Hífen: “VÍDEO-PERFORMANCES”, corpos como meio de comunicação

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 Polêmicas inevitáveis, dissensos políticos, feminismo, estupro e a relação com a cidade foram questões carregadas pelo universo da aba de VÍDEO-PERFORMANCE do universo da terceira edição da Mostra Hífen de Pesquisa-Cena (RJ) – que uniu artistas de teatro e performance em dezembro. A Revista Cardamomo traz, neste matéria especial, impressões sobre esse primeiro encontro com a Hífen

Por Clarissa Macau 

Há coisas que parecem surgir do nada. Um inbox no Facebook traz o convite meio incerto, que a princípio qualquer destino teria: “querida macau como vai? vamos fazer uma matéria-entrevista sobre a mostra hífen?”. Por trás das letras digitadas sob a tela do computador estava o perfil de Diogo Liberano. Ator, dramaturgo e encenador da companhia de teatro carioca Inominável. Grupo que eu tinha visto ao vivo apenas uma vez na vida, sentada no público da peça Vazio é o que não falta, Miranda, apresentada, aqui no Recife, durante o TREMA! Festival de 2013. A cena era uma releitura de Esperando Godot, de Beckett, e traduzia o esforço de quatro atrizes e um diretor para recompor nos palcos um clássico que se comporta com estranheza no agora, tempos em que se virar com a espera e o vazio é desespero. Ao procurar rastros desses personagens, nossos contatos surgiram mediados por algumas entrevistas via e-mail inspiradas por esse efêmero encontro.  “querida macau como vai? vamos fazer uma matéria-entrevista sobre a mostra hífen?”, li essa mensagem.

Na noite do 2 de dezembro de 2016, horas após ter terminado de escrever a prometida matéria-entrevista e aterrissado na capital carioca, eu subia no ritmo de uma pessoa ainda desorientada em território desconhecido, com os cadarços desamarrados, os sapatos quase caindo dos pés, a ladeira forrada com paralelepípedos e árvores da rua Sílvio Romero, em Santa Teresa, num Rio de Janeiro mais frio que o comum. Cheguei até o local de número 36, a Casa Quintal de Artes Cênicas, para acessar o que seria esse espaço e tempo chamado Mostra Hífen de Pesquisa-Cena.

(Fotografia: Anna Clara Machado)

O público e o quintal no dia 2 de dezembro (Fotografia: Anna Clara Carvalho/Divulgação)

Na véspera do evento, Diogo, o então diretor artístico e curador da Hífen, contou através de áudios de WhatsApp que as apresentações não seriam bem peças de teatro, mas começos e meios de pesquisas, leituras, processos performáticos, diálogos entre quem se propõe a ver e quem é visto, novos modos de produzir. Essa ambição de ser um organismo dinâmico e inacabado de criação pareceu instigante e etérea. Nada soava estável. “O que eles querem fazer, de fato?”: a pergunta atrás de definições. A única certeza é que eles estariam lá, tanto os e as Inomináveis, como artistas locais, como a performer Cristina Flores e seus jardins portáteis, ou uma atriz experiente feito a Malu Galli, estreando no universo da dramaturgia com a leitura do texto Marta, Rosa e João, ou o conhecido comediante Gregório Duviver lendo – junto à tia, atriz e diretora Bianca Byington – o livro Sete anos bons que vai virar peça. Lá também os estudantes de dança experimentando serem VÍDEO-PERFORMÁTICOS e produções inéditas pensadas em 20 dias a partir de frases escritas em cartas por dois dramaturgos, Grace Passô e Enrique Diaz. Todas: formidáveis produções-precárias.

No dia 2 de dezembro de 2016 encontrei uma cadeira para sentar na Casa Quintal e amarrar meus sapatos esperando um dos meus entrevistados, o professor e performer Felipe Ribeiro, curador da aba VÍDEO-PERFORMANCE que abria o evento na sala de exposição do lugar. Ainda tentando dar os maus traçados laços do meu tênis ouvi uma voz familiar do WhatsApp. Levantei a cabeça e o inominável Diogo, hífen em carne e osso, me deu boas vindas com aquela dicção sem falhas e calorosa de bom anfitrião  – Um rapaz barbudo, franzino e de cabelos castanhos desgrenhados pelos próprios dedos das mãos. Os simpáticos cumprimentos foram rápidos. Ele e a equipe tinham muito a fazer, aspear, unir e escutar nos próximos 17 dias e eu encontrei Felipe que contou me levando para aquela sala cheia de projeções e TV’s: “A Hífen tem um trabalho de curadoria muito generoso. É o curador como propositor e não como o autor. Vários dos processos que estão acontecendo aqui só estão ocorrendo porque a mostra entende como uma demanda, e não autora sozinha mas convida os artistas para pensarem essa necessidade juntos”.

Diogo Liberano (Fotografia: ©Anna Clara Carvalho)

Diogo Liberano fazendo as primeiras boas vindas ao público na sala das VÍDEO-PERFORMANCES e a sua sombra sobre a projeção do vídeo Horizonte de 3,5 Km, de Jaqueline Tasma  (Fotografia: ©Anna Clara Carvalho/Divulgação)

Felipe vem de uma carreira nas artes, na academia e também na curadoria artística de um festival voltado às linguagens performáticas – o Atos de Fala, um parceiro da Hífen. Esse perfil que a mostra trouxe, de ser processo aberto para os mais diversos modos-de-produção, instigou Felipe a sugerir oito vídeo-performances criadas por estudantes, no período de um ano, na primeira cadeira de videoarte lecionada por ele na faculdade de dança na Universidade Federal do Rio de Janeiro. Campo de Ação, o título do espaço reservado para esses atos, conseguiu espessar o terreno de vivência e reflexões que seria tão vivo durante todo o acontecimento da Hífen: o corpo enquanto estrutura midiática, fonte de conhecimento e afeto, enquanto o principal papel para rabiscos e palavras de conversas. Em Campo de Ação há o corpo humano que protesta por liberdade nos vídeos Sereia, Overdose, Exercícios para despoluir o amor e Sobre posição; o corpo cidade em Um Horizonte de 3,5 Km e Dirija-me; corpo sociedade em #FORA TEMER e 3 X 4; enfim, existiram corpos arte em toda aglutinação de máquinas e visões que permeiam ao mesmo tempo os rótulos e desrótulos citados acima. São presentificações de corpo que, na vida, moram umas nas outras, misturam-se, esbarram-se ou até se repelem.

No vídeo abaixo, os curadores do festival e parceiro da Hífen, Atos de Fala: Felipe Ribeiro e Cristina Becker. O AdF une diferentes formas de performance e em maio do ano passado trouxe o mote da Futuridade (inspirado em José Muñoz e Ernst Bloch). Pensar a política e a sociedade através da produção estética é um dos pontos de identidade entre o AdF e a Hífen:

O CAMINHO ENTRE A PERFORMANCE E VÍDEO-PERFORMANCE 

“Nós somos os propositores: nós somos o molde, cabe a você soprar dentro dele o sentido da nossa existência. Nós somos os propositores: nossa proposição é o diálogo. Sós, não existimos. Estamos à sua mercê. Nós somos os propositores: enterramos a obra de arte como tal e chamamos você para que o pensamento viva através de sua ação. Nós somos os propositores: não lhe propomos nem o passado nem o futuro, mas o agora.” (Lygia Clark em seu Livro-Obra, 1968)

 

Na arte contemporânea, performers e videoartistas se acostumaram a trocar entre si experiências e dilemas. Ambos fazem artes ainda consideradas marginais e “esquisitas” na aparência, muitas vezes baratas na produção e por isso mesmo podem ser vistas como anti-espetáculos.

A performance artística, por exemplo, dona de um corpo autor presente em cena, ou seja ao vivo, é conhecida por ser efêmera. Arte que, incorporada por conhecidos nomes como a sérvia Marina Abramovic e, mais jovens, os brasileiros Rodrigo Braga e Eleonora Fabião, acontece só no aqui e agora através de comportamentos e ações destoantes de uma rotina, desafiando ideologias e costumes da sociedade. Exemplos rápidos, aparentemente simples, de atos performáticos possíveis: uma pessoa aparece nua, do nada, numa rua cheia de pessoas vestidas. Ou numa galeria alguém se circunda de ferramentas como pincéis, facas, martelos permitindo que o público use os objetos como quiser na sua figura.

Durante a Hífen, as performances, orientadas pelos artistas Flávia Naves, Natássia Vello e Gunnar Borges, apareceram através de ações que investigaram o lugar do corpo feminino como algo repreendido nas ruas da cidade. Um dos atos performáticos se chamou Boywalker, no qual uma mulher levou um homem para passear engatinhando de coleira e focinheira pelo Rio de Janeiro. Segundo eles,”Uma ação reversa ao controle do corpo feminino pela hegemonia machista”.

(Fotografia: Anna Clara Machado)

A Boywalker e o Boycãozinho. Pelas ruas do Rio de Janeiro os performers Mayara Yamada e Gunnar Borges saíram protagonizando exercícios nos quais uma mulher domesticava um homem (Fotografia: Anna Clara Carvalho/Divulgação)

A pensadora americana Peggy Phelan, no texto Ontologia da Performance: representação sem reprodução, diz que a característica do desaparecimento súbito da obra (o corpo que acontece e some) sempre foi interessante para evitar assimilações das atividades performáticas com o mercado ou discursos dominantes – Apesar de muitos performers já terem sido apropriados e se apropriarem em algum grau do comércio artístico.

Já a vídeo-performance, linguagem inserida na cultura das videoartes desde os anos 1960 e de autores como os americanos Bruce Nauman, Vito Acconci, a própria Marina Abramovic e a brasileira Letícia Parente, pode se reproduzir exaustivamente, pois é uma obra gravada por uma câmera, mas está na escolha de seu criador se desaparecerá ou não. Se a performance desprograma o cotidiano social, a vídeo-performance alinhada às expressividades de seus artistas é arte capaz de desconfigurar a lógica técnica e de vida divulgada pelo dia dia midiático de programas de TV, novelas globais, filmes de Hollywood, das matérias jornalísticas, e todas as estéticas de excelência. A vídeo-performance é uma desmanteladora de sensos comuns.

Historicamente, nesses tipos de vídeo o autor também é a matéria protagonista invocando um autorretrato biográfico. Das oito obras apresentadas na Hífen a maioria não mostra o seu artista fisicamente, mas a inserção do corpo de cada um está presente entranhado nos próprios suportes audiovisuais, inspirados nos pensamentos de Peggy Phelan e na teoria do Corpo Sem Orgãos, do encenador francês Antonin Artaud e dos filósofos Deleuze e Guatarri. “Como é que é essa relação entre cópia do vídeo e efemeridade performática? A Peggy pensa a ideia de um registro audiovisual de uma performance, que ocorre ao vivo, como um momento que não dá conta da ação do performer mas nos dá uma sensação de perda dessa performance. Isso traz a construção de uma nova obra. Mas a vídeo-performance é diferente disso, porque não é um registro da atividade, e sim um outro tipo performático que tem o vídeo como um dos agentes. Tanto com a câmera quanto a partir da ação que não acontece só na presença física do corpo, mas na montagem, na edição visual também”, explica o professor Felipe Ribeiro sobre as investigações dos estudantes.

OVERDOSE 

“Você tá ouvindo uma gargalhada, né?”, perguntou uma das artistas dentro do salão decorado por paredes de pedra. Uma risada masculina, talvez um pouco macabra, de vez em quando pegava um ouvido desprevenido no salão da Casa Quintal. O som vinha de uma pequena televisão antiga, bem em baixo da escada que dava para o lugar onde aconteciam os processos cênicos da Hífen. Em baixo da escada. Na TV era possível ver, em enquadramentos muito fechados e que se repetiam, uma tela preenchida por blocos de carnes, de pele do que parecia um ou uns abdomens, umbigos peludos. Entre uma e outra imagem dedos tocavam aquela superfície. O plano fílmico era tão incisivo sobre as carnes que elas quase se chocavam com a tela emanando aquela gargalhada, susto. “O riso a princípio é tido como algo tão prazeroso, né?”, indaga Felipe a respeito daquilo. De Overdose a autora Bruna Belém intitulou essa sua vídeo-performance que se encontra numa encruzilhada de memórias do corpo e que trombam, de alguma maneira, com a ideia de estupro refletida, principalmente, no fato real da menina violentada, numa comunidade da Zona Oeste do Rio, por mais de 30 homens, em maio de 2016.

Imagens de Overdose (divulgação)

Overdose (Imagem: divulgação)

“Pensei nos lugares do poder, em limites entre abuso e permissividade, sobre questões atuais do emponderamento feminista. E nessa pesquisa faço um cruzamento entre coisas do momento e memórias muito antigas que eu despertei no meu corpo. E aí vieram as questões das cócegas quando o riso, o prazer se torna abusivo, quando ele se torna choro. O estupro nesse acontecimento recente deixou muitas pessoas revoltadas mas em mim causou um lugar de estagnação. Me senti completamente sujeitada à possibilidade de estar vivendo isso. De certa forma, eu me preparo nesse trabalho para um possível estupro”, diz Bruna. “Primeiramente, ela pensou no corpo dela sendo filmado. Mas depois entendeu que deveria ser o de outro alguém sofrendo essa performance, e que ela deveria se colocar como observadora”, relata Felipe.

Bruna performa ali enquanto olhar. “A questão da autobiografia nesses trabalhos é sempre pensar a partir do que eu sou no mundo. De como eu me coloco e que mundo é esse que eu gesto de mim, do lugar de onde olho agora. Isso também faz a gente pensar de outras maneiras nos nossos espaços de vivências como a  faculdade. Somos de dança, mas estudamos no prédio de educação física. Um prédio super duro, cinza, frio. É preciso buscar outra maneira de habitar os espaços”, conclui.

DESPOLUIR 

Também conectado com o viés feminista, outro universo na sala se arquivava, mas em segredo. A olho nu fotografias antigas de mulheres em preto e branco eram vistas numa projeção em parede sem bordas ou delimitações materiais. Numa parede vizinha se geminava a imagem fixa e fechada de bonecas matrioskas, símbolo russo da fertilidade, dando à luz para outras matrioskinhas enquanto desmontadas devagar por uma mão. Na frente de cada um desses “registros”, headphones para vestir os ouvidos e aquecer as orelhas: Exercícios para despoluir o amor 1 e 2 estavam se desmanchando em sons sobre aquelas visões. Laura Vainer, sua autora.

Sobre as imagens femininas de outras épocas, o corpo da artista mulher se fez presença sem órgãos através do barulho de sua respiração ofegante, alguns gemidos. Essa trilha de sussurros estava mixada em tensão com a voz de algum homem que discursava algo. Na imagem vizinha, sobre a performance das bonecas que se desconstruíam, havia falas sobrepostas, quase todas de mulher, que “arremessavam” ideias sobre o amor, e o desejo “que não é a falta”, disse alguém ali.

As mulheres em preto e branco (Divulgação)

Exercícios para despoluir o amor (Imagem: divulgação)

As vídeo-performances de Laura cresceram mesmo das fortes palavras – Exercícios para despoluir o amor. “Eu tenho esse hábito de criar os títulos antes. Eles sempre chegam e eu vou perseguindo”, conta. “Então, eu entrei numa de carta de amor, um tipo de escrita que tenho uma relação muito forte. Comecei a escrever compulsivamente para todas os meus amores e ao mesmo tempo não era pra ninguém, era sobre escrever até as palavras desaparecerem e se enjoarem”.

A imersão nessa despoluição amorosa expôs suas causas em vídeo. A compenetração das fotografias em preto e branco de mulheres sóbrias e caladas – que talvez consentissem o próprio silêncio, muitas vezes, quem sabe, a favor de um machismo velado ou escancarado de seus maridos, pais e irmãos -,  parecia precisar ser interrompida de alguma forma, cortada. “Essas fotos de mulheres da família sempre me comoveram. Felipe pediu pra pensar isso tudo de um modo analógico. Um dia cheguei em casa e minha mãe tava vendo TV Câmara  com essas vozes masculinas falando sobre política. Situação perfeita. Eu pedi pra ela segurar as fotos pra filmar e pegar o áudio rolando”, reconta.

Felipe lembra da trilha sonora de respiração gemida que acompanhava essa cena: “Eu sempre achei que você tava transando ouvindo TV Câmara”. Laura rebate apressada – “Eu precisava tensionar aquilo que estava acontecendo de alguma forma. É o áudio de uma masturbação”. Simultaneamente, ao lado desse acontecimento, as matrioskas continuavam nascendo e renascendo numa discussão em loop a respeito de um estado e sentimento familiar, querido, porém tão disforme, desuniforme. O amor, tema batido e íntimo aos humanos, parece acontecer em Exercícios… desejando rasgar a obediência à ordem “natural” das coisas, ganhar volume aberto para desprender-se de grades ou fôrmas. Ele quer se achar em sua intensidade de ser do tamanho que bem desejar e poder se expressar na sua existência mulher permitindo, enfim, que se pense sua definição e indefinição. É difícil falar de amor.

SEREIA E HORIZONTES

A obra Sereia, de Ana Conceição, também espreitou algo de liberdade ao trazer para tela de uma TV uma mulher presa pelas pernas, rastejando numa sala de dança. A autobiografia está inscrita no corpo físico de estatura e volume diferentes dos “queridos” pelos padrões hegemônicos gagás do balé e da dança. Mulher que não é longilínea. Corpo que não se vê enquadrado, que tenta sair do quadro da imagem. Enquanto Ana talvez se reconheça introspectivamente em Sereia como representante de um corpo humano que dança precisando ser autodigerido e sujeito a ser pensado, Um Horizonte de 3,5 Km, vídeo de Jaqueline Tasma, anima o corpo não visível de uma câmera pela imagem, tenta confundir o olho de sua autora e da filmadora num só dispositivo de percepção.

Sereia (Divulgação)

Sereia (Imagem: divulgação)

O foco é uma casa situada na frente da moradia de Jaqueline, ambas situadas num morro do Rio de Janeiro. “O que me atiça é um lugar pouco distante e proibido. Ali, o desconhecido se mostra por entre brechas, e buracos”, escreve no programa da ação. Um Horizonte… foi  projetado numa superfície maior que a destinada aos outros vídeos, um telão de lona que pelo tamanho se assemelhava a uma paisagem numa janela.

Quase nenhuma pessoa aparece em cena mas a voz da autora conversa com as imagens que vê, partezinha do esqueleto e da pele da cidade. “Nesse trabalho há um tensionamento do meu cotidiano com a arte. Eu estava lá colocando roupa no varal e regando as plantas e aí eu olho pro morro e o reencontro através de um outro olhar. Eu começo a questionar todo o entorno de onde estou”, pensa Jaqueline. São fragmentos de contemplação em 13 minutos em que a artista se permitiu estranhar e pesquisar a essência do próprio território  ensaiando descrever as pequenas rasuras do seu dia dia e de seu vizinho quase invisível. Na imagem, o dia amanhece calmo após uma noite de tiroteio. A casa que não tinha vida, além de uma luz que apagava e acendia, aos poucos respira com alguns moradores em volta. O estático performa deixando seu estado de pausa como consequência de uma observação atenta. “Quando eu coloco a câmera a performance começa. A câmera me coloca num estado de escuta que atravessa a pele”. Em Horizonte… contemplar é atividade que não parece terminar em si.

Horizonte em 3,5 Km (Divulgação)

Horizonte de 3,5 Km (Imagem: divulgação)

TRAJETOS NO CORPO DA RUA 

Fora da sala da Casa Quintal, em algum lugar, imagens de uma câmera em movimento trafegavam por outros esqueletos e músculos do Rio de Janeiro. A vídeo-performance Dirija-me, de Raquel Oliveira, com colaboração de Rômulo Galvão, não chegou até os primeiros dias da exibição porque o seu programa performático, segundo a autora, extrapolou as possibilidades de suportes de comunicação audiovisual disponíveis, como TV’s, telões ou paredes. Ela ainda estava pensando como apresentaria o resultado de suas filmagens. “Cenas descritas em áudios dirigem trajetos. Deslocar-se a partir dessas descrições, traçar percursos buscando fazer com que os áudios encontrem imagens possíveis. Os áudios dirigem trajetos. Os trajetos buscam imagens. As imagens dirigem a câmera”, escreveu no programa.

A cidade é cheia de atritos, tensões nas e sobre as ruas. Assim como Jaqueline foi atravessada pelo estado de câmera, Raquel e sua câmera foram traspassadas pelas ruas. “O programa inicial era esse dos cinco áudios de um minuto enviados pelo WhatsApp, onde pessoas descreviam objetivamente um caminho que elas quisessem na cidade. Aí eu sairia de casa, ligaria a câmera e seguiria esses comandos pela primeira vez. Mas a verdade é que eu não consegui coordenar a câmera, os áudios e o trajeto. Eu tenho só pequenos fragmentos dos momentos que eu achava que a câmera estava desligada e na verdade tava ligada. E numa segunda vez, o Rômulo, que é um colega da turma, ficou responsável pela câmera enquanto eu ficava com os áudios, aí eu poderia disparar outras coisas. A gente tava na central dos camelôs, filmou a tarde inteira mas aí chegou um momento que pegaram no braço dele e disseram ‘Olha, aqui não pode filmar não, desliga a câmera'”. Essa foi a segunda interrupção que fez com que Raquel pensasse em se apropriar dessas falhas, “Como isso fez parte do trajeto? Como não falar disso?”. Dirija-me conseguiu chegar no dia 9 de dezembro à Casa Quintal, o último da exibição, num seminário que eu não pude presenciar. Já havia voltado para Recife.               

SOBRE POSIÇÃO E 3 x 4

A vídeo-performance Sobre Posição é a que contrai, entre os trabalhos expostos, a montagem de forma mais radical. O corpo da autora Nathalia Silva se torna superfície para várias camadas de imagens, sumido entre cadeiras, paredes brancas, cabeças de vento feitas de balões. A sua figura de pessoa não se diferencia das matérias concretas não humanas, nem se diferencia dos pixels do registro digital e fílmico da câmera que a captura. Existe uma integração entre o orgânico e inorgânico. A vídeo-performance 3X4 também produziu esse trânsito intenso de experimentação de edição, na vontade de performar trechos de dia dia entre festas, sala de aula e outras memórias num “cérebro”, construídas através de som e imagem artificial.

Sobre Posição (Divulgação)

Sobre Posição (Imagem: divulgação)

3x4

3×4 (Imagem: divulgação)

#FORA TEMER

O vídeo #Fora Temer traduz uma biografia explicitamente integrada com a sociedade. O militante e estudante de dança Rogério Gonçalves trouxe um fragmento do dissenso de um coletivo, como os que existem em diversas ocupações políticas espalhadas pelo mundo, materializado numa experiência videoartística. “Ele começou a perceber que nesses movimentos estão todos ali com um propósito comum. Mas no momento em que você começa a ocupar, uma série de diferenças vêm. Como lidar e ser sincero com elas?”, questiona o professor Felipe para quem no trabalho de Rogério há uma ação que se encontra entre a intimidade e a macropolítica.

Rogério perguntou, em maio de 2016, para um índio Macú do Paraná, “Por que você pinta o rosto de vermelho?”. Ele sempre aparecia pintado de urucum durante as ocupações contra o governo Temer, que aconteciam no Ministério da Cultura da Funarte do Rio de Janeiro. O índio respondeu: “Porque estamos em guerra”. No vídeo #FORA TEMER, como uma pessoa não identificada, filmada apenas da mandíbula para baixo, esse indígena, através da edição de Rogério, vive espécie de correspondência consigo mesmo. Com a sua imagem duplicada, uma sobreposta na outra, ele fala e escuta simultaneamente as próprias opiniões políticas. O  que ele vê em suas palavras? Quem assiste pode imaginar, discordar e concordar diante do rosto que se expõe em voz e a sua duplicação concentrada, um pouco reticente.

(Divulgação)

(Divulgação)

OS EXERCÍCIOS DE HIFENIZAR 

Na sala da Casa Quintal as pessoas pousaram em cada uma dessas vídeo-performances encontrando vidas, mídia e política. Obras que possuem qualquer perturbação intrínseca virando embates entre as realidades de quem vê e do universo criado por cada um dos artistas. Na premissa, o público é essencial para as suas construções de sentidos. Vídeo-performance pode ser um ato de auto-conhecimento para os envolvidos na sua apresentação. É possível que o “espectador” não aguente, se entendie, se distancie. Ou que resista avaliando os posicionamentos em jogo, o seu e o do artista diante da vídeo-performance. Quem é você diante desses vídeos? Num programa de televisão produzido na Califórnia nos anos 1970, o Willoughby Sharp Videoviews Bruce Nauman, O videoperformer Bruce Nauman trouxe sua frase: “A consciência de si mesmo vem de uma certa quantidade de atividade e não é possível obtê-la apenas pensando em si mesmo. Você faz exercícios…”.

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Pessoas de headphones interagindo com vídeo-performances (Fotografia: Anna Clara Carvalho/Divulgação)

O professor Felipe Ribeiro relembrou o que disse aos estudantes:”É fundamental ser tomado pelo processo, é primordial ser sincero, não pressupor respostas, investigar e entender o que é que ele te traz de problema, de pensamentos. Às vezes a gente começa com um problema inicial mas o início acorda outros. E se a gente não desapega o olhar para lidar com o imprevisível, a gente não está sendo sincero e perde inúmeras discussões”. Por isso, também, as vídeo-performances do programa Campo de Ação são densamente arraigadas às vidas de seus autores mas a sua busca não é necessariamente profunda. “Como encontrar as nossas biografias?”, indaga Vainer. “Eu fico pensando que de repente por meio de um movimento intencionalmente profundo talvez eu iria entrar em lugares não tão interessantes porque o profundo, às vezes, cria pouca relação com o mundo. Então a gente se vê num processo que tem mais uma relação de superfície, com coisas que rodeiam a nossa vida. Os elementos que eu encontro com a câmera me interessam por algum motivo não sistemático. Aparecem tensões entre seu eu e o fora, algo que pede as surpresas: lidemos com isso agora”, divaga.

Campo de ação repetiu seus vídeos em loop durante uma semana da Mostra Hífen. Na mesma sala, no dia 10 de dezembro, as vídeo-performances dariam lugar a três vídeo-ensaios também comissionados pelo festival Atos de Fala. Aquele foi apenas um dos espaços hifenizados pelo evento, que inicialmente parecia falar e ser de teatro. Era, mas também era tantas outras coisas. As vídeo-performances são, talvez,  esses convites para que o artificialismo da máquina (TV, filmadoras, projetores, computadores) se admita orgânico, parte invenção e cúmplice do mundo dos humanos. E a Hífen foi sobre seres humanos repletos do que um filósofo chamado Baruch Espinoza chama de encontros alegres. Campo de Ação estava aterrissada num lugar livre para se entender, desarticular e reconstruir pensamentos e também os vazios, aqueles iguais aos sugeridos pela peça Miranda, dos Inomináveis, que vi em 2013 – arte contagiada pela vontade em transformar o universo das ideias em comunicação vibrante e afetiva pra esse nosso mundo tão concreto.

(Anna Clara Carvalho)

A entrada da Casa Quintal e o Tijolo Hífen em processo (Fotografia: Anna Clara Carvalho/Divulgação)

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Sobre o autor

Clarissa Macau

Idealizadora, jornalista, editora e produtora da Revista Cardamomo. Formada em comunicação pela Universidade Católica de Pernambuco.