Há Billie Holiday em todas as esquinas

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Por Clarissa Macau

A voz rouca conhecida por carregar todos os sentimentos do mundo em qualquer canção que cantasse. Billie Holiday (1915 – 1959), famosa cantora americana, que nasceu com o nome de Eleanora Fagan Gogh da cidade de Filadélfia, encontrou o auge e a decadência em Nova York. Cinquenta e sete anos após a sua morte, a trajetória da grande estrela do jazz conhece o corpo e o som da atriz brasileira de Sergipe Tânia Maria, no monólogo Billie Holiday, a canção. “A arte ultrapassa qualquer barreira, mesmo. A verdade é que existem muitas Billies, com as mesmas tragédias e mazelas, em cada esquina de um país feito o Brasil e em outros países também”, diz Tânia em entrevista para a Cardamomo. A obra toca em sérios assuntos universais e presentes na história de Billie como a opressão às mulheres, o racismo, o uso de drogas, além do dilema da valorização da arte e do artista.  O espetáculo, uma produção da Tampa Produções Artísticas, tem dramaturgia original de Hunald de Alencar e é dirigida por Raimundo Venâncio. A peça que estreou em Aracaju em maio desse ano, apresenta-se no Recife neste sábado (17), às 20h, e domingo (18), às 19h, no Espaço O Poste Soluções Luminosas, rua Aurora, 529.  Os ingressos custam R$15 e R$30 reais. Em outubro, a montagem segue para a Bahia.

A peça traz à tona a causa do glamour de sua voz: o peso da alma de Billie e uma criatividade artística enquanto cantora e pessoa. Apesar de alçar fama e ser conhecida como uma intérprete inigualável, Billie viveu uma série de momentos trágicos na sua vida por ser mulher, pobre e negra. Na infância, ela foi abandonada em diferentes momentos pelos pais que a tiveram ainda adolescentes, um irlandês e uma escrava afro-americana. Na juventude, foi prostituta no mesmo prostíbulo que a mãe trabalhava. Nos  casamentos, conviveu com violência doméstica e, surpreendentemente, nunca ganhou dinheiro à altura de seu talento. Pela cor, Billie era obrigada a usar o elevador de serviço e entrar nos clubes em que se apresentava pelas portas dos fundos. Mas era idolatrada por todos, levando às vitrolas e rádios do mundo um hino da luta negra contra o preconceito chamado Strange Fruit. Para acalentar todas as dores dessa aventura difícil se viciou nas drogas que a levaram para o fim de tudo.

(Fotografia: Pedro Fontes)

Tânia na pele de Billie (Fotografia: Pedro Fontes)

Em Billie Holiday, a canção, Lady Day é mostrada para além dos palcos e sob a verdade por trás dos tabloides sensacionalistas que a perseguiam. Era considerada como criminosa pelo fato de usar drogas. A sua contribuição para a sociedade foi e também transgrediu as belíssimas e fortes interpretações de Jazz:”A montagem se passa numa cama de hospital onde ela está confinada e presa. Ela foi pega muitas vezes por se drogar e essa era mais uma dessas ocasiões. Do lado de fora existe um guarda à espreita. Mas, Billie Fez historia nesse sentido. Alguns dias antes dela falecer se começou uma discussão: o usuário é ou não é um criminoso? Sete anos depois trocaram o código das leis americanas. Quem era viciado em ilícitos começou a ser considerado alguém doente. Foi uma modificação importante a partir da existência de Billie Holiday”, conta Tânia.

A Revista Cardamomo conversou com a atriz e cantora Tânia Maria que falou sobre o processo de encarnar Billie Holiday nos palcos. Confira:

REVISTA CARDAMOMO – O diretor Raimundo Venâncio costuma dizer que Billie Holiday, a Canção transcende as barreiras do Nordeste brasileiro e que não há o menor sentido à pergunta: “O que tem Billie Holiday a ver com a cultura sergipana?”. Gostaria de te perguntar como a Billie Holiday pode ser também nossa, do Nordesde, do Brasil? Qual a importância do espetáculo, no atual momento e feito por vocês?

TÂNIA MARIA – Ela dialoga totalmente com nossa realidade. A gente ainda vive os mesmos conflitos, o mesmo machismo, o preconceito contra a mulher negra e contra a mulher. Billie sofreu violência doméstica, foi explorada. A verdade é que existem muitas Billies em cada esquina do nosso país e em outros países. A arte ultrapassa qualquer barreira. Pensar ao contrário é um sentimento muito pequeno, muito reducionista. Muito insignificante. Temos ídolos brasileiros que também são ídolos lá fora, na Europa, Japão, África. Então seria um bloqueio desnecessário. A artista é de fora, é de longe. Mas, tem muita semelhança inclusive comigo. Ambas somos artistas e vindas de família pobre.

CARDA – Me conta mais dessa identificação com a personagem de Billie…

TÂNIA –  A ideia da peça foi de Hunald e ele escreveu para mim. Eu já canto há alguns anos. Hunald percebeu uma semelhança vocal e de constituição física entre eu e Billie e comentou para um amigo – “Vou escrever um texto para ela”. A gente se conheceu, nos aproximamos. Ele era muito amigo de toda a classe artística e sempre me dizia que estava escrevendo um texto surpresa. No lançamento de um livro ele me convidou e deu o texto em minhas mãos. O texto é lindo, é um espetáculo a parte. A concepção correspondeu as expectativas. Um peso muito forte. Quando eu li foi muito emocionante. Muita coisa batia comigo. Sofremos muitas decepções amorosas. Mas, o principal é a música que nos une.  Eu costumo dizer que eu canto de Herbert Viana à Noel Rosa. A música tem que ter significado, tem que ter letra. É o que provoca a empatia. Eu sempre gostei muito de ser intérprete, pegar a letra de um compositor e imprimi-la do meu jeito. Além disso, Billie tinha um timbre agudo assim como o meu, só um pouco mais grave. O primeiro disco que Billie gravou tinha uma agudez incomum. Meu timbre também não é dos mais convencionais. Uma amiga minha já me disse, “Tânia, sua voz é ame-a ou deixe-a”. Uma voz considerada estranha. Sou soprano coloratura, a Billie também era soprano. Se era coloratura eu não tenho certeza, mas acredito que sim. Com o tempo a voz da mulher fica mais grave. E com a do homem acontece o contrário. Quando eu gravei o CD do musical, eu gravei todas as músicas no mesmo timbre, menos Gloomy Sunday que foi gravada em um tom abaixo ao de Billie que tinha 20 anos quando gravou a música. Ficou alto demais pra mim. Anos atrás eu gravaria sem nenhum problema. Todas no mesmo timbre. Ela morreu aos 44 anos. Hoje, eu tenho 48, estou interpretando Billie quatro anos mais velha.

CARDA – Como foi o processo de criação do espetáculo com a direção de Raimundo Venâncio?

TÂNIA – A gente montou na minha casa uma caixa cênica. Havia uma parede só de Billie com fotos, imagens, as expressões. Para falar de Billie sem falar de sofrimento não é falar de Billie Holiday.  O próprio texto dá essas indicações expurgando essas dores. Abandonada pelo pai ainda pequena, foi internada nessas casas pra delinquentes. Ela sofreu preconceito até nesses espaços. Sofreu violência doméstica, não foi feliz nos casamentos. Eu li bastante, assisti vídeos musicais, onde prestei atenção no gestual, documentários, e filmes como O Ocaso de uma estrela (Lady Sings the Blues, 1972). Quem a interpretava era a Diana Ross. O filme não foi bem aceito pela crítica, a atuação da Diane foi até elogiada.

Eu já conhecia Billie Holliday antes dessa imersão porque ela era referência de Elis Regina, artista da qual sempre fui muito fã. A voz é como um DNA, não existe repetida. Mas estudei essas emoções que ela sentia através da voz. Não importava o que ela cantava, mas como ela cantava, o que importava eram as emoções.

CARDA – Vocês têm a ideia de levar a produção para os Estados Unidos em 2017. Como será isso?

TÂNIA – A gente tem um amigo nosso, o Tarcísio Ramos, que trabalha com produções nos Estados Unidos. Ele  veio para a estreia em maio, aqui em Aracaju. Ele é casado com uma americana e os dois assistiram. Eles se apaixonaram pela obra. A esposa dele deu um depoimento afirmando que o que a gente vê é a própria Billie Holiday. Isso teve muito valor pra gente. Como eu poderia imaginar alguém falando isso, uma pessoa do país em que a personagem nasceu. Eles se interessaram em levar a peça pra lá e junto com um show meu onde eu poderia mesclar Jazz e bossa nova. Uma das possibilidades para receber a apresentação é o Teatro Apollo [Apollo Theatre], um dos espaços que Billie costumava se apresentar em Nova York.

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Sobre o autor

Clarissa Macau

Idealizadora, jornalista, editora e produtora da Revista Cardamomo. Formada em comunicação pela Universidade Católica de Pernambuco.

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