Flamingos, porradas na cara e rebeliões

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Seis sessões do fim de semana no X Janela Internacional de Cinema do Recife

Por Fillipe Vilar 

Como provocação, a escolha de Pink Flamingos (John Waters, 1972) para encerrar o programa da sexta-feira (3) do X Janela Internacional de Cinema do Recife foi uma espécie de cutucada geral. Atirando para todos os lados, o longa de 1972 – ainda mais dentro do contexto exploitation da época – ainda tem um poder de choque que impressiona. As cenas de estupro que vez ou outra surgem na tela, uma delas com a morte de uma galinha, fizeram com que algumas pessoas saíssem da sessão. Foi a única que consegui conferir no dia.

Não foi o único problema. A projeção teve que voltar para o começo por conta da legenda que não entrou, além do fato de não terem legendado as cenas adicionais com comentários do diretor John Waters logo após o filme, fato que prejudica a experiência do expectador que pagou pelo ingresso. Ninguém é obrigado a entender a língua inglesa.

Sobre Pink Flamingos em si, pouca coisa nova a dizer. A história de Babs, Divine, a pessoa mais “sebosa” do mundo (uma ótima brincadeira da legendagem), segue assustadora, divertida e fascinante. O público ia dos gritos de euforia à comentários de ojeriza. As pessoas encolhidas nas cadeiras do São Luiz corroboraram a eficiência do trabalho, com 45 anos de idade.

Infelizmente, o estupro sempre foi usado como recurso para o choque no cinema. Uma saída “fácil” para causar revolta, ainda mais nos anos 1970, onde filmes como Aniversário Macabro (The Last House on The Left, Wes Craven, 1972), Thriller: Um Filme Cruel (Thriller: en grym film, Bo Arne Vibenius, 1974) e A Vingança de Jennifer (I Spit On You Grave, Meir Zarchi, 1978) foram às últimas consequências da exploração desta violência para impressionar o público. É um alívio ver isso ser contestado durante a exibição, ainda mais numa edição do Janela que se auto-propõe como exaltadora de heroínas do cinema.

Durante a sessão, fica sempre a dúvida sobre quem estaria vendo pela primeira vez. É difícil não reagir a Pink Flamingos, seja qual for sua impressão. A famosa cena onde Divine come cocô de cachorro foi recebida aos berros de empolgação. O momento da performance de dança com prolapso retal, no aniversário de Babs – como a vovó que ama ovos, chama Divine – também foi bem recebido por uma parte do público que se manifestava sempre que possível.

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No sábado, revi dois clássicos e vi outro pela primeira vez. Garota Negra (La noire de…, Ousmane Sembene, 1966) é sempre uma pedrada no meio da cara. O desfecho violento e triste levou às lágrimas boa parte de quem esteve presente. O primeiro longa-metragem realizado por um cineasta sub-saariano não perde a atualidade e seu poder de choque.

Apesar de Sembene ser senegalês, Garota Negra é considerado um filme francês, por se ambientar a maior parte do tempo na França. Curiosamente, as cenas em Paris são internas, no apartamento onde a protagonista é confinada e escravizada. A perseguição com a máscara, que fecha a história, é uma dos momentos mais emocionantes já filmados.

Bush Mama (Haile Gerima, 1979) foi exibido em 16mm, com um projetor instalado no meio da sala do São Luiz. Está programado na mostra L.A. Rebellion, que exibe alguns filmes importantes do movimento de cineastas da Califórnia, que impunha uma visão negra e militante no cinema dos EUA.

Bush Mama (Divulgação)

Conta a história de Dorothy, uma mulher cujo marido, veterano do Vietnã, é preso injustamente. Sem trabalho e sustentada por uma pensão, tem o recebimento desse dinheiro ameaçado pelo Estado, que é representado pelas autoridades injustas da Assistência Social e da sempre cruel Polícia.

O texto faz um panorama das reações da população negra pobre de Los Angeles diante da situação de opressão constante na qual vivem. Entre o conformismo, as reflexões sobre táticas de protesto e as discussões sobre identidade e militância, a violência acaba sendo a brutal catálise e maior tradução de tudo o que acontece na tela. Aparentemente confuso, o filme tem uma solução devastadora e que fecha todas as pontas soltas. O peso da história foi outra porrada na cara do público.

A noite fechou com Aliens – O Resgate (Aliens, James Cameron, 1986). Obra de ação com muitos momentos tensos, tem tudo que uma boa aventura da década de 1980 pede: personagens caricatos, atuações histriônicas, protagonista racional e superfodona. O público delirou com o embate entre Ripley e a Mãe Alien. A sessão não teve maiores problemas e é sempre um prazer rever esse filme, meu favorito da série, pedindo perdão a Ridley Scott.

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O domingo começou com uma sessão sem problemas. Foi ótimo poder ver na tela grande Tudo o que o céu permite (All that heaven allows, Douglas Sirk, 1955), um dos que mais gosto em tudo o que já assisti na vida. Muito ousado para a época em que foi lançado, ainda mais se tratando de um filme para o grande público. O melodrama gira em torno de uma dona de casa, viúva, que se apaixona e pretende casar com o filho do jardineiro da casa onde vive, numa pequena cidade suburbana de classe média dos Estados Unidos.

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Já a outra sessão seguinte, vinculada à L.A. Rebellion, teve tudo para ser ótima, mas alguns problemas técnicos prejudicaram a experiência. Com um atraso de cerca de 15 minutos, os três primeiros curtas The Diary of An American Nun (Julie Dash, 1977), Medeia (Ben Caldwell, 1973) e Ciclos (Zeinabu Irene Davis, 1989) passaram normalmente.

O primeiro é um relato em primeira pessoa de uma freira negra em Uganda, em martírio graças ao conflito entre sua missão com a Igreja Católica e suas raízes culturais. O segundo é a leitura de um poema de Amiri Baraka com uma vertiginosa colagem de imagens. O terceiro filme, uma metáfora sobre os ciclos femininos interligados pela iconografia de divindades das religiões de matriz africana. Os três muito eficientes e com um conteúdo político interessante.

O outro filme que estava previsto, Filha da Resistência (Haile Gerima, 1972), não pôde ser conferido, pois a fita no rolo era de outro filme, dirigido por Larry Clark (o professor da Universidade de São Francisco e participante do L.A. Rebellion, não o diretor de Ken Park e Kids). Ele contava a história de um homem que se integrava a um grupo de luta armada em Los Angeles. Sem legendas e aparentemente incompleto, tenho dúvidas se a experiência foi ruim ou boa. O ingresso pôde ser resgatado por quem se sentiu lesado. E o domingo seguiu.

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Sobre o autor

Fillipe Vilar

Fillipe Vilar é jornalista. É podcaster no Máquina Mistério (maquinamisterio.wordpress.com) e cineclubista no CineMáquina (facebook.com/cineclubecinemaquina), na Faculdade Boa Viagem. Colaborador da Revista Cardamomo, também escreve sobre cinema para o blog Cinegorfo e para o site Cineplayers.