Impressões sobre alguns curtas nacionais e internacionais do Janela

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Por Germano Rabello

Tive a oportunidade de ver alguns curtas do Janela e vou jogar uns pensamentos sobre eles.  Sei que os filmes de longa metragem terminam passando de novo, enquanto é mais difícil você ver esses curtas no cinema. O que eu vi do cinema nacional foram os cinco curtas do programa 4, “Nada será como antes”. Eles tiveram  um nível semelhante de qualidade, no sentido que não há pontos muito altos nem muito baixos. Tem um probleminha rondando todos deles, as tramas que não crescem, não se desenvolvem. Mas alguns usam isso com mais sabedoria que os outros.

Cheguei atrasado e perdi uns cinco minutos da projeção de “Pele suja minha carne”, de Bruno Ribeiro (RJ). Mas pareceu o mais problemático de todos eles. No sentido de não desenvolver absolutamente nenhuma novidade nessa historinha recorrente de adolescentes e suas descobertas sexuais. O final veio apenas coroar essa superficialidade. O questionamento da identidade veio apenas como uma frase de efeito quando poderia ser o começo de uma inquietação mais profunda.

 Quanto a “Retratos para você”, de Pedro Nishi (SP), começa de forma promissora. O diretor conseguiu forjar imagens bonitas. Mas não vamos além do cartão postal. Até quando a menina é mostrada na sua escola, a direção parece passiva demais diante de detalhes que poderiam dar mais interesse ao filme. Por exemplo, a relação com a etnia Xibe, a qual pertence. As várias citações ao presidente Mao nas letras das músicas.  O filme não diz a que veio, parece se apoiar no exotismo fofo de seus personagens chineses, sem nos mostrar de que são feitos, o que lhes dá sustança. Fiquei fascinado pelas atuações espontâneas da irmã da protagonista. Sobretudo quando na cena final, ela está nitidamente emburrada quando era pra posar para o grande retrato da família.

O muito elogiado “Nada”, de Gabriel Martins (MG), teve efeito redundante. Sim, me afeiçoei ao personagem e à interpretação de Clara Lima. A verdade que ela transmite se deve em parte por ser bem semelhante ao personagem (Clara é rapper na vida e no filme).  Vale pensar sobre nosso sistema educacional e sobre a pressa em decidir os rumos profissionais de nossos jovens. Mas é um filme de 26 minutos que não consegue avançar quase nada, fica girando em círculos, inclusive pela falta de personagens que façam contrapontos aos questionamentos. Esses contrapontos existem, ok, mas de forma previsível e desestimulante. Boa parte da louvação em torno do filme nasce simplesmente da identificação com o personagem. Gostei do final e adorei o começo com a música do Cabeça de Gelo.

Noves fora, pareceu avançar uns milímetros nessa questão do desenvolvimento o “Cachorro”, de Gustavo Vinagre (SP). É bem simples e esquemático. Mas sempre acho melhor trabalhar bem o simples que pretender lidar com temas mais sérios sem aprofundar, como é o caso dos outros curtas. De fato, transforma seu protagonista (Rodrigo Carneiro) numa caricatura, mas você já conheceu alguém assim e sabe que às vezes a caricatura já vem pronta… me diverti com as situações. Ponto interessante foi a aparição de um menino mais novo (Maurício José), aliás, um menino andrógino e mil mais vezes lúcido que o personagem principal. Esse encontro é que vale o filme.

Outro preferido da noite foi “As melhores noites de Veroni”, de Ulisses Arthur (AL). Descreve a vidinha bem mais ou menos de uma mulher suburbana. A atuação de Laís Lira é natural e na medida certa da personagem, que é mostrada em relação de desgaste conjugal, com um marido pouco comunicativo. Ela tenta fazer chapinha no cabelo da filha, que rejeita.  Não chega a ser impactante, já que trabalha com questões já desenvolvidas em outros curtas. Mas tá tudo ali, existe uma verdade e uma consciência de porque existir cada cena.

É isso, queridos. às vezes pequenos detalhes podem fazer a diferença e ampliar as nuances dos seus comportamentos.

Impressões sobre curtas internacionais do Janela (“Tudo como devia estar” e “O diabo, provavelmente”)

Até agora assisti a dois programas de curtas internacionais (vistos no Porto Mídia) e um de curtas nacionais (visto no Cinema do Museu). Esses programas do Janela são engraçados, no sentido que sempre tem uns títulos que implicam alguma temática ou coerência. E às vezes você fica se perguntando qual a conexão. Desses conjuntos de curtas, programa 1“Tudo como devia estar”, programa 2 “O diabo, provavelmente”, vem questionamentos  sobre o lugar do feminino e do masculino, e também sobre violência, alguma filosofia universalista no meio. Foram vistos nas reprises no Porto Mídia, uma ótima oportunidade pra me redimir das sessões que havia perdido nos cinemas São Luiz e Museu. A projeção é menor qualidade, isso eu já esperava mas a nota desagradável  foi um zumbido insistente no som da sala.

Imagem do filme Superbia, de Luca Tóth

Podia ser melhor:

“Poke” Mareike Engelhardt (França, 2017). Um tanto estranho, como sua personagem principal. Um conto de uma predadora sexual solta na noite. Bem feito, mas é como uma noitada que deixa apenas o vazio…

“Coelho Mau” Carlos Conceição (Portugal, 2017). O atual cinema português tem dado sinais de muita força. Apesar da beleza de algumas cenas e composições, me deixou com aquele gosto de mais do mesmo, do estranhamento gratuito.

Mais ou menos:

“Superbia” Luca Tóth (Hungria, 2016). Tem impressionantes qualidades, sobretudo o traço original e as cores maravilhosas. Dos visuais mais chapantes da sessão. E tem uma narrativa que questiona o lugar do feminino e do masculino.  Mas ela se perde. Para mim perdeu o fio tanto da compreensão racional como da contemplação onírica, não chegando a lugar algum.

 “Jovens Homens na Janela” Loukianos Moshonas (França, 2017). Num escritório, dois homens começam a tergiversar sobre mil assuntos a partir de uma imagem escaneada e suas imperfeições. Cabeção, nada acontece, muito papo, e até uns papos meio desinteressantes às vezes, mas mesmo assim alguma coisa nessa extrema simplicidade começa a nos cativar.

“Meryem” Reber Dosky (Holanda, 2017). Acompanha sua protagonista, uma das mulheres que lutam contra o estado islâmico na guerra da Síria. O mais desconcertante sobre ele é a normalidade com que essas situações terríveis são mostradas – ou seja, é exatamente o que a guerra deve se tornar, quando se começa a participar dela. Começa com um objeto no chão da cidade arruinada – é a perna de alguém? Sim, é a perna de alguém. A personagem dá entrevistas na rádio, elogiando a iniciativa das mulheres. Consola sua amiga que está chorando. Tudo é muito normal. Daqui a pouco recebem um comunicado: “Um F-16 vai bombardear a rua pra vocês”. E de repente bombas destroem completamente todo um quarteirão. Vemos a nuvem gigantesca subindo, fumaça negra. É forte demais pra ser ignorado, amoral demais pra figurar entre os meus preferidos. É estranho.

Meus preferidos:

“Deixe esse sonho arder” Rainer Kohlberger (Aus/ Ale, 2017). Uma experiência imersiva de cinema de animação. Abstrato, brinca com texturas cinza, que oscilam entre o que parece areia se mexendo, onda do mar, tv fora do ar, tudo isso e muito mais. Lindo e deixa você querendo entender como foi feito.

“Figuras Impossíveis e Outras Histórias”. Marta Pajek (Polônia, 2016). Outra animação, traço refinado, com história enigmática e surreal (o que não é enigmático e surreal nesta vida e neste Janela?). Uma mulher enfrenta pequenos grandes dilemas no seu apartamento, que começa a crescer como um labirinto que a leva a festas estranhas e a encontrar sua força e seus demônios.

“Tudo (Everything)” David O’Reilly (Eua/ Irlanda, 2017). Uma viagem cosmológica que se constrói a partir de uma fala de Alan Watts (filósofo que elegeu como temas principais  espiritualidade e zen budismo).  Esse curta de animação computadorizada 3d é na verdade parte de algo maior – um game desenvolvido pelo próprio David. O que dá pra afirmar é que não é careta não. O texto é denso e acompanhado de metáforas visuais incríveis.

 “Pepeca (Pussy)” Renata Gasiorowska (Polônia, 2017). Divertidíssima e bonita, definida em poucos traços, uso interessante do contraste entre o azul e o vermelho. Uma mulher começa a se masturbar e a experiência tem desdobramentos inesperados.

“La Bouche” Camilo Restrepo (França, 2017). tem essa coisa fortíssima de usar a música e a dança africanas como forma de contar a história. A ponto de começar parecendo mais uma apresentação musical do que um filme, mas logo surgem partes mais ficcionais. Não tinha visto nada parecido.

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Sobre o autor

Germano Rabello

Jornalista formado pela UFPE, Ilustrador, quadrinista, roteirista, escritor, músico e profissional na arte de participar de sorteios avulsos promovidos pela TV e pelas mídias sociais