Matheus Nachtergaele e o Conscerto do Desejo

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Por Clarissa Macau

A abertura da 22ª edição do Janeiro de Grandes Espetáculos trouxe ao Recife, durante os dias 8 e 9 de janeiro, a nova peça de um ator conhecido da grande mídia pelo carisma e talento empregados no cinema, no teatro e na TV: Matheus Nachtergaele. O solo O Processo do Conscerto do Desejo lotou o tradicional teatro Santa Isabel, no centro da cidade. A Revista Cardamomo conversou com o paulista que descreveu a obra como a presença de um ator “que diz com muita simplicidade as palavras de sua mãe”. Mãe que morreu quando Matheus ainda era um bebê de três meses. Maria Cecília Nachtergaele cometeu o suicídio com apenas 22 anos de idade deixando belos poemas que seu filho incorporou sob o ambiente do teatro – o lugar, segundo ele mesmo, ideal para a comunhão das relações humanas.  “O bonito do teatro é o profano assim como o bonito da missa é o dogma”, diz. Para ele a apresentação é tanto o reparo da alma, um conserto, quanto uma a partitura musical de um concerto que homenageia Maria Cecília. 

As declamações são acompanhadas  de canções – como Menino desce daí, de Paulinho Nogueira – e partituras levadas ao palco através da sua voz, do violão de Luã Belik e do violino de Henrique Rohrmann.  Neste nosso registro, Matheus fala sobre o enredo dos poemas que recita, a convivência com a mãe através das palavras, reflete sobre as perdas, conta sobre referências, a afinidade com o teatro, o amor pela escrita e pela língua portuguesa.

A IMAGEM DO SER PERDIDO

Minha mãe Maria Cecília Nachtergaele era uma poetisa.  Ela morreu muito cedo, eu era um neném de colo. Aos 16 anos recebi uma pasta com os poemas da minha mãe. Eu ainda não era ator, nem pensava em ser ator. Mas gostava muito de ler e pude entender um pouco da subjetividade da minha mãe. Todo mundo que perde uma mãe ou um pai passa um pouco a vida tentando construir essa imagem. Contei com as pessoas que conheceram essa pessoa, juntei com fotos e fatos da vida e fui criando uma imagem desse ser perdido. Eu transformei esse texto, desde jovem, num tipo de dramaturgia pessoal, nos textos essenciais do meu pensamento e da minha filosofia. Na peça canto as músicas que mamãe gostava. Mamãe tocava muito bem violão e conheceu meu pai na Usp. Ele era um dos primeiro integrantes da Traditional jazz band e mamãe gostava de frequentar os ensaios. A música tem a ver com a nossa história, por isso sou acompanhado pelo Luã Belik e o Henrique Rohmer na peça. Tocamos clássicos da música mundial e canções que a gente compôs para ela.

O PROCESSO

A peça mudou muito desde a primeira vez que me apresentei. Em julho de 2015 do ano passado, o Festival de Ouro Preto e Mariana, um festival como o Janeiro de Grandes Espetáculos – importante e antigo – me chamou e eu não tinha nada para apresentar naquela época. Decidi tirar da pasta os poemas de mamãe e chamei o Luã para tocar violão. Eu vestia uma camisa bonita, uma gravata, o Luã vestia terno na frente de uma plateia grande. Eu ordenei os poemas mais por tema e tom do que procurando uma dramaturgia. E como as pessoas ficaram muito tocadas eu decidi fazer uma peça. Eu percebi que saí da leitura muito muito feliz, eu me senti como um arauto da mamãe. Então, tentei criar uma partitura que deixe a pessoa com um sorriso no rosto, mas ao mesmo tempo dando espaço para que reflita sobre suas coisas íntimas, pessoais, sobre as pessoas perdidas, os sonhos perdidos, sobre as coisas conquistadas, porque essa peça é uma conquista. Às vezes isso pode parecer triste, mas isso é bonito, é alegre. É uma afirmação de vida. Nunca pensem que é uma peça de nostalgia narcísica, mas de celebração do que é possível. Ó! Mamãe morreu, mas me deixou isso aqui, os poemas, e inclusive me deixou aqui e sou um ator e vou falar as coisas dela. É lindo isso.

ESCREVER, LER E O CORPO

Eu escrevo bastante. Eu escrevi o filme A Festa da Menina Morta  junto com o Hilton Lacerda. Toda  a coluna vertebral poética e trágica do roteiro foi escrita por mim. Escrevo quase que cotidianamente. Ás vezes me chamam para escrever um artigo para um jornal ou uma revista e faço com a maior alegria. Em geral o que eu escrevo eu não mostro muito. Agora estou escrevendo um roteiro novo… Enfim sou filho de uma poetisa. Acho que isso deixou algo marcado em mim. Também há o fato de eu ser um ator. Por ofício acabamos lendo tanto texto bom, tanto autor bacana, filósofos, religiões, teoria teatral, história da arte. Não tem como ser ator se você não conhece Tchekhov, Dostoiévski, Machado de Assis, Nelson Rodrigues, Guimarães Rosa.  Talvez por isso eu tenho esse gosto pelas palavras. A minha geração teve muito amor pelo corpo, mas não da maneira hedonista. Na minha formação e na formação de todo ator trabalha-se muito a voz, o canto, o corpo o alongamento, lutas marciais, balé clássico, frevo, samba, Butoh – Uma dança japonesa que eu gosto muito… A gente acaba criando esse ser que gosta dos movimentos dos sons musicais e também da palavra dita.

TEATRO DA VERTIGEM E REFERÊNCIAS PARA O PROCESSO 

O teatro não é feito só de emoções. Existe uma partitura, um pensamento conceitual que tenta reunir tudo e tornar aquilo possível, assistível, para que possa ser sorvido. Eu venho de um teatro que é um teatro paulistano dos anos 1990 – O Teatro da Vertigem encabeçado pelo Antônio Araújo. Os três primeiros espetáculos foram Paraíso Pedido, O Livo de Jó e Apocalipse. Todos aconteciam em espaços alternativos, não podiam ser em qualquer espaço. Tinham que acontecer em espaços que deixassem memórias muito profundas. O primeiro foi uma igreja,  o segundo num hospital e o terceiro num presídio. Três lugares com uma carga de lembranças muito fortes para cada espectador. Isso juntamente com histórias bem míticas, bem conhecidas: O Paraíso Perdido é sobre a queda dos anjos, de satanás que se separa de Deus;  Jó é sobre o servo de Deus que é testado até o limite descobrindo a face terrível de Deus, que não é só a da bondade, não é só do amor e da beleza. Deus é a morte e o horror. É em Jó que Deus cria as duas faces no judaísmo e no catolicismo. E no Apocalipse vemos os finais dos tempos. São textos fortes, antigos poemas e a base era o depoimento pessoal dos atores. Quando você está atuando, você está dando os seus tons pessoais e subjetivos para aquela fala de Hamlet ou do João Grilo. São personagens universais, mas que ganham um timbre pessoal através de cada ator que os encarna. N’O Processo de Conscerto do Desejo ele chega num ponto efeverscente.  Nada é mais pessoal para mim do que os textos da minha mãe, os primeiros poemas que li  e que me formaram. Eu estou me expondo muito, ao mesmo tempo tenho que criar uma partitura que vem das experiências da Vertigem, e que, apesar desse teatro estar em locações diferentes, sempre acreditou que o teatro precisava ser feito com o mínimo possível. Eu acho que é o que acontece no processo: são duas cadeiras, uma para eu sentar, uma para o Luã sentar, um espelho e os poemas. E as canções têm uma simplicidade muito grande. Essa é a base estética da peça para que essa alegria e tristeza possam ressoar pelo espaço sem grandes interferências técnicas.

HOMEM DE CINEMA OU DE TEATRO      

Eu tenho sido na ultima década um homem de cinema. Eu fiz muitos filmes desde que o cinema brasileiro retomou. Mas quando eu voltei a fazer teatro, agora com a peça O Processo… , Eu descobri que eu sou realmente um ator de teatro. Necessariamente todo ator será um ator de teatro. A presença do ator vai sendo transformada pelo cinema e a TV, mas a base de tudo é a mesma. O ator, por mais que as tecnologias avancem, será sempre um artesão. Um artesão das palavras, do corpo, das suas memórias afetivas, das suas alegrias e tristezas. Do teatro eu aprendi o que eu venho fazendo no cinema e na TV. É nesse encontro com a plateia ao vivo que acontece o meu ofício e todo o resto é um derivado disso.

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Sobre o autor

Clarissa Macau

Idealizadora, jornalista, editora e produtora da Revista Cardamomo. Formada em comunicação pela Universidade Católica de Pernambuco.