O crepúsculo da diva: os gays, o feminino e a arte

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Por Reginaldo Santos

Sou constituído por mulheres. Fui criado pela minha mãe e pela bisa, rodeado por duas irmãs mais novas. Daí por diante as mulheres foram paixões platônicas, cantoras prediletas, melhores amigas, não raro, submissão cega e idolatria. Passei muito tempo me debatendo sobre o porquê de eu estabelecer essa relação com as mulheres e tentando relativizar a explicação do édipo mal resolvido, transformado já em lugar-comum. Há alguns anos li um livro até certo ponto iluminador. Nas Reflexões sobre a questão gay, Didier Eribon reflete sobre a constituição do sujeito homossexual e defende que uma das bases da subjetivação gay encontra-se na figura da “diva”. Este é o funcionamento da diva: o homossexual projeta o que lhe é mais interdito, mais opressivamente circunscrito pelo medo e pela vergonha, na figura do poder e do glamour do ídolo feminino. O homossexual vive a experiência da feminilidade na fantasia de ser sua diva, de se comportar e se vestir como ela, de amar seus amores.

Personagem Molina em O Beijo da Mulher Aranha, de Hector Babenco (Divulgação)

Personagem Molina em O Beijo da Mulher Aranha, de Hector Babenco (Divulgação)

Lembremos O beijo da mulher-aranha (1985), filme de Hector Babenco, por exemplo. O personagem Molina (William Hurt), homossexual – “pederasta” como se diria à época da ditadura – divide a cela de uma prisão com Valentin (Raul Julia), um preso político, envolvido na causa revolucionária. Na primeira cena, a câmera em travelling mostra a precariedade do espaço, enquanto, ao fundo, a voz do personagem Molina narra “um filme” para seu companheiro deitado na escuridão. Vestido num roupão colorido, sem parar de falar, ele enrola uma toalha na cabeça abaixada e depois a joga para trás, teatralizando o gesto da heroína de sua narrativa. As duas personagens femininas criadas por Molina ao longo dos filmes dentro do filme – a primeira, Leni Lamaison, a Mulher-aranha, a segunda – são, a um só tempo, heroínas românticas e femmes fatales, presas de suas tramas e teias, seja na França invadida pelos nazistas ou numa ilha tropical. São fantasiadas numa gestualidade, por vezes, melodramática e materializadas tal qual no corpo de Molina na tentativa de reproduzir uma elegância afetada, um erotismo ambíguo, uma sofisticação que beira o kitsch.

Gays de ontem e de hoje vivem a idolatria de ícones clássicos do cinema como Brigitte Bardot, Audrey Hepburn, Sara Montiel, mas também de divas contemporâneas como Madona, Beyoncé, Lady Gaga, etc. Essa idolatria parece sempre resvalar para o corpo homossexual, que ultrapassa os limites da masculinidade – limites que podem ser biológicos, mas são sobretudo simbólicos – e se reinventa no trejeito, na coreografia sensual, no “carão” das divas, conforme a gíria que circula nos nossos dias. Podemos pensar, por outro lado, que a diva pode resvalar nas próprias mulheres que nos rodeiam: nas amigas mais empoderadas, nas mães fálicas, nas irmãs às vezes subversivas e libertárias. Recordemos que, ao lado das imagens das divas do cinema, Molina trazia dois retratos de sua mãe. Com esta, inferimos, o filho aprendeu a costurar e o viver entre panos coloridos. Assim, parece difícil fugir a Freud. Porém, para além do complexo de Édipo, gostaria de dar destaque à complexidade da experiência da diva, sobretudo, quando ela se insinua mais fortemente nas figuras femininas do cotidiano dos homossexuais. Insisto que a experiência da diva me parece bem representativa do que Michel de Certeau, n’A invenção do cotidiano, denomina de “astúcia do mais fraco”, ou seja, o sujeito oprimido, seja homossexual, pobre, negro ou mulher, constrói táticas, geralmente inconscientes, para sobreviver à opressão. A astúcia funciona, portanto, no interior da opressão. A astúcia não implode radicalmente a relação opressora, ela joga com a opressão e não está isenta de ela própria, aqui e ali, tornar-se opressora ou, nas palavras de Deleuze e Guattari, ser “o desejo submisso que pode gozar apenas de sua própria submissão”.

Voltemos à diva para discutir sobre isso. Na nossa época, a idolatria pelos ícones pop contemporâneos oferece a alguns de nós pontos de apoio, palavras constitutivas, padrões de comportamento no que diz respeito a certo estilo de vida, etc. Alguns de nós desejam, obsessivamente às vezes, devassar a vida da diva, esquadrinhá-la de modo que, ao final, nos reste muito pouco a saber. Todavia, parece que, quanto mais sabemos sobre nossa diva, mais a distância se afirma como construtora dessa relação e, por conseguinte, o simbólico se impõe como uma experiência lacunar do sujeito consigo mesmo, seja ele gay ou não. Desse modo, ainda que essa experiência lacunar seja repleta de inquietude e gozos de segunda mão, se vivida de certo modo (a que eu não gostaria de chamar “saudável”), surge também na condição de produtora de subjetividades, na brecha que a figura da diva distante deixa em nossa experiência emergem múltiplas possibilidades de sentido e de estilos de estar no mundo na condição homossexual. A distância da diva deve ser proporcional à distância a que o sujeito se impõe a si mesmo, para ver-se na possibilidade, na iminência de ser. Foi imprescindível a Molina romper com sua fantasia, abandonar suas divas, para que fosse capaz de um sacrifício tão grande quanto o que fabulava nas suas narrativas fílmicas.

Penso, por outro lado, que a proximidade de nossas divas do cotidiano – mães, irmãs, amigas – em algumas situações, dá-nos a ilusão de que a lacuna, a brecha é bem menor, porque experienciamos essas mulheres no que há de mais comum e material. Somos os melhores amigos delas, não abandonamos as barras de suas saias – ou calças, claro –, dormimos e acordamos com elas. Assim, muitas vezes entregamos nossos corpos a elas, projetamo-nos doentiamente nas suas conquistas, principalmente no que diz respeito ao amor, porque o jogo do amor foi, ao longo da história, negado aos homossexuais ou, para dizer o mínimo, posto na marginalidade do sexo casual. Dos sodomitas na Inquisição às barbies da disco music, todos nós condenados ao degredo ou à clandestinidade afetiva.

Para ilustrar, poderia citar certa tendência do cinema hollywoodiano, principalmente comédias românticas, em que a heroína heterossexual quase sempre tem um melhor amigo gay assumido ou em vias de sair do armário. Perceba-se que o personagem do melhor amigo gay vive a vida da melhor amiga, participa ativamente de suas intrigas, vive as experiências da mocinha, para, só no final, ser recompensado. A recompensa, por vezes, resume-se a ver a amiga ser feliz para sempre com seu par perfeito, ou seja, gozar o gozo alheio, talvez por sentir, mesmo inconscientemente, que tal experiência, de saída, é-lhe interditada. Pois bem, na brecha residual da relação que estabelecemos com nossas divas da vida comum, insinua-se, intermitente, a miragem do gozo alheio e a grande angústia de usar uma máscara que não nos cabe. Em lugar da multiplicidade de sentidos e de estilos de vida, impõe-se, muitas vezes, o medo que emudece e imobiliza a experiência do sujeito consigo mesmo. Depois de alguns anos de terapia e algumas leituras, acredito que foi isso o que ocorreu comigo. Por isso, fiquei, durante um tempo, não diria misógino, mas resistente às mulheres, com medo de repetir o jogo neurótico da sujeição às divas do cotidiano.

Entretanto, pensando e lendo mais um pouco, descobri Bruce Fink. Em O sujeito lacaniano: entre a linguagem e o gozo, ele afirma, na trilha de Lacan, que a mulher é um significante que, de algum modo, subverte o significante, uma vez que não possui falo e, portanto, falta-lhe aquilo que estrutura o real em símbolo. A mulher parece margear o real com mais facilidade e, por isso, ir além da linguagem. Por conseguir ir além da linguagem, a mulher está na palavra, mas não se sujeita irrestritamente à palavra, vive no discurso, mas não se submete totalmente à sua ordem. A linguagem pode ser o seu domínio, contanto que se suspenda a univocidade do sentido. Pensemos em personagens como Ema Bovary, Moly Bloom, Virgínia, Capitu, etc., donas de toda uma astúcia necessária à sobrevivência na opressão. Por isso, a mulher parece ser mais livre e mais criativa que o homem. Mais ou menos na mesma direção, Joel Birman, em Por uma estilística da existência, defende que, se quisermos abandonar o masoquismo – que é justamente essa entrega do corpo para uso e gozo de outrem – devemos viver na feminilidade, ou seja, construir um estilo de vida que ultrapasse a dicotomia entre gêneros e seja atravessado por certa sensibilidade sobretudo ligada às artes, que fuja ao falo que nos imobiliza na neurose.

Depois desses insights psicanalíticos e de uma terapeuta feminista, tenho a cada dia me reconciliado com as mulheres. É bom lembrar que somos aprisionados por vontade própria, ainda que a vontade não seja consciente. Assim, quantas astúcias deixamos de aprender com a diva, porque priorizamos seu gozo? Na ignorância de que essa prioridade talvez nunca tenha nos sido solicitada. Quanto poder teríamos conquistado se pulássemos para fora da fantasia que nos amarra a essas mulheres e as encarássemos como seres faltantes? Seres faltantes em cujo vazio emerge a possibilidade de se construir um mundo todo particular? Um mundo fora do falo. Um mundo em que os muros opressores das categorias podem cair por terra. Talvez consigamos construir um estilo de vida sem a experiência da diva, seja ela um ícone pop ou nossa melhor amiga, mas não conseguiremos dar o salto para a feminilidade sem que nos entreguemos à experiência do indomável que há nas mulheres e na arte.

Sônia Braga em O Beijo da Mulher Aranha, de Hector Babenco (Divulgação)

Sônia Braga em O Beijo da Mulher Aranha, de Hector Babenco (Divulgação)

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Sobre o autor

Reginaldo Santos

36 anos, é graduado em Letras pela UFPE e, atualmente, cursa o doutorado também em Letras (UFPB). Despreza a dicotomia entre Linguística e Teoria da Literatura e, por isso, também não sabe se é crítico literário, historiador da literatura, filósofo da linguagem, etc. Prefere, então, dizer que é professor de Língua Portuguesa da rede estadual de ensino de PE e se preocupa com os discursos – essa etiqueta movediça – que circulam em nossa sociedade.

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