Justiça com as próprias mãos

0

[Este texto foi originalmente publicado no Facebook em 14 de Fevereiro de 2014]

Por Gudeco

Hoje contive minha vontade de fazer justiça com as próprias mãos, mas foi de um jeito bem bundão mesmo. Tudo começou quando a fivela do meu único cinto arrebentou no meio da rua. Ficou impossível dar dois passos sem que todos os pedestres em volta pudessem contemplar a estampa de pinguins da minha cueca. Para piorar, o botão central da calça estava arrebentado e, sem o cinto, o zíper abria incessantemente.Fui até as Lojas Americanas, segurando a calça pela dobra central, em busca de um cinto que não fosse de couro (sou vegetariano). Não encontrei, mas vi lindos cabides de madeira que eram vendidos em grupos de 3 sob o preço promocional de 5 Reais. Acabei comprando. Ao sair da loja, encontrei com uma figurante recorrente da minha vida – uma garota que sempre está na Praça São Salvador. Ela me olhou e lá estava eu: segurando a dobra central da calça como se estivesse ajeitando meu pênis. O fato de eu não ter dormido nada e estar com o cabelo indecentemente oleoso não ajudou nem um pouco também e acabei recebendo dela o olhar de desprezo mais expressivo que já recebi em toda minha vida. Nenhuma loja em Laranjeiras vendia cintos que não fossem de couro, mas eu não podia desistir. Logo eu, que nunca saio de casa, tenho dois lugares para ir hoje à noite e isso seria simplesmente inviável nessa situação. Decidi andar até o Rio Sul, por que não? Tem tantas lojas lá, uma delas teria um cinto que não fosse de couro. Fui pela Pinheiro Machado e eventualmente cheguei naquele ponto da praia em que há o túnel famoso pelos assaltos. Pensei em dar a volta, mas havia uma jovem totalmente despreocupada no túnel, parecia um dia tranquilo para atravessá-lo. Dei dois passos a frente e surgiram dois rapazes que pareciam ter saído de uma micareta. Não costumo julgar ninguém pelas roupas e eles até tinham cara de estudantes da UNIRIO, mas cores vibrantes são sinais de perigo na natureza, logo parecia razoável que eu me sentisse acanhado em tal situação. Os rapazes de abadá me olharam de forma bem estranha e seguiram em frente. Naquele momento, tive a consciência de que fui um idiota preconceituoso por temer qualquer atitude violenta de pessoas tão ternas e afáveis. Até que os vi puxar a bolsa da jovem que estava na frente – a que demonstrou, segundos antes, que eu devia deixar de bobagem e adentrar aquele buraco escuro cheio de monóxido de carbono. Os assaltantes então correram em minha direção, segurando a bolsa. Imaginei que agora talvez fossem tentar me assaltar, mas isso sinceramente não me incomodava muito. Eu estava com zero Reais na carteira e sem celular, pretendia pagar pelo cinto aumentando minha dívida do cartão de crédito. Foi nesse momento, contudo, que me senti tentado a impedí-los. A questão é que eu tinha 3 cabides de madeira em mãos, sabia que seria só gritar para eles largarem a bolsa que pouparia a jovem de inúmeras dores de cabeça. Caso tentassem me atacar, também tinha certeza de que teria muita vantagem com aqueles cabides. Madeira machuca. Sei disso porque já quebrei alguns dedos do pé com topadas em móveis de madeira. Por outro lado, me sentia completamente indefeso por ter que segurar a dobra central da minha calça. Se eles vissem a tal estampa de pinguins, eu tava fodido. Daí meu lado bundão começou a dizer que aquilo seria um risco desnecessário e que eu não devia entrar nessa de tentar fazer justiça com as próprias mãos, ainda mais nesse momento. Os caras passaram por mim, não fiz nada e a mulher me olhou incrédula. Enquanto seguia meu rumo, senti que o olhar de desprezo dela era ainda maior do que o que recebi mais cedo da figurante que coabita Laranjeiras, ou seja, um novo recorde na minha vida. Senti também que devia uma explicação, mas não consegui conjeturar nada, então disse: “pensei em fazer algo, mas minha calça está caindo, me senti vulnerável”. Ela obviamente não respondeu. Provavelmente foi a coisa mais estúpida que já ouviu. Hoje foi um dia de superar limites. Cheguei ao Rio Sul, não encontrei nenhum cinto que não fosse de couro e voltei para casa de metrô, pelo caminho que não passa pelo túnel do assalto.

Compartilhar:

Sobre o autor

Gudeco Sobrenome

Gudeco foi incluído na equipe de redatores por um erro burocrático e alguns dos textos de seu facebook foram automaticamente transferidos para o banco de dados da revista. Até que todos os formulários de exclusão sejam preenchidos e notarizados, contribuirá também com outros tipos de conteúdo.