O eterno fim do mundo de Francis Ford Coppola

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Por Fillipe Vilar

Em um São Luiz lotado, uma sessão inesquecível e atordoante

logo-2016Tinha prometido para mim mesmo não escrever sobre nenhum clássico na cobertura do IX Janela Internacional de Cinema do Recife. Porém não cumpro minha palavra. Para promessas pessoais, me dou ao luxo de não ter palavra. Para mim, minha palavra vale tanto quanto o senso de perigo do Tenente Kilgore querendo surfar entre as bombas dos morteiros. Ou tanto quanto o medo da morte do Coronel Kurtz, no coração das trevas do Camboja. Tanto quanto a solidez mental dos soldados defendendo a ponte de madeira, sem comandante nenhum, numa releitura do mito de Sísifo.

Apocalypse Now é um filme batido, já tão discutido, analisado. Virado do avesso. Expandido. Relançado com 30 minutos, 50 minutos a mais, ou equivalentes. Já foi objeto de um excelente documentário: Francis Ford Coppola – O Apocalipse de Um Cineasta. De fato, esta obra-prima, cheia de problemas de produção, foi o ocaso de Coppola, que nunca mais fez outro filme da mesma dimensão. No entanto, quem se importa? O diretor fez uma década de 1970 absolutamente perfeita, com quatro clássicos absolutos do cinema mundial: as duas primeiras partes de O Poderoso Chefão, o maravilhoso A Conversação e este filme de guerra insano.

Coppola já falou que o filme dele não era sobre o Vietnã, mas que era o próprio Vietnã. Ver este road movie numa sala de cinema é uma experiência, num primeiro momento, ensurdecedora. É interessante como o caos sonoro gradativamente vai dando lugar ao caos narrativo. São apresentados, em cada ato, uma parte mais profunda da desgraça de um conflito armado: a loucura causada pela guerra, a traição, a crueldade extrema em troca do prazer mundano mais fútil, a confusão generalizada e, finalmente, a fé cega.

No barco que acompanhamos, rio acima, o filme todo, estão representadas várias camadas de envolvimento numa guerra já completamente inútil. Medo, obstinação e torpor delirante compõem, de formas distintas, todos os principais personagens. O capitão Willard, traumatizado por suas missões homicidas; as juventudes perdidas de Chief, Lance e Clean. Chief Phillips e seu amedrontado senso ético.

Apocalypse Now é mais que um filme sobre a crueldade de um conflito armado. É sobre a indiferença diante do horror, a única amizade possível num ambiente de degradação total. É sobre o que Hannah Arendt chamou de “banalidade do mal”, mas não só isso. É onde mais nada é importante, mais nada choca ou causa temor: a banalidade total. O fim do mundo, desde muito tempo, é aqui, neste instante.

É difícil não sair de uma sessão como essa completamente atordoado. Meio tonto. Uma espécie de bad trip, sem usar nada. Que bonito foi estar no histórico Cinema São Luiz, lotado, para ver uma obra como Apocalypse Now. Muita gente que estava presente viu o filme pela primeira vez e, creio eu, nunca mais vai esquecer a experiência. Problemas, só na legendagem. É um filme com uma narração longa, e muitas vezes as legendas do São Luiz ficaram maiores que o espaço destinado para elas, abaixo da tela. Ainda, as legendas embutidas na projeção, em espanhol. Mas nada que tirasse o prazer da sessão e do filme em si. Grande encerramento para a noite de sexta-feira. Falando em Coppola, seria ótimo poder conferir A Conversação na tela grande. Fica a sugestão para as próximas edições.

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Sobre o autor

Fillipe Vilar

Fillipe Vilar é jornalista. É podcaster no Máquina Mistério (maquinamisterio.wordpress.com) e cineclubista no CineMáquina (facebook.com/cineclubecinemaquina), na Faculdade Boa Viagem. Colaborador da Revista Cardamomo, também escreve sobre cinema para o blog Cinegorfo e para o site Cineplayers.