“Eu acredito na atuação dos EUA no golpe de 2016. Por que chamar isso de paranoia?”, entrevista com Fernando Weller

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Por Chico Ludermir

Às vésperas da estréia do longa metragem Em Nome da América, na mostra competitiva do CachoeiraDoc, conversamos com o diretor Fernando Weller. O filme aborda a presença norte-americana no Nordeste brasileiro durante o contexto da ditadura militar (1964-1985) e é resultado de uma combinação de uma busca em acervos de imagens do Brasil e dos Estados Unidos e entrevistas.

O longo nascimento do filme, iniciado em 2012 foi atravessado pelo emblemáticos anos de 2013 e 2016.  “Cada vez mais, ficava claro para mim que havia um debate sobre a intervenção americana no Brasil que precisava ser aprofundado para que o filme dialogasse com o Brasil em tempos de golpes”.

Em conversa com a Revista Cardamomo, Weller comenta sobre sua pesquisa, processo criativo, relação entre academia e cinema e reflete sobre o imperialismo americano do passado e do presente. “Se o império americano um dia teve interesse em comprar sedes para sindicatos rurais em cidades tão pequenas como Orobó ou Bom Jardim nos anos 1960, o que pensar então quando estamos falando de mega empresas internacionais como a Petrobrás?”, pergunta o cineasta.

O cineasta Fernando Weller (Fotografia: divulgação)

REVISTA CARDAMOMO – No “Em Nome da América” você fala sobre a relação Brasil-Estados Unidos durante o período da Ditadura Militar a partir de um grupo de voluntários que chegaram no Nordeste nas décadas de 1960-70, incentivados pelo governo Kennedy.  De onde partiu o seu desejo por essa pesquisa e como você chegou ao tema? 

FERNANDO WELLER – A ideia surgiu em 2008, mas só em 2012, quando a gente aprovou no Funcultura Pernambuco o desenvolvimento do roteiro, o filme começou a existir. Na época eu tinha reunido vários boatos sobre a presença de “hippies” americanos em cidades pequenas do Sertão e do Agreste durante a ditadura militar. Comecei a pesquisar a presença desses americanos e acabei, naturalmente, me aprofundando no contexto histórico. O Funcultura também me permitiu mergulhar em acervos nos EUA e o projeto cresceu muito.

CARDA – Antes de se tornar “Em Nome da América”, este mesmo projeto se chamava “Steven esteve aqui”, quando você partia de um “boato” de que Steven Spielberg teria se escondido no Nordeste Brasileiro para fugir da Guerra do Vietnã. Em relação a essa virada do roteiro, o que te fez abandonar o primeiro enredo, que embarcava em uma certa fantasia, e adotar uma pesquisa mais historiográfica?

WELLER – A busca pelo Steven Spielberg no Sertão era um mote narrativo que me levava a discutir o mesmo contexto histórico que sempre me interessou e que está presente no corte final. Enfim, o objetivo do filme era chegar no mesmo lugar que Em Nome da América. A virada na história que você diz aconteceu na montagem do filme e eu acho que foi reflexo de tudo que ocorreu no país de 2013 pra cá. Houve também uma virada no país e eu acho a visão que eu tinha desses processos históricos também mudou. Cada vez mais, ficava claro para mim que havia um debate sobre a intervenção americana no Brasil que precisava ser aprofundado para que o filme dialogasse com o Brasil em tempos de golpes. O dispositivo de busca se tornou então um elemento complicador na montagem, que dispersava e não contribuía para a narrativa do filme. A pesquisa e o filme como um todo cresceu e Steven não cabia mais. Ainda pretendo montar um curta-metragem com o material que filmamos na busca por Steven que é também muito interessante.

CARDA – Você é um professor de cinema e, como pesquisador e acadêmico, dedicou-se ao estudo do cinema documentário, particularmente a cinematografia norte-americana dos anos 1960. O filme, portanto, nasce naturalmente dessa sua pesquisa. De que forma academia e produção audiovisual se relacionam nesse trabalho e na sua carreira? Quais são as particularidades desse lugar híbrido e da junção dessas duas formas de pesquisar?

WELLER – Quando me perguntam a minha profissão eu me apresento sempre como um professor antes de qualquer coisa. Eu acho que o filme está marcado por esse ponto de vista, o que para muitos pode soar pouco autoral ou didatismo, mas para mim é natural. É o que venho fazendo por mais tempo na minha vida e então acho que não conseguiria ocupar outro lugar. Mas as demandas acadêmicas não são as mesmas do filme e eu tenho consciência disso. Acho que estudar documentário em uma perspectiva acadêmica me tornou consciente de certos discursos que eu entendo hoje como preconceitos formais. É perceber que existem modismos cinematográficos, discursos antigos que se reapresentam como inovações, tabus formais que aparecem e desaparecem. No fundo é a grande coisa de se estudar a história, seja de um país ou de um tipo de arte. Entender que o valor das coisas é relativo.

As ligas de Julião (Imagem: divulgação)

CARDA – O filme é baseado em uma longa pesquisa documental, histórica, com destaque para um material audiovisual garimpado no Brasil e nos Estados Unidos. Como foi esse processo de pesquisa e como você vê a relação do cinema com a construção da História?

WELLER – Eu digo que é um filme histórico porque esse termo acessa mais facilmente a imaginação das pessoas quando elas me perguntam sobre o que é o filme. Mas, para ser bem honesto, eu não saberia dizer com precisão o que é um filme histórico. Todos os filmes são históricos em certo sentido. O debate sobre os anos 1960 no Brasil é um campo para sempre aberto e o papel desse filme ou de qualquer outro filme, para mim, é o de introduzir novas camadas de leituras possíveis, novos sentidos e também novos problemas. Essas novidades muitas vezes estão guardadas em arquivos, o que é até engraçado e paradoxal. Eu fui buscar nos arquivos algo que aqui no Brasil é muito escasso, que são imagens. Infelizmente, não existem políticas de preservação de imagens no Brasil.  Eu acho que as imagens de arquivo cumprem, sobretudo, uma função estética, que é a de acessar uma visualidade do passado, as cores, as texturas, os sons. Para mim foi muito emocionante, por exemplo, encontrar imagens de João Goulart coloridas, perfeitamente preservadas e poder ver a cores uma figura histórica que só conhecia em preto e branco.

CARDA – Na própria descrição do filme, no site recém lançado, você faz um paralelo entre dois movimentos que aconteceram concomitantes por parte dos norte-americanos: a vinda de agentes secretos e de voluntários para o Brasil (não é à toa que pairam dúvidas sobre a ingenuidade desses voluntários). A partir do que você encontrou, que relações você enxerga entre esses dois perfis da intervenção americana durante o período que marcou o golpe militar de 1964?

WELLER – Veja, até onde se sabe nenhum dos voluntários foi justamente acusado de ser um espião ou informante da CIA. Ao contrário, muitos conviveram injustamente com esse estigma nos anos em que passaram no Brasil. O paralelo que faço no filme é entre a chegada dos voluntários e o estabelecimento de uma série de políticas de desenvolvimento no Nordeste que se vinculavam à chamada Aliança para o Progresso. O que eu quero fazer perceber é uma imensa contradição da política externa dos EUA naquele período e que se reproduzia das instituições até a mais fina escala que eram os indivíduos em campo. A contradição dessa política foi a de defender simultaneamente o desenvolvimento de uma região mantendo as suas estruturas mais reacionárias intactas. Ou seja, promover a uma suposta modernização sem combater o latifúndio, a exploração, a desigualdade, como se isso fosse possível. Ao mesmo tempo, o governo americano dava suporte a um regime militar que matava e torturava. As pessoas que atuaram nesse processo fizeram parte dessa contradição, apesar das possíveis boas intenções de alguns.

CARDA – Em entrevista, você chega a relatar que algumas conclusões sobre os Voluntários da Paz não são possíveis, e sugere que cada espectador fará uma leitura própria. Entendo que não existe uma verdade absoluta dos fatos, mas queria saber quais são as suas convicções a partir da sua pesquisa.

WELLER – Não gosto muito de falar em convicção, principalmente depois de me aprofundar nesses temas. Acho que todo processo histórico deve ser olhado sob uma perspectiva que confere complexidade aos acontecimentos. O que encontramos mais concretamente é uma colaboração, inclusive financeira, entre  organizações norte-americanas, setores da igreja católica e governo militar para a criação de sindicatos rurais legalizados, com a clara finalidade de combater as ligas de Julião. Há historiados aqui e nos EUA que já apontaram esses fatos. O filme oferece testemunhos e alguns documentos novos. Onde entram os Corpos da Paz nessa história? Até meados dos anos 1960, a agência mantinha um discurso purista no mundo todo, de não participação nas ações da política externa norte-americana e, principalmente, as ações da CIA. Não sabemos se isso de fato era verdade. No fim dos anos 1960, entretanto, essa orientação parece que muda no cenário que observamos. Voluntários da Paz começam a trabalhar nesses sindicatos rurais e acabam sendo instrumentalizados, digamos, pela política externa marcada pela Guerra Fria.

CARDA – Já existem diversas comprovações de o Estados Unidos foram atores essenciais na articulação e manutenção do golpe de 1964, no Brasil, e em diversos outros golpes de estado em países da América Latina, África e Oriente Médio. Como você vê a relação entre os Estados Unidos e o golpe presente do Brasil? De que forma o filme pode nos ajudar a compreender o nosso cenário atual?

WELLER – Bem, se o império americano um dia teve interesse em comprar sedes para sindicatos rurais em cidades tão pequenas como Orobó ou Bom Jardim nos anos 1960, o que pensar então quando estamos falando de mega empresas internacionais como a Petrobrás? O que o filme mostra é que existia uma atuação capilar dos EUA em países como o Brasil. Não sei se é uma novidade essa informação. O filme de Camilo Tavares, O dia que durou 21 anos, já demonstra essa atuação na época do golpe de 1964 e há uma imensa bibliografia sobre isso. É hora de começarmos a fazer filmes, livros ou teses que discutam o contexto atual. Embora não exista mais a Guerra Fria como naqueles moldes, o Estado e as instituições americanas continuam existindo e atuando hoje de maneira ainda mais sofisticada, mais tecnológica. Eu acredito sim em uma atuação de bastidor dos EUA no golpe de 2016, embora algumas pessoas mais ingênuas chamem isso de teoria da conspiração. Ora, não há na história fartos exemplos de conspirações? Por que deveríamos chamá-las de paranoia hoje?

CARDA – O diretor pernambucano Marcelo Pedroso, propõe no seu filme Por trás da linha de escudos, que também estréia no CachoeiraDoc, filmar o adversário (não inimigo, mas adversário), a partir de um deslocamento de si e busca pela complexificação do outro. Você também define seu filme dessa forma? Caso você já tenha visto filme, consegue ver similaridades e diferenças entre as posições?

WELLER – Pedroso é pra mim uma das figuras mais brilhantes do cinema brasileiro e também um grande pesquisador e acadêmico. Eu ainda não vi o filme dele. Mas eu não compartilho uma ideia da filmagem como uma situação de confronto ou adversidade. Qual a diferença entre inimigo e adversário? Apenas o grau de civilidade no embate? Acho contraditório você falar em “busca da complexificação do outro” partindo de um enquadramento que é, no fundo, moral e binário. Acho que existe certa romantização e, se me permite, um discurso que é essencialmente masculino, de combate, de competição. Não falo de Pedroso, porque a obra dele é muito mais ampla e interessante que isso, falo de um discurso cinematográfico carregado de metáforas como guerrilha, trincheira, etc. São metáforas de um universo masculino que se vincula a um culto autoral no cinema. Lembro que li certa vez Truffaut falar em “virilidade” para caracterizar os filmes da Nouvelle Vague. O filme recente de Eryk Rocha, sobre o Cinema Novo, peca por essa mesma perspectiva exclusivamente masculina do movimento brasileiro, uma espécie de confraria de autores homens. Claro que o cinema pode ser crítico e pode ser militante, mas não curto muito essa ideia de que vou sair para filmar como se fosse jogar uma partida de futebol. As lutas políticas também são feitas de empatia, de alianças, de trocas e entregas, inclusive amorosas. Existem cinemas  que também são assim, eu acredito, mas não estou necessariamente falando do meu filme.

CARDA – Quais são os próximos passos do filme? Você tem outros projetos de filme em andamento?

WELLER – Vamos exibir o filme na Mostra Première Brasil do Festival do Rio. Estamos muito felizes com essa seleção que saiu quase junto da exibição em Cachoeira. Estamos também preparando uma legenda em espanhol para enviar a festivais latinos. Além disso, há planos para a distribuição do filme em salas de cinema em 2018 e em circuitos alternativos.

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Sobre o autor

Chico Ludermir

Chico Ludermir é jornalista, escritor e artista visual. É integrante dos movimentos Coque Vive/Coque (R)existe e Ocupe Estelita. Atualmente é mestrando em sociologia pelo PPGS-UFPE e pesquisa as relações entre arte e política.