O maleável discurso do design e seu uso num mundo multíplice

0

Por Fernanda Fortes

“Sempre me fascinou que Mallamé, em seus versos tenha conseguido dar uma incomparável forma cristalina ao nada.”

(Italo Calvino)

photo-1024x1024

Objeto desobediente: um ventilador feito com base de telefones antigos, em Cuba, na década em que Ernesto Guevara assumia a produção do país. O lema era reutilizar tudo. “Desconstruir para construir”.

O discurso sobre o que é DESIGN, atualmente, faz parte de um debate relevante, devido a certos equívocos que o termo “design”  vem tomando – Algo que primeiramente significaria o ato de desenhar acessórios funcionais para o nosso cotidiano, como uma máquina, um utensílio, mobiliário, uma embalagem, entre tantas coisas -, tão múltiplo, passou a provocar e possuir no contexto de um universo igualmente multíplice. O teórico e designer Gui Bonsiepe em seu livro Design, consumo e sociedade faz interessante paralelo com o título As seis propostas para o próximo milênio do escritor italiano, Italo Calvino, no qual o último identifica as seis qualidades que somente a literatura pode salvar na humanidade:  leveza, rapidez, exatidão, visibilidade, multiplicidade e consistência.

Alguns dessas virtudes ditas por Calvino, que fazem parte do chamado discurso projetual literário, podem ser, justamente, transpostas para a atividade do design. Esse é o caso dos itens da leveza e da amenização do peso numa narrativa. Qualidades que podem ser interpretadas e vistas no design, por exemplo no funcionamento de um objeto e na orquestração de um material usado para a sua construção. Para o designer Rafael Cardoso “projetar soluções para um mundo complexo passa por aceitar a complexidade como precondição, ao invés de debate-la”. Já Bonsiepe diz que “projetar é ter a predisposição de mudar a realidade sem se distanciar da realidade”. E questiona a raiz do discurso defasado de design; o ensino; e como ele é propagado nos seus coffee table books; que cujo poder de síntese atualmente resume-se na etiqueta do artefato e não ao próprio artefato.

A princípio havia uma dicotomia entre a prática e a teoria no âmbito do design. Ettore Sottsass, arquiteto e grande figura do desenho italiano do pós-guerra, ao se apresentar como intelectual foi duramente criticado, uma vez que o intelectual está habituado em projetar discursos, e na tradição do design isso não é um requisito primário. O design é fruto de uma tradição artesanal, todavia o mundo está sujeito à mudanças e esse comportamento foi superado. Muito designers enveredaram-se para a palavra; para o discurso; para o debate do design.

Se em algumas áreas como o cinema de animação atuar no aprimoramento teórico exclui a labuta diária e impõe degraus maiores de excelência prática, isso não é uma restrição para o design. Apesar do nosso estágio atual de produção em série impor um consumo desenfreado e, paradoxalmente, mais personalizado onde um eu possa ser afirmado diante da facilidade de produção e através de uma distinção, isso pode ser discutido e fissuras podem ser encontradas. A dicotomia entre o fazer e o discutir foi enfim rompida e o fazer pode então ser aprimorado através do discurso.

Objetos e uma função política 

A função do designer é, antes de tudo, política, onde política não se detém apenas a determinados membros da sociedade e o programa de gestão previsto, então, por eles. Um exemplo disso, foram as soluções de design adotadas por Cuba e que podem ser conhecidas através da exposição de Desobediência tecnológica do artista e designer cubano, Ernesto Oroza.

No passado, ao prever a necessidade e sentimento de autonomia industrial, Ernesto Guevara, então presidente das Indústria de Cuba fez uma convocatória para fundação da Anir (Associação Nacional de Inovadores e Racionalizadores) com objetivo de nacionalizar empresas estrangeiras, ver a saída dos engenheiros e trabalhadores dessas empresas e dá ao trabalhador cubano autonomia nas etapas de produção da indústria com o lema “Trabalhador, constrói a tua máquina!”. Dessa forma, com a total intervenção dos trabalhadores, as máquinas assumiram características diferentes de seus padrões e foram denominadas de “criollas”. Essa capacidade de intervir nos mecanismos industriais mais profundos dado ao trabalhador gerou uma resistência muito grande durante esse período. Segundo Oroza, os anos 1970 foram marcados por um processo de acúmulo de artefatos. A necessidade de matéria prima fazia das casas dos cubanos um depósito de materiais e fragmentos e assim nasciam-se soluções com morfologias semelhantes, tais como ventiladores com a base de um telefone (modelos antigos), entre outros. A lógica era desconstruir para construir, ao que Oroza chamou de Desobediência tecnológica e explanou essa lógica de uso, reuso e ressignificação na semiótica dos objetos.

Criolla "Aurika" (Fonte: Site de Ernesto Oroza)

Criolla “Aurika” (Fonte: Site de Ernesto Oroza)

“De tanto abrir corpos o cirurgião insensibiliza-se com a estética da ferida, com o sangue e com a morte. E esta é a primeira expressão da desobediência dos cubanos em relação com os objetos: um desrespeito crescente pela identidade do produto, bem como pela verdade e pela autoridade que essa identidade impõe. De tanto abri-los, repara-los, fragmenta-los e usa-los à sua conivência terminaram desfazendo-se dos signos que toram os objetos ocidentais uma unidade e uma identidade fechada”, diz o texto de Oroza para sua exposição que contém alguns desses emocionantes objetos de resistência de uma memória cubana. O que nos faz pensar acerca do significado dos objetos e de como eles são afirmados pelos sujeitos por meio de soluções.

Rafael Cardoso em Design para um mundo complexo questiona a imobilidade dos objetos (função primordial que os distingue de artefato – feitos com arte e necessários da ação humana) cita os Arcos da Lapa, construído como aqueduto nos anos 1970, para levar a água da Mata Atlântica até o Largo da Carioca. Apesar de imóveis, os Arcos sofreram influências significativas no imaginário das pessoas. A estrutura da época foi destruída e o Arco tornou-se um viaduto. O objeto é imóvel, porém sua função foi modificada. Mudança esta que ocorreu pelo desuso do próprio aqueduto e a urgente necessidade (ou de novidade) de um bondinho elétrico. A partir de uma mesma estrutura, a função foi completamente modificada. Cardoso diz: “(..) A mudança do nome é indicativa de uma transformação mais profunda, que afeta até mesmo a estrutura de pedra e cal. Tudo aquilo que parece, aos nossos sentidos, sólidos e imutável – como as construções muito antigas por exemplo – quase sempre desmancha nos ares do tempo. Mostre me um edifício, diz o historiador, e eu lhe mostrarei o princípio de uma ruína.” O próprio entorno trazido pelo tempo, mudou o tamanho, a impotência e a paisagem dos Arcos da Lapa, tornando o objeto por mais imóvel sujeito à dialética.

Arcos da Lapa, durane obras de reurbanização na época do prefeito Pereira Passos (1903 - 1906). (Foto de Marc Ferrez - Coleção Gilberto Ferrez - Acervo Moreira Sales Fonte: Rios Primeiras Poses, exposição - http://rioprimeirasposes.ims.com.br/imagens-da-exposicao/)

Arcos da Lapa, durante obras de reurbanização na época do prefeito Pereira Passos (1903 – 1906). (Foto de Marc Ferrez – Coleção Gilberto Ferrez – Acervo Moreira Sales Fonte: Rio Primeiras Poses, exposição)

Os fatores, aos que Rafael Cardoso, considera condicionantes para o significado do artefato são: uso, entorno, duração, ponto de vista, discurso e experiência. Mas também considera de suma importância a experiência do usuário, pois sem um sujeito para afirmar o objeto não há objeto. E assim voltamos a experiência de Cuba, ressignificando o uso, criando soluções projetuais e uma cultura onde uma sociedade afirma o que o objeto é.

A pobreza como motor de produtividade

A partir do intercâmbio econômico com URSS através da Comecon, houve uma padronização de objetos. Havia modelos limitados de cada objeto, geladeira (Minsk), televisores (Caribe e Krim), ventilador (Orbita), máquina de lavar (Aurika) entre outros, tornando até o processo de reparação padronizado, criando no seio familiar um indústria para reparação de peças. Um dos objetos mais versáteis o motor da Aurika deu lugar para ventiladores, condicionadores de ar, cortadores de alguns frutos e legumes, entre outros. Sobre os brinquedos, Oroza comenta em uma entrevista elaborada por Jenny Marder, que os pais improvisavam alguns para seus filho com recipientes plásticos e diz, comoventemente, que “Lamentavelmente toda criatividade está impulsionada por uma profunda pobreza”.

Eurika do lado direito superior da montagem, osoutros equipamentos são uma máquina de consertar e fazer sapatos e um ClockWize (foto e montagem de Ernesto Oroza)

Aurika do lado direito superior da montagem, os outros equipamentos são uma máquina de consertar e fazer sapatos e um ClockWize (foto e montagem de Ernesto Oroza)

Oroza também escreveu em sua tese “A arquitetura da necessidade” soluções urbanas criadas pelas próprias famílias durante a crise, e expôs nela a arquitetura e o urbanismo encarados como problema doméstico, tal como a autonomia criada nos artefatos.

jpg

Moto, hoje, proibida em Cuba. Construída de acordo com os princípios da desobediência tecnológica. (Fonte: Site de Ernesto Oroza)

Compartilhar:

Sobre o autor

Revista de cultura e amenidades aberta para qualquer papo cabeça ou conversa cotidiana e suas sugestões. Bem-vindo e boa leitura!