“O Evangelho segundo Jesus Cristo”: onde vive a salvação?

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Por Thaís Cavalcanti 

Jesus nasceu em 25 de dezembro, no ano 753 do calendário de Roma, no 31º ano do reinado de Augusto, em Belém de Judá. Havia muitos profetas naquele tempo, com distintos milagres, mas somente esse profeta de Nazaré, que afirmava ser o Filho de Deus, criou uma religião tão poderosa como o Cristianismo. Desde então, deixou um legado que passou por milhares de centenas de mãos que construíram o Novo Testamento e os Evangelhos Apócrifos (documentos históricos encontrados recentemente e que não são reconhecidos pela Igreja). Atentemo-nos especialmente ao humanizado, questionador e angustiado Jesus de José Saramago em O Evangelho Segundo Jesus Cristo, obra que neste ano, em novembro, completou 25 anos da primeira edição, publicada pela portuguesa Editorial Caminho. No Brasil, a primeira publicação também nasceu pelos anos 1990, pela Companhia das Letras. Novembro também foi mês do aniversário do autor.

Declaradamente ateu, Saramago compõe a dor do Cristo com grito de papel e tinta, e mais nada. Não é um evangelho, mas uma ficção que supõe um narrador evangelista sobre passagens que não sabemos da história de Jesus, como a sua infância e adolescência. De acordo com o pesquisador da USP, Ronaldo Ventura Souza, em sua dissertação O Jesus de Saramago e a literatura que revisita Cristo, essas fases não apareciam muito nos evangelhos canônicos porque não apresentavam aos leitores a carreira de Jesus no cumprimento das promessas divinas. Não o desenhavam como o Filho de Deus, a criatura divina que era. Em tempos de retrocessos e fortalecimento de discursos de uma direita fundamentalista, passear por ficções outras sobre as figuras míticas bíblicas pode incentivar o pensamento crítico, antidogmático e não-hegemônico.

Virgem do pintassilgo (Virgem com o Menino e São João Batista criança) c. 1505–1506 por Rafael

Virgem do pintassilgo (Virgem com o Menino e São João Batista criança)
c. 1505–1506 por Rafael

Escrito em 1991, O Evangelho… foi considerado um escândalo para o governo conservador e católico como Portugal e o autor passou a ser perseguido religiosamente e ter a obra vetada em listas de romances portugueses por “atentar à moral cristã”. Tendo vivido parte da vida com a jornalista espanhola Pilar del Rio, o autor muda-se para a Ilha de Lanzarote, nas Ilhas de Canárias, pertencentes à Espanha, onde viveu com a mulher até sua morte.

É a partir de O Evangelho Segundo Jesus Cristo que a escrita de Saramago vira uma esquina no que o autor faz uma comparação metafórica: a fase da Estátua e a fase da Pedra. Em entrevista ao programa Roda Viva, em 2003, ele descreve que em O Evangelho… ele estaria descrevendo a superfície da pedra, mas só isso. Em O Ensaio sobre a cegueira, passa ao interior dessa pedra. É também nesse mesmo programa que ele afirma que mais de 600 livros sobre Cristo foram escritos nos últimos 100 anos. A revisitação é constante geralmente por dois motivos: a necessidade de reconstruir os valores morais do presente de um ponto de vista que não fere o cristianismo (como a figura do atual Papa se propõe a atuar); a desconstrução da religião e o fortalecimento da racionalização.

Jesus continua sendo uma figura instigante do ponto de vista filosófico, artístico e – como não? – político. Mas os textos dogmáticos só passaram a ser refutados por volta do século 18, com o pensamento do Iluminismo. A veracidade do evangelho passaria a não ter mais nenhum tipo de garantia — mesmo a divina. São quatros os relatos de Jesus no Novo Testamento: os de Mateus, Marcos, Lucas e João, cada qual apresentado a sua maneira. Sabemos que a dessacralização dos textos bíblicos e sua ironia contundente perpassa por outras obras de Saramago, inclusive noutro livro com referência direta à Bíblia como Caim.

No século 19, essa tendência de dar novas interpretações humanizadas às personagens bíblicas se acentuou com a “morte de Deus”, perspectiva latente na cultura e difundida por filósofos como Friedrich Niezsche, Ludwig Feuerbach, entre outros. O obituário provocou um ruído na existência inquestionável e monoteísta de um Deus; sobretudo um cristão e católico. Coube à literatura, filosofia e artes em geral questionar a natureza desse Deus sem que necessariamente precisasse matá-lo. Autor da frase “Deus está morto” (Gott ist tot), Nietzsche, argumenta em O anticristo a ficção dualista de um deus bom que só se torna possível a partir de um deus mau. Em O Evangelho… a figura de Deus é egocêntrica e tirânica, enquanto o Diabo — conhecido como Pastor na obra saramaguiana — revela-se piedoso, cuidadoso e arrependido.

A professora de Letras da UFPB, Vanessa Rimbaud Neves, comenta à Cardamomo sobre a troca de arquétipos na figura de Deus e o Diabo, do processo cíclico que compõe a jornada de Jesus, e de que toda ficção, mesmo incômoda, é benigna. “O bem e o mal são complementares; um precisa do outro para existir. Lembro-me do conto A igreja do Diabo, de Machado de Assis, que também acentua esta ideia de complementaridade. O fato de o Diabo estar, na obra de Saramago, personificado na figura de um pastor, só acentua a dubiedade deste personagem”, afirma. “A obra de Saramago é totalmente ficcional, não deve ofender a nenhum cristão. A literatura nunca deve ofender ninguém; incomodar, sim, pois esta é a função da verdadeira literatura: desassossegar”, completa. Fazer da literatura a vida, afinal, também era uma das intenções de José Saramago; e esta vida deveria pôr em xeque as relações de poderes.

DA REDENÇÃO: DO LIVRO AO CINEMA

Desassossego também o sentimos quando lemos as intenções desse Deus a Jesus, num momento em que os três (Deus, o Pastor e Jesus) conversam em uma barca, em meio ao nevoeiro, como neste trecho: “Morrerão centenas de milhares de homens e mulheres, a terra encher-se-á de gritos de dor, de uivos e roncos de agonia (…), e tudo isso será por minha culpa, Não por tua culpa, por tua causa, Pai, afasta de mim este cálice, Que tu o bebas é a condição do meu poder e da tua glória, Não quero esta glória, Mas eu quero este poder.”

"A última tentação de Cristo", de Scorsese, com Willem Dafoe (Divulgação)

O filme “A última tentação de Cristo”, de Scorsese, com Willem Dafoe na pele de Cristo (Divulgação)

Para que Jesus se reconhecesse como Homem filho de Deus, ele deveria viver sua vida como mártir. Em diversas obras, o foco se destoa da divindade de Jesus e passa a observar o ser humano e suas dores, ainda que seja ele um grande líder. No cinema, filmes como O Evangelho segundo São Mateus (Pier Paolo Pasolini, 1964), Jesus Cristo Superstar (Norman Jerisaw, 1973), A vida de Brian (Monty Python, 1979), A última tentação de Cristo (Martin Scorsese, 1988) e A paixão de Cristo (Mel Gibson, 2004) são alguns dos exemplos.

O filme de Scorsese, baseado no romance de Nikos Kazantzakis, e que em muitos aspectos se aproxima da obra saramaguiana, traz um Jesus temeroso e atormentado pelas vozes que ouve e disposto a se rebelar contra tudo e todos. Sua mãe o interroga: “E se for o demônio? Você pode exorcizá-lo”, no que Jesus argumenta, “E se for Deus? Você não pode exorcizar Deus, pode?”

Para o filósofo pernambucano Harim Britto, parte da humanização de Jesus é sugerida a partir das figuras do Diabo no filme de Scorsese e no de Mel Gibson, porque ambas representam momentos de tomadas de decisão, de vislumbrar caminhos – perspectiva esta que também vale para O Evangelho segundo Jesus Cristo: “Eu não penso na ideia de que o Diabo teria esse poder de subverter ou de desvirtuar Jesus. Ele tinha consciência da abolição dele, ele era consciente. Não era de ludibriar. É uma figura que historicamente tá num outro patamar diferente do nosso”, argumenta à Cardamomo.

Em O Evangelho…, depois do primeiro encontro com Deus, Jesus retorna ao Pastor que, num ar professoral, lhe dirige a palavra: “Não aprendeste nada. Vai-te”. Essa lembrança repete-se em seu encontro com Maria de Magdala (Madalena), quando ela pede que Jesus aprenda seu corpo (o dela e o dele). O desejo carnal de Jesus por Madalena costuma ser controverso entre cristãos. No livro de Saramago, no entanto, aparece com beleza e lirismo e, se inseguro estava Jesus ao lembrar das palavras do Pastor, com ela teria passado à redenção: “O que me ensinas não é prisão, mas liberdade”.

A obra do autor desconstrói a misoginia (enquanto condição que lê o homem como superior e sujeito capaz de desprezar a mulher) dedicada às mulheres na Bíblia, pelo menos na figura da Maria de Magdala. Segundo Vanessa, a figura de Magdala “demonstra estar muito à frente dos demais personagens em relação à maturidade e sabedoria, ao passo em que Jesus ainda está em processo de formação pessoal”.

Cena de aparição de Jesus para Maria Madalena após ressurreição por Alexander Ivanov

Cena de aparição de Jesus para Maria Madalena após ressurreição pintada pelo artista russo Alexander Ivanov, em 1835

Para Harim, as ficções que propõem a humanização de Jesus costumam revelar e estimular leituras de aspectos de fraquezas e pequenices humanas, ideia esta que não lhe agrada totalmente: “Talvez ele tivesse seus momentos de cansaço e fraqueza, mas ele tinha a prática das lições sobre amar o inimigo, por exemplo, e que eu posso reproduzir para meu filho. Ele não seria um qualquer, mas talvez mais um herói.”

Sob essa perspectiva, as posturas de Jesus de afronta ao status quo de maneira pacífica, com discurso não-violento e de desobediência civil (lembremos que o apedrejamento estava dentro da lei) levam a uma corrente conhecida como Anarcocristianismo: “É uma visão que prega o amor diante dos discursos de ódio. Jesus não mentiu quando disse que era rei, mas não desse mundo. Ele não tinha que competir com uma autoridade instituída, mas com outro plano. E isso é mais do que uma indiferença ao mundo, é uma realização de que tudo que tá aqui é passageiro”, levanta Harim.

O professor de Cinema da UFPE, Rodrigo Carreiro, comenta que o filme de Scorsese, A última tentação de Cristo, o ajudou a estimular seu senso crítico diante dos anos estudando em colégio cristão. “Os colégios cristãos tendem a ser muito conservadores. É uma ideologia alienada mesmo da vida política. E o Scorsese era seminarista, tinha vindo de uma história católica, então todas as pontas se juntaram”, disse. Questionado sobre a ressonância do pensamento crítico em relação a produções com discursos teológicos, Carreiro menciona uma “Crise da perspectiva religiosa do mundo”. “À época, o filme do Scorsese foi muito acusado de estar alinhado à Teologia da Libertação (uma reinterpretação analítica e antropólogica da fé cristã), nem sei se foi o caso, mas hoje já se fala muito menos”, diz “E hoje as visões mais fundamentalistas tendem a aparecer. Mesmo tendo algo um pouco contraditório nisso, a crise acaba aprofundando a parte mais fundamentalista por parte dos religiosos, dos artistas e da esquerda como um todo.”

Em 2010, ano da morte de Saramago, a revista Playboy homenageia o autor com capa e ensaio controversos, que revelam playboy-saramago-originalJesus próximo a mulheres nuas. A revista trazia também uma entrevista com o escritor, que havia morrido em 18 de junho daquele ano. Para Vanessa, a homenagem da revista não lhe parece inapropriada: “É sempre uma forma de manter viva a chama crítica do autor e revisitá-lo através de outros meios de expressão artística.”

“EXPLIQUEM AGORA, OS SÁBIOS DAS ESCRITURAS”  

A evidência de um narrador que expõe a própria narração como um dispositivo que revela o encontro entre quem narra e quem é personagem (e suas relações de saberes e poderes) é decisiva em O Evangelho segundo Jesus Cristo. Tal narrador costuma expor metalinguisticamente o ofício de realizar um evangelho, de modo que, em alguns momentos, confunde-se com as intervenções do próprio autor, como no trecho: “Dizem os entendidos nas regras de contar contos que os encontros decisivos, tal como sucede na vida, deverão vir entremeados e entrecruzar-se com mil outros de pouca ou nula importância, a fim de que o herói da história não se veja transformado em um ser de excepção a quem tudo poderá acontecer na vida, salvo vulgaridades”.

São as vulgaridades que tornam uma figura mítica como Jesus num ser humano mais próximo a nós mesmos, como atesta o narrador de Saramago. Sobre o tom de veracidade divina que os Evangelhos possuem, o pesquisador da Universidade Estadual de Maringá (UEM), Murilo Moiana, disserta sobre o efeito da Palavra: “Sem as Escrituras, as noções do Divino que imperam no mundo, por suposto, não seriam as mesmas, pois teriam como suporte a oralidade e a Palavra falada é mais facilmente adulterada e, por isso, não é tão crível quanto a escrita. (…) A Palavra cria mandamentos”.

Se essa maneira de contar histórias costuma aparecer em outras obras de Saramago, em O evangelho segundo Jesus Cristo ela se torna essencial, a ponto de estimular hierarquias de poder que ultrapassam mesmo Deus e o Diabo e os humaniza a partir do medo:

“(…) o Diabo, sendo mentira, nunca poderá criar a verdade que Deus é, Mas então, perguntou o Pastor, quem vai criar o Deus inimigo. Jesus não sabia responder, Deus, se calado estava, calado ficou (…) Porém do nevoeiro desceu uma voz que disse, Talvez este Deus e o que há-de-vir não sejam mais do que heterônimos, De quem, de quê, perguntou, curiosa, outra voz, de Pessoa, foi o que se percebeu, mas também podia ter sido Da Pessoa. Jesus, Deus e o Diabo começaram por fazer de conta que não tinham ouvido, mas logo a seguir entreolharam-se com susto, o medo comum é assim, une facilmente as diferenças.”

EM CENA

“Jesus é um mito tão importante, tão introjetado no ocidente. Ele acaba sendo uma ferramenta muito eficaz para falar da vida em sociedade”, analisa, em conversa com a Cardamomo, a encenadora e dramaturga argentina e radicada no Brasil, Natalia Mallo. Em 2014, a diretora assistiu em Edimburgo, no festival de artes cênicas Fringe, O evangelho segundo Jesus, rainha do céu, da escritora e atriz britânica Jo Clifford. A peça convida espectadores a refletir sobre as narrativas bíblicas a partir da contemporaneidade, indagando esse público a pensar, por exemplo: e se Jesus voltasse como travesti? Na montagem brasileira, a atriz trans Renata Carvalho interpreta Jesus. Em entrevista à CARDA, Natalia e Renata falam sobre a ótima recepção da peça, intolerância e, sobretudo, resistência.

 “Algumas de nós são espancadas em ‘praça pública’ em plena luz do dia, aos olhos de todos e ninguém faz nada. Isso não faz você recordar algo?”

(Fotografia: Lilian Fernandes)

(Fotografia: Lilian Fernandes)

REVISTA CARDAMOMO – Como tem sido a recepção do público e da crítica da peça O evangelho segundo Jesus, rainha do céu?

NATALIA – A reação do público tem sido muito bonita, tocante. A gente vê pessoas emocionadas, pessoas transformadas alí, em tempo real. A gente percebe que está proporcionando uma experiência profunda. Recebemos depoimentos constantemente. E o que mais me toca é ver plateias diversas, com pessoas cis, trans, jovens, LGBTs, idosos, casais. Tem uma diversidade muito interessantes nas nossas plateias. As críticas também foram positivas.

RENATA – A resposta do público tem sido imediata, lotando as sessões e esgotando os ingressos da temporada. Ao final sempre fica um grande número de pessoas para conversar com todas nós, bastante tocadas pelo texto da Jo. Tem sido uma troca de energia e incentivo bem bacana.

CARDA – Quando a peça começou a circular e por onde ela irá passar aqui no Brasil?

NATALIA – Estreamos no FILO, Festival Internacional de Londrina, em agosto deste ano, onde sofremos ataques e ameaças de censura mas também uma rede de apoio e um retorno de público e imprensa ótimos. Agora ficamos até 5 de novembro no Sesc Pinheiros em São Paulo. Ainda em novembro seguimos para Belfast, pro festival Outburst. Este ano ainda houve o festival Mix Brasil e a Conferência SSEX BBOX. Em dezembro seguimos para apresentar em um evento acadêmico sobre gênero e religião em Florianópolis. A peregrinação está apenas começando.

CARDA – O lançamento do livro de Saramago foi um escândalo à época, acusado de  “atentar a moral cristã”. Nesse sentido, por que revisitar os evangelhos e criar outras leituras ficcionais da história de Jesus se faz tão necessário?

NATALIA – Jesus é um mito tão importante, tão introjetado no ocidente. Ele acaba sendo uma ferramenta muito eficaz para falar da vida em sociedade. Quem não conhece as parábolas? E a sua figura se presta muito bem quando a gente quer falar do estigma e da marginalização. E sobretudo quando a gente quer lembrar que a ideia era tolerar, aceitar e amar o próximo. Resgatar isso é fazer um chamado à humanidade das pessoas.

RENATA – Mas é exatamente através dessa ressignificação que a Jo é brilhante. Não se trata apenas da história que todos nós dizemos que conhecemos. Não é apenas mais uma peça sobre Jesus Cristo. Jo nos coloca no hoje, nos tempos atuais. Dando protagonismo para uma das populações mais estigmatizadas e marginalizadas, colocando no foco as travestis, mulheres e homens trans. Somos expulsas de casa, somos expulsas da sociedade, não somos aceitas dentro da igreja, temos direitos básicos negados. Somos diariamente assassinadas, espancadas e agredidas, sempre de forma muito violenta. Algumas de nós são espancadas em “praça pública” em plena luz do dia, aos olhos de todos e ninguém faz nada. Hoje alguns apenas filmam. Isso não faz você recordar algo?

CARDA – E isso seria “atentar a moral cristã”?  

NATALIA – Os que falam em “atentar a moral cristã” são em geral intolerantes e não raramente preconceituosos e hipócritas. Acho que eles estão assistindo outro canal. Jesus simpatizou com todos os excluídos, incluindo prostitutas, leprosos, samaritanos, mulheres, adúlteras, até com um agiota. Ele só não simpatizou com os hipócritas, com os fariseus fazedores de leis, eles mesmos sem moral, com aqueles que realizam rituais vazios. Com aqueles “que condenam os outros e se consideram bons”. A clássica pergunta: O que Jesus faria?, se olhada com honestidade, ela sim é um norte moral. Em qualquer situação, provavelmente Jesus daria a mão e perdoaria.

CARDA – Se vocês pudessem se definir ideologicamente (e no sentido da religião), como se definiriam? A montagem tem dessa militância?

NATALIA – A gente costuma dizer que é uma peça transfeminista que faz um apelo à tolerância e ao amor. A montagem acaba tendo um sentido político grande, porque estamos falando de uma minoria muito estigmatizada e que sofre uma violência terrível. A transfobia é um problema social seríssimo que causa morte, sofrimento e exclusão. E o Brasil é o triste campeão mundial em assassinatos de pessoas trans. Diariamente lemos notícias terríveis falando de pessoas torturadas, espancadas, assassinadas e absolutamente abandonadas pelo poder público. Portanto é impossível desligar a arte de uma realidade muito concreta e muito dura que está aí. Nós estamos fazendo teatro, buscando a expressão, o impacto estético, mas estamos também fazendo isso porque queremos ver essa realidade mudar.

CARDA – Vocês se manifestaram de alguma forma em relação à agressão contra a atriz Viviany Beleboni, também trans, que se fantasiou de Jesus na parada LGBT de 2015?

NATALIA – Na época ainda estávamos na fase inicial do projeto. Acho que ainda não tínhamos encontrado a atriz, Renata Carvalho. Mas pra mim foi muito chocante ver essa imagem e perceber que a analogia já estava lá fora, sendo representada. Os ataques que ela sofreu foram horríveis, e feitos em nome de Jesus. Esse fato por um lado abre um precedente, nos mostra o quanto devemos nos proteger, e proteger a nossa atriz da violência gerada pelo fundamentalismo, mas também nos mostra o quanto o que estamos fazendo é atual e importante.

RENATA – Me manifestei como travesti e militante. Na época não sabia que iria interpretar Jesus. Acho incoerente essa manifestação de ódio contra a Viviany. Não vi a mesma fúria e ódio contra todos os outros que ressignificaram a crucificação, como Neymar, Madonna, Bezerra da Silva. Também não vi por esses dias ninguém se manifestando contra o concurso de miss bumbum 2016 que reproduz a “Santa Ceia” com mulheres de biquíni, valorizando o título do concurso. Não ouvi manifestações, criticas, ameaças de violência e assassinato para essas mulheres. Por que será?

CARDA – Na opinião de vocês, em tempos de ódio fora do armário e nas instâncias do poder no Brasil, alguém, reconhecendo-se pecador/a, continuaria a “atirar a primeira pedra”?

NATALIA – O intolerante carrega dentro de si tanto medo, tanta repressão. E ele muitas vezes nem se reconhece como pecador, nem passa por aí. É uma grande cegueira. Atira-se pedras (reais e simbólicas) sem a menor reflexão. O ódio que vemos na rua não tem elaboração, é violência em estado bruto, e infelizmente validada por discursos religiosos. Essa é uma das grandes motivações da peça.

CARDA – Como Deus e o diabo são representados na peça? E Maria e Maria Madalena?

NATALIA – Deus é Ela, a mamãe. A alma caridosa que nos guiou. Aquela que viu a escuridão e disse: Faça-se a luz. Maria Madalena é “aquela que pintou as unhas dos meus pés e deu-me delicioso perfume”. Ela e Maria fazem parte do grupo de amigas, do encontro de iguais que inclui Mateus, João, Filipe, Suzana, e a plateia toda.Todas com o mesmo desejo de mudar o mundo. Por que dizem que éramos apenas doze? Às vezes éramos menos. Quase sempre mais. O diabo não foi convidado para esta montagem.

 CARDA – Por fim, como a leitura de O evangelho segundo Jesus, rainha do céu pode empoderar mulheres (trans e/ou cis) a partir de uma obra considerada tão delicada e até misógina?

NATALIA – A bíblia é uma obra muito difícil de entender, muito complexa. Mediada por inúmeras traduções, interpretações e por 2000 e tantos anos de mal entendidos. Nós mesmas estamos engatinhando neste estudo. Mesmo falar na bíblia traz a pergunta, de quais evangelhos estamos falando? Partimos da tese de que haveria uma mensagem que em sua essência não é misógina, mas as suas interpretações são. “Pensem poeticamente”, diz a Rainha Jesus. Há uma leitura rasa, parcial e tendenciosa dos evangelhos que serve para justificar e orientar práticas violentas. Da maneira que Jo Clifford leu essa obra, ela faz o oposto, ela lembra que acima de qualquer diferença está a humanidade. E, pra não desistir, a gente quer acreditar que ela está lá em todos nós, como uma luz, e pode ser acesa até pela arte, quem sabe? Não custa tentar.

RENATA – Resistiremos.

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Sobre o autor

Thaís Cavalcanti

Jornalista, formada em Comunicação Social/Jornalismo pela UFPE. Foi repórter setorista de cultura no portal FolhaPE e repórter estagiária no caderno de cultura do mesmo jornal.