é preciso não hierarquizar as experiências.

CARDA – O filme é uma viagem. Uma viagem que vocês, ao se proporem a filmar, também fizeram (e por isso é necessário entender o filme como um processo pelo qual vocês passaram). O que foi essa viagem/filme para vocês?

PS – A viagem proporcionou este filme. Poderia haver um outro filme caso não tivéssemos embarcado no ônibus para Brasília. Ou mesmo filme nenhum. Mas pra mim o mais importante desse processo foi justamente lidar de forma produtiva com essa incerteza. Mesmo enquanto estávamos na estrada, havia um risco permanente de as coisas desandarem. Ao mesmo tempo que não tínhamos um roteiro pré-determinado, não havia também um grande plano dos movimentos estudantis. As mudanças estavam acontecendo nos âmbitos locais e eram visíveis, mas não havia uma coordenação nacional. Esse vislumbre de uma ação que se faz no deslocamento é provocante, mobiliza, me fez entender o quanto eu não poderia estar ali apenas para filmar de forma observacional. A minha presença precisaria ser pensada em outros termos. Nesse sentido, a minha experiência não poderia ser só minha. Seria necessário um movimento pessoal, que é político, no sentido de realmente estar presente, agindo com o grupo. Penso num conceito que não é de forma alguma restritivo, mas talvez sugestivo: um cinema de ocupação. Esse conceito abarcaria modos de fazer cinema que estejam em permanente dinâmica entre a disputa narrativa e a presença, o engajamento na ação e no filme, um fluxo contínuo entre o mundo que queremos e a terra que pisamos.

CARDA – Se, por um lado, é necessário admitir que vocês fizeram essa viagem, por outro, também é essencial pontuar a mediação da câmera/filme como dispositivo de encontro e vivência. Quais foram as singularidades desse encontro? O que vocês conseguiram ver através dela, mas que lugares (simbólicos) a câmera os impediu de acessar?

JK – É sempre um exercício de cuidado filmar em ambientes como ocupações e as próprias já têm esse limite estabelecido. Como nós todes já fomos ocupantes, sabemos e corroboramos com a ideia de que determinadas situações serão vividas somente na experiência dos nossos corpos. Reuniões que debatem estratégias são, por exemplo, espaços preservados em que por questão de segurança não se filmam. Na ocupação das minas em Brasília, trabalhamos com a ideia de filmar sem expor, as meninas não queriam ser identificadas e pensamos juntas na alternativa de filmar só as silhuetas da aula de auto-defesa. E por fim, acho que a câmera no dia da manifestação se torna um objeto muito ambíguo, ela serve tanto como instrumento de defesa como provoca e lhe põe em risco.

PS – Por estarmos nos utilizando do dispositivo do filme para esses encontros, esse contato e também um certo contágio, eu entendi que não deveríamos filmar tudo o tempo todo. Assim, o filme foi se formulando também por suas recusas. E por que pensar esses espaços que não seriam acessados? Porque é um além filme, é um lugar que ao ser preservado nos colocava também diante da complexidade do momento. Esse gesto, por exemplo, nos fez entender que o filme não seria sobre o cotidiano das ocupações. Não estávamos ali para revelar intimidades, intensidades afetivas ou expor uma dinâmica interna que a sociedade não tinha acesso. Essa decisão vem de uma reflexão sobre a própria câmera, sobre o quanto o cinema também é incapaz de agir produtivamente em vários planos do real e ao mesmo tempo pode servir para desmobilização quando se torna muito auto-referente.

CARDA – O filme inicia sua carreira no CachoeiraDoc, o festival mais politizado do país, numa mostra chamada cinemas de lutas. O que isso representa pra vocês pro filme. E quais são os próximos passos do Onde começa um rio?

MC – Nossa estratégia é distribuí-lo em espaços que possam promover um debate voltado para a reflexão e a ação política. Então, o CachoeiraDoc se enquadra nessa dimensão, por ser um lugar de pensamento, um espaço propositivo, interventivo. Estrear nesse festival é importante pelas possibilidades de escuta e de diálogo fora das questões meramente formais. Aqui me parece que não se separa estética e política, como é infelizmente tão comum em tantos festivais e mostras de cinema. Mas nós corremos muito para terminar o filme a tempo. Conseguimos produzir a cópia final a poucos dias do início do festival. Queremos então usar essa experiência do debate aqui para seguir com a distribuição. Já temos mais ou menos um desenho: disponibilizar o filme na internet, articular sessões com cineclubes e espaços de ocupação e estimular o seu uso enquanto instrumento de reflexão crítica e criativa sobre a mobilização social. Mas isso é um desejo e não uma coisa assertiva. Será que o filme irá promover um debate? Será que ele será útil na formulação de outras ações? Não saberia dizer. O que sei é que estamos engajados em fazê-lo chegar em circuitos não controlados ou hierarquizados.

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Sobre o autor

Chico Ludermir

Chico Ludermir é jornalista, escritor e artista visual. É integrante dos movimentos Coque Vive/Coque (R)existe e Ocupe Estelita. Atualmente é mestrando em sociologia pelo PPGS-UFPE e pesquisa as relações entre arte e política.