Conversando Água entrevista Pedro Wagner (Magiluth) – “Por que eu te daria essa resposta?”

0

Entrevista Germano Rabello

Texto Clarissa Macau
Pedro Wagner vê e revê as obras de seus ídolos inúmeras vezes. Quando não está no teatro atuando ou ensinando ou no cinema preparando elencos e encarnando papeis num exercício de ator que está começando a explorar, Pedro aproveita as folgas assistindo, durante o dia inteiro, filmes novos e velhos, relendo livros. A mais recente peça de teatro do Magiluth – grupo do qual faz parte – O ano em que sonhamos perigosamente (2015), incorpora – para refletir sobre as contradições das movimentações humanas em sociedade e ensaios de revoluções – referências de tudo o que Pedro e seus companheiros sentiram, viram e reviram no cotidiano nebuloso, nos autores clássicos e personagens cinematográficos.
Os filósofos Slavoj Zizek e Gilles Deleuze, o dramaturgo russo – tão relembrado por sua genialidade em retratar os momentos de intervalos da vida – Anton Pavlov Tchekhov e o cineasta grego Yorgos Lanthimos são figuras e fontes de ideias entre tantas outras estampadas no cartaz da montagem teatral, que também se faz um convite para ser vista mais de uma vez. O jogo cênico de “O Ano…” muda de um dia para o outro baseado em exercícios teatrais e de improviso. “Teatro é muito efêmero, é daquelas pessoas que estão lá no local da apresentação e depende do estado de espírito de todos que estão naquele exato momento. Ainda mais a peça d’O Ano... Na qual não reproduzimos algo que foi montado numa sala de ensaio, mas de fato criamos em cena”, diz.  O Conversando Água bateu um papo, no meio do Rio Capibaribe, com o ator e diretor Pedro que afirma “Meu trabalho não é demanda, meu trabalho é vida” e questiona o lugar do encenador no teatro contemporâneo dentre outras opiniões sobre as dinâmicas da vida e da arte. Pedro não quer dar respostas prontas a ninguém. Um papo frenético e rico. Assista abaixo!
Conversando Água – Por que eu te daria essa resposta?

Confira respostas extras:
MAIS SOBRE O ANO EM QUE SONHAMOS PERIGOSAMENTE
É o titulo de um livro de Zizek. Até parece que estamos fazendo uma adaptação do livro, mas não é. Esse filósofo pensa o lugar das contradições fazendo um apanhado de uma série de movimentações que aconteceram no ano de 2011 como a Primavera Árabe, o Occupy Wall Street mostrando como essas movimentações lidam com as contradições nas suas práticas. O grande detonador da peça  é o cineasta grego Yorgos Lanthimos. Ele usa muito do micro para falar do macro, contando sobre relações interpessoais, da familia, por exemplo, para fazer uma crítica sobre a sociedade grega. A nossa ideia era pegar o filme dele, Dente Canino, e transformá-la em cena para o palco. Mas isso não seria a gente, não seria o Magiluth. Então fizemos esse diálogo de ideias. Eu gosto de cultura pop, tanto que ela está permeada por todo nosso trabalho – Madonna é minha mãe, David Bowie é meu deus – mas ao mesmo tempo eu passei a adolescência lendo Machado de Assis, Jane Austen, Tchekhov e Madame Bovary (1857). A grande alma da peça é o Tchekhov. Um autor que já falou tudo o que temos nessa peça e que temos hoje em dia. Temos um bloco com as três peças dele, A Gaivota, O Jardim das Cerejeiras e As Três Irmãs. Tem uma hora durante a apresentação que eu digo uma definição de teatro, mas eu não digo o nome do que estou falando, porque é como se estivessemos esquecendo das coisas. Na peça a inadequação quer vir toda hora, é quase como o processo do bailarino e do atleta pra mim. É como a Nina, personage d’a Gaivota, que uma hora abre a boca para falar como é se sentir um ator: “Você não sabe o que é ter a consciência de que se está representando mal”, aquele momento em que você não sabe o que fazer com as mãos ou com a voz. Isso está em Tchekhov e no Yorgos também.
OS ATORES DO MAGILUTH
A gente é um grupo de artistas. A gente roda em várias funções. O Giordano tem um entonamento próprio para dramaturgia, por exemplo, ele tem uma maneira de escrever muito ligada à construção com o ator. Então, a gente exerce jogos teatrais nos ensaios… Ele pega e escreve algo em cima disso e depois volta para os atores e a gente modifica. É muito livre de apego. Isso acontecia também na direção com o Pedro Vilela (o diretor e ator saiu do grupo em 2015). A gente propunha certas coisas e o Vilela reorganizava tudo e mandava para nós, os atores, que redirecionávamos tudo. Independente do lugar que a gente esteja sempre é no lugar do ator. Quando eu estou na peça O Ano… atuando, eu não sou o diretor de modo algum. Eu sou o ator. A minha direção é muito mais tentando desaparecer com essa figura do diretor para liberar ao maximo o lugar de autonomia do ator. É a primeira vez que isso acontece no Magiluth. No resto era a direção do Vilela e eu dirigi O Torto. Não desmereço o diretor, não acho ruim, mas acho que para o que estávamos criando era importante questionar esse lugar, esse modelo que talvez esteja ficando engessado.
A CONSTRUÇÃO DAS CENAS
Numa das cenas que eu adoro dessa peça, o Mario Sergio (Cabral) mostra o próprio corpo como uma cidade, com lotes e trilhos de trem. Isso nasceu de um jogo que chamamos de Jogo da Checagem. Eu pedi para os meninos fazerem muitos movimentos de  ventilação e hiperventilação, dilatação do corpo  e depois tentar perceber onde havia zona de tensão, lugares quentes, quais os lugares que ardiam depois desses exercícios. Então eles precisavam mostrar algo de poético dentro dessa composição. Foi daí que ele tirou a cena que ele improvisou e colocou no texto do Tchekhov, do Jardim das Cerejeiras, que tem muito a ver com os assuntos da especulação imobiliária que debatemos hoje em dia. É isso, mostramos algo que já foi escrito há muito tempo, mas que é completamente hoje.
NATUREZA ARTIFICIAL
As caixas e os ventiladores que estão em cena n’O Ano em que sonhamos perigosamente vieram para reproduzir a natureza enquanto instrumentos altamente artificiais. Quando alguém  em cena está “sufocando” a gente clama pela natureza. É algo precário. O mínimo possível para concretizar aquela natureza desejada. São  caixas quadradas que ressoam esses sons de natureza. Também queriamos trazer com essa falta de cenário, e esses objetos a sensação de que ali estava um grupo ensaiando há muito tempo. Não se sabe desde quando.
CERVEJA OU TEATRO?
Fazer teatro no mundo é dificil. É muito dificil fazer as pessoas sairem de casa para assistir alguma coisa. Bilheteria não paga porra nenhuma. Paga a temporada, a manutenção da temporada e olhe lá. A gente tem um projeto chamado Pague Quanto Puder, no qual colocamos nossas peças de repertório e as montamos durante uma semana. As pessoas pagam o  quanto puderem para assistir. Quanto será que essas pessoas dariam? Mais que uma cerveja no bar, ou menos que uma cerveja? Ou será que essa comparação não faz sentido?  A iniciativa não é para ter projeção, mas para dialogar com a maior número de pessoas possível.
A HUMANIDADE ESTÁ DORMINDO?
A gente está fingindo que está dormindo, mas a gente está super acordado. E está sendo extremamente condenscendente. Não é bem acordar, mas é parar de mentir. A gente é de uma geração de fingidores, que lavaram as mãos. Essa geração dos fingidores viveu um período político bom. A gente estava muito mal financeiramente – toda a cena cultural – e de repente a gente conseguiu produzir as coisas. O cinema retomou, o teatro retomou de alguma forma. Hoje eu vivo de teatro! Isso fez a gente se acomodar de alguma forma, como se a gente tivesse que se calar para esta envolvido com isso. Eu gosto das gerações que estão chegando. Um período da minha vida dei aula numa escola de rede privada e em outra pública. As movimentações eram parecidas. Meninos namorando com outros meninos sem medo de ser como são; Jovens com uma identidade visual foda; A galera do grêmio questionando coisas na escola e fora dela.
ELENCOS DE CINEMA 
Eu sou alucinado com cinema. Enquanto público eu posso passar um dia de folga vendo filmes. Mas ainda não me sinto o estilo de ator de cinema, porque sou um tipo de ator muito dilatado. O teatro acolhe de tudo, não sei se o cinema acolhe. Eu fiz três filmes, mas ainda não assisti nenhum. E tenho preparado o elenco de algumas produções, como a série O Conto que vejo, dirigida pelo Hilton Lacerda, que vai passar no Canal Brasil. Eu acho que  é o lugar que mais me cabe no cinema porque eu gosto da relação entre os corpos dos atores, como eles se comportam e se constroem em cena. O Hilton tem uma abertura para trabalhar com atores de teatro, apesar da maioria dos cineastas terem uma preguiça de se relacionar com essa arte. Gosto da realidade do set, da realidade de como se faz. Enquanto ator eu percebi que você tem que ir para um set de cinema com mil intenções de interpretações de um persnagem na cabeça.  Existem coisas que você descobre no meio das diárias das filmagens. É a relação do ator com a obra do outro, do diretor do cinema. Eu não tenho controle como tenho no teatro.
NOVOS TRABALHOS 
Estou na nova peça do Felipe Hirch. O nome do trabalhoe é A Tragédia Latino-Americana. A peça é um olhar sobre a América Latina, sobre o Brasil, a partir da literatura de vários países latino-americanos. Uma obra dividida em duas partes: A Tragédia Latino-americana que estreia dia 6 de março no Mitsp e A Comédia latino-americana que estreia no segundo semestre, provalvemente no Miranda Festival. No elenco existem atores argentinos – o Javier Drolas que trabalhou no filme Medianeras – e atores brasileiros como Júlia Lemmertz, Caco Ciocler, Georgette Fadel, Danilo Grangheia, Caio Blat, Guilherme Weber e Camila Márdila – que trabalhou em Que Horas ela Volta? -. É claro que é um prazer contracenar com esse elenco e com Felipe e a Daniela Thomas.  Também estou terminando de gravar um filme com a Tatá Werneck, que pode ser bom e se chama Toc. É uma comédia um tanto neurastêmica. Meu persoangem é um misto de Arnaldo Antunes e Woody Allen. A direção e roteiro do filme é do Teo Poppovic e Paulinho Caruso. E isso é tudo, por enquanto.
Compartilhar:

Sobre o autor

Clarissa Macau

Idealizadora, jornalista, editora e produtora da Revista Cardamomo. Formada em comunicação pela Universidade Católica de Pernambuco.