O Luto e seus Sortilégios

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Por Mariana de Macêdo

 

 We are all always so close to not existing at all
Except in the confusion of our survived-bys grasping at the echoes

 

Hoje é um sábado de Aleluia, Jesus Cristo é morto.

Assim como você, Geneviève.

O primeiro corpo morto que vi, e soube morto por antecipação, foi o da minha tia avó. Tudo que pude recolher dentro de mim – que me escapava na madrugada insone ao ouvir sem parar Cat Power em I Found a Reason – era o fato de que, apesar da Alzheimer, eu acreditava profundamente em tudo nela. Ela vivia, afinal. Mas, então, após a morte, o que poderia me recobrar seu sentido de existência? Uma palavra me trouxe ao sentido: quimera. Seus olhos, um azul, o outro verde, a tornavam uma criatura incomum. Apeguei-me a ela, à quimera, e inclusive escrevi um pequeno texto, num papel qualquer entregue na cerimônia de seu enterro, sobre todos os sentimentos que permeavam aquela coisa nova para mim, o luto. Gostaria de poder dizer que ninguém mais próximo morreu depois da minha tia avó, o que não foi o caso. Mas deixemos essa história dolorosa para mais tarde, talvez.

No dia nove de julho de dois mil e dezesseis Geneviève Castrée morreu em casa com um câncer pancreático, deixando uma filha praticamente recém-nascida e seu marido, Phil Elverum. Ele compôs, durante os meses seguintes, e lançou em dois mil e dezessete e dezoito, o que seriam os álbuns essenciais para meu entendimento de luto, A Crow Looked At Me e Now Only, respectivamente. Neles, é descrito quase cada detalhe do que passou pela sua cabeça durante o processo do que vem sendo, não uma aceitação, porque digo sempre, a morte é inaceitável, mas talvez um longo suspiro no meio de tanto sufoco, de tanto nó na garganta. Poder cantar, quando tudo aperta, deve ser liberador. Assim como poder escrever um texto, mesmo que pequeno, mesmo já para mais ninguém, mesmo que já no meio do enterro.

Geneviéve, sua filha e Phil Elverum (Fotografia: Gofundme)

Nossos mortos existem em nós, tão certo isso, que só não se transforma em clichê por ser algo muito duro de se fazer. Mas será que nós também não existimos em nossos mortos? Penso isso porque já cheguei a me acreditar um urubu que me alimentava da alma do luto do outro, enquanto ouvia sem parar Mount Eerie (nome do projeto de Phil Elverum). Como posso ser tão cruel? Por que quero tanto isso para mim? Seria o luto uma espécie de encantamento que nos carrega e nos leva a espaços obscuros e confortáveis, mesmo que desagradáveis, de nossas profundezas… Espécie de sortilégio? Digo, vivemos em nossos mortos, porque é isso. Vivemos, como Elverum, tanto na lembrança, que vivemos acolhidos no pensamento da morte. Desculpem-me, talvez vocês não vivam. Eu vivo. Depois desses dois álbuns, depois da minha tia avó, depois das mortes seguintes, posso dizer que vivo.

E não são apenas as mortes corporais, às vezes grandes despedidas tornem-se igualmente fatais. Vivemos dos ecos uns dos outros, vivos ou mortos. Somos a continuação do que as pessoas são capazes de nos oferecer – além de inúmeras outras coisas, claro. E isso pode ser tanto maravilhoso quanto arrasador. E a permanência dessas pessoas é o que nos mantém seguros. Sem ela, sucumbimos. Acho que começo a entender agora. A morte, a despedida, elas tiram toda a garantia de que temos, todo o calor do abrigo, da aproximação, do contato. Elverum, que me lembre, não fala em momento algum sobre o contato com Geneviève, mas sobre a ausência. Esta ausência é constante. A presença de que ele fala é sempre nas músicas de sua banda – ela estava numa banda chamada Ô Paon, quando viva – ou nas fotografias, ou ainda, nas memórias de seus últimos dias.

O que não consigo desenvolver é qualquer ideia de consolo para tudo isso. Que podemos cantar e escrever, e criar, enfim, por cima dos escombros do que um dia foi o nosso amor pelos nossos mortos, talvez, e agora soçobra o desterro.

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