Filmes de gênero, sexualidade e experimentais na noite do feriado no São Luiz

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Por Fillipe Vilar

Curtas de várias nacionalidades, filme argentino e releituras de Shakespeare foram as opções do público

logo-2016Quarta-feira (02), dia de finados. Mais um dia no São Luiz. Lá, a maratona começou com a exibição de Ricardo III (Richard Loncraine, 1995), mas não pude acompanhar.  Às 14h rolou o programa de curtas A desconhecida, a peguete e o porteiro, uma sessão especial, fora de competição, com produções do cinema pernambucano. Três filmes nessa leva: Represa, de Milena Times; Quarto para alugar, de Matheus Farias e Enock Carvalho; e O Porteiro do Dia, de Fábio Leal.

Um funcionário de posto de gasolina vive solitariamente em casa, enfadado pelo tédio. Sua rotina se resume a ir de casa para o serviço e vice-versa. O pouco de afeto que tem urgência de demonstrar é por alguns peixes no aquário que cultiva. Esse marasmo é abalado por uma presença dentro de sua casa, que ele se esforça para descobrir o que é. Esta é a premissa de Represa, que tem um bom trabalho na edição de som, mas o argumento não tem muito fôlego e acaba onde parece começar, de fato, a história.

Quarto para alugar é um suspense psicológico que dialoga com o sobrenatural. Uma mulher mora sozinha em um apartamento antigo no Recife. Encontra outra numa festa e acaba a trazendo para casa, que dorme lá, sob a proibição de entrar no quarto dos fundos, que está para alugar. O roteiro é bem amarrado, mas a duração do curta não ajuda a criar o clima de terror. Com essa ressalva pessoal de espectador e fã de terror, é muito bom que se esteja fazendo cinema de gênero em Pernambuco, com preocupações estéticas e estilísticas muito bem marcadas.

A paixão entre um jovem e o porteiro do seu prédio é o mote de O Porteiro do Dia. Os protagonistas Marcelo e Márcio têm um relacionamento cativante graças aos diálogos, muito bem escritos. A cena da carona que Márcio dá para Marcelo, de bicicleta, flerta com o kistch, e é um ponto central do filme. Um outro momento, de uma queima de fogos na praia, também é interessante visualmente. O curta foi muito aplaudido no final.

Por volta das 16h o programa Más Influências deu continuidade à mostra de curtas internacionais. Nesta sessão, cinco trabalhos: Cilaos, de Camilo Restrepo; At least you are here, de Kristen Swanbeck; YOLO, de Ben Russel; #Ya, de Ygor Gama e Florencia Rovlich; e Au loin, Baltimore, de Lola Quivoron. Todos os filmes lidam, de certa maneira, com cenários de conflito e luta afetiva e política.

Filmado em 16mm, o curta de Restrepo estrela a cantora Christine Salem. Intercala textos enigmáticos sobre a procura por um homem chamado La Bouche e canções sobre a vida e a morte. O filme tem um visual que remete à década de 1970 e é todo falado em um dialeto derivado da língua francesa. Cilaos é um exercício estético e audiovisual, sem uma narrativa linear. É difícil de entender para quem não conhece o contexto.

Uma ucraniana vivendo em Nova York tem saudades de casa e acompanha, aflita, as notícias da guerra em sua terra natal. At least you are here segue esta protagonistas em sua rotina: uma estrangeira carregada de estranhamento, por não pertencer ao território onde está habitando. Seu fio de esperança se dá quanto encontra na rua outro ucraniano, a única pessoa com a qual ela pode dividir seus sentimentos. A história tem um desenvolvimento irregular e o filme é pouco envolvente.

Outro curta que é complicado de entender sem conhecer o contexto é YOLO. É todo em imagens externas. Um espelho reflete o céu e algumas cenas que acontecem ao redor. Uma garota varrendo o chão da rua, um grupo de amigos brincando de embaixadinhas, uma menina balançando os cabelos. Como aproveitamento estético é interessante, mas cansativo.

#Ya brinca com o paralelismo e alterna cenas dos protestos que tomaram conta do mundo a partir de 2011 – que levaram à chamada Primavera Árabe e aos movimentos occupy – com uma história de amor sugerida entre um casal protagonista, mulher e homem. Além disso, são ilustrados textos de tweets sobre esses protestos ao redor do mundo. As projeções de sombras nas fachadas dos edifícios são cenas muito bonitas de se ver. O filme também tem uma forte ligação com o ruído, e as cenas dos protestos são sempre tensas.

Fechando o programa, o sensível Au loin, Baltimore, que conta a história de um jovem integrante de um grupo de motociclistas no subúrbio de Paris. A interação dele com o irmão pequeno diante de relações parentais se desintegrando é o fio condutor da história, com momentos de força cinematográfica muito intensos. Lola Quivoron pretende realizar um longa a partir deste curta, o que será muito bom e válido, se ocorrer.

Outra sessão de curtas, dessa vez nacionais, começou por volta das 18h. O programa Eclipses faz parte da mostra competitiva de brasileiros. Trouxe quatro filmes: Abigail, de Isabel Penoni e Valentina Homem; Quando os dias eram eternos, de Marcus Vinicius Vasconcelos; Constelações, de Maurílio Martins; e Eclipse Solar, de Rodrigo de Oliveira. Todos eles mantiveram um nível regular, sendo a melhor sessão de curtas que acompanhei até agora.

A ausência de Abigail Lopes do lugar onde habitava, uma casa com mobília antiga, empoeirada e quase em ruínas, é o grande fio condutor do filme de Isabel e Valentina. O tratamento sombrio das imagens ajuda a criar uma atmosfera de esquecimento e tensão. Abigail Jorge, que foi esposa do indigenista Francisco Meirelles e teve papel fundamental no contato com os homens brancos e índios Xavantes, tinha uma forte religiosidade, e isso tem uma presença marcante no curta.

A falta de alguém também deu a nota na animação Quando os dias eram eternos, inspirada no espetáculo de dança de Kazuo Ohno. Um filho refletindo sobre os últimos momentos de vida de sua mãe, vítima do câncer. O estilo do desenho é despojado e cheio de metáforas visuais. A técnica da rotoscopia ajuda a conferir um caráter de realidade ao traços, mesmo que despojados, com um estilo quase de rascunhos num caderno. A delicadeza do tema ajuda a conferir o clima melancólico.

Constelações é um curta envolvente sobre o medo e as perdas. Um homem dá carona a uma estrangeira e é extorquido pela polícia. Os dois personagens não entendem a língua um do outro e contam momentos melancólicos de suas vidas um para o outro, mesmo com a barreira do idioma. O filme lida com os dilemas da paternidade de forma honesta e palpável, mas derrapa no encerramento da história, um pouco mais drástico do que o necessário.

Dando fim a esse programa, Eclipse Solar tem pinceladas de horror gótico. O texto é inspirado em Fausto, de Goethe e Dr. Fausto, de Thomas Mann. O relacionamento entre uma mulher, seu filho, seu neto e a mãe desse neto atravessa a barreira dos séculos a partir de um pacto com o demônio. É o primeiro curta do diretor Rodrigo de Oliveira, e apresenta algumas escolhas de estilo que demonstram certa insegurança, como os textos mais floreados e com frases grandiloquentes.

Frase grandiosa também é a que dá nome ao longa-metragem de Teddy Williams, O Auge do Humano. A coprodução de Brasil, Argentina e Portugal foca no cotidiano de jovens de três países diferentes – Argentina, Moçambique e Filipinas -, interconectadas por elementos narrativos. O debate após a sessão levantou várias questões, desde a escolha do título a se o filme seria uma espécie de janela, tela de monitor, acompanhando lugares extremamente distantes e realidades distintas pela ambiência.

O dia encerrou com o clássico Macbeth (Roman Polanski, 1971), primeira obra do diretor depois do assassinato brutal de sua esposa, Sharon Tate, pelo grupo do assassino Charles Manson. Esta adaptação de Shakespeare é famosa pelo tom naturalista que confere à obra, contrastando o texto quase fantástico do dramaturgo inglês com imagens de brutalidade e violência pungentes.

A saída foi tranquila, dessa vez, apesar da circulação intensa da polícia, baculejos aqui e ali, e cenas de inquietação que infelizmente são banais numa capital como a pernambucana.

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Sobre o autor

Fillipe Vilar

Fillipe Vilar é jornalista. É podcaster no Máquina Mistério (maquinamisterio.wordpress.com) e cineclubista no CineMáquina (facebook.com/cineclubecinemaquina), na Faculdade Boa Viagem. Colaborador da Revista Cardamomo, também escreve sobre cinema para o blog Cinegorfo e para o site Cineplayers.