“É preciso bancar o risco para encarar o problema” – Entrevista com Marcelo Pedroso

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Por Chico Ludermir 

O diretor Marcelo Pedroso assumiu riscos ao filmar Por trás da linha de escudos, documentário que estreou no último sábado (9) no VIII Festival CachoeiraDoc. Entrar no Batalhão de Choque, unidade da Polícia Militar treinada para reprimir (quase sempre muito violentamente) multidões, sendo reconhecidamente um cineasta de esquerda, foi só o primeiro deles. O filme expõe as vulnerabilidades e as táticas da polícia e suas falhas e, no decorrer das filmagens, o diretor é reconhecido como integrante do Movimento Ocupe Estelita. Ao escolher apresentar visões que complexificam a representação daqueles homens e mulheres debaixo da farda, exercitando a escuta e a aproximação, Pedroso se arrisca novamente e, dessa vez, se expõe a críticas que leem o filme como compassivo com sujeitos opressores e, portanto, míope diante do que de fato representam as ações de repressão do Estado, em especial para as populações periféricas.

Entrevistamos Pedroso às vésperas da première do longa metragem, mas, depois de uma sessão marcada por um debate intenso (dentro e fora do cinema) acerca da pertinência do discurso do filme, decidimos acrescentar mais duas questões, que terminaram de ser respondidas na manhã desta segunda-feira (11). Na primeira parte, o diretor responde sobre a escolha do tema, sua abordagem empática, sobre a experiência de filmar o “inimigo” e sobretudo, sobre os riscos. “O que acontece com o documentário quando ele se depara com essa alteridade contrária? “, se pergunta. Na segunda, o cineasta reflete sobre a recepção do Por trás da linha de escudos, quando foi acusado de adotar uma estratégia narrativa problemática, dado o contexto político atual, que reforça seus lugares privilegiados, é  pouco eficaz no debate da desmilitarização e distante dos debates das populações que sofrem diariamente com a violência policial. “Eu só posso fazer o filme sendo quem eu sou – e tentando ser o mais atento às contradições decorrentes de minha posição”, afirma, ressaltando que o gesto do filme parte da sua presença localizada, constantemente exposta em cena.

CARDA – Por trás da linha de escudos é um filme que tem como tema o Batalhão de Choque, uma unidade da Polícia Militar de Pernambuco, especializada em repressão de distúrbios. O que te fez escolher esse tema?

MARCELO PEDROSO – Basicamente, o meu histórico de militância com diversos episódios de conflitos com o batalhão e o desejo, recorrente a cada contato com os(as) policiais conhecidos(as) pela violência das ações, de tentar entender quem são aquelas pessoas e o que os(as) movia em sua atividade profissional. Quais são as vidas por trás dos escudos pretos, como pensam, o que sentem ao fazer seu trabalho… O filme foi movido por uma questão central, que era tentar entender se eles(as) experimentavam algum tipo de conflito ao fazer seu trabalho. Como era possível a um(a) policial, por exemplo, atirar bombas sobre uma população desarmada e organizada coletivamente para lutar por direitos? Que abismo é esse que existe entre o nosso mundo e o deles(as) que faz com que ajam com tanta naturalidade numa situação para mim tão injustificável?

CARDA – Você costuma fazer uma separação entre adversário e inimigo, o que permite chegar ao Choque sem raiva aparente, apesar de já ter se deparado e saber da violência da PM. Nos fale sobre essa separação e nos conte como isso se reflete na sua maneira de filmar/montar o filme.

MP Essa distinção vem da teoria política e mais especificamente de uma pensadora que li com bastante interesse chamada Chantal Mouffe. Ela propõe a observação de diferentes correlações para circunscrever as categorias de inimigo(a) e adversário(a). Ao longo da história do documentário, e mais especificamente do documentário engajado, militante, que é historicamente mais profícuo no campo da esquerda, existiu sempre essa questão de como lidar com esse(a) outro(a) com o(a) qual entramos em confronto, aquele(a) que temos que enfrentar, combater. Mouffe retoma a ideia de que toda identificação coletiva se funda pela emergência de um “nós” que se configura em oposição a um “eles(as)”. Essa tem sido e tende a continuar sendo por muito tempo a história da humanidade. Interesses ou desejos conflitantes, um grupo se digladiando contra outro.

Nesses termos, eu só passo a me reconhecer enquanto sujeito político a partir do momento em que me junto a companheiros(as) que pensam e sentem de forma parecida comigo, que dividem os mesmos ideais de sociedade e precisam disputar esse projeto com outros sujeitos políticos que defendem ideais contrários. O que acontece com o documentário quando ele se depara com essa alteridade contrária? Que imagens e representações ele pode fazer dessas pessoas? E qual seria a representação justa? Na maioria das vezes, a resposta das imagens é aniquiladora. Basta ver, para citar um exemplo sintomático, o documentário que Frank Capra e Joris Ivens fizeram sobre os/as japoneses/as durante a segunda guerra mundial. É uma peça de pura propaganda racista que visava incitar o ódio contra o Japão e sua população. O debate permanece acesso até hoje: o contexto de guerra justificaria o gesto de reduzir a população japonesa à representação de uma horda de monstros sanguinários e fanáticos?

É aí que as questões colocadas por Mouffe podem reverberar e lançar luz sobre o campo de práticas do documentário. O binômio que ela propõe estabelece o(a)inimigo(a) como aquele(a) outro(a) que ameaça a nossa existência, ao passo que adversário(a) seria alguém com quem se tem divergências (mesmo que extremas), mas com quem se pode conviver e dialogar. O desafio da democracia, defende a autora, é transformar inimigos(as) em adversários(as), relações antagônicas em relações agonísticas. Entendendo que o conflito faz parte da dinâmica social ao ponto de se tornar central para a questão do que é político, a ideia passaria a ser de tentar entender as condições em que se dão esses conflitos, como a democracia é capaz de geri-los.

Acontece que a democracia não é um dado posto e imutável, mas algo que precisamos estar sempre inventando, encontrando novas formas de exercer, descobrindo seus novos contornos, porque novos sujeitos e contextos emergem a todo instante, exigindo que atualizemos nossos parâmetros. Então estaremos sempre confrontados(as) a essa alteridade contrária radical que nos mobiliza ao combate e ao mesmo tempo nos funda enquanto sujeitos políticos. Como o documentário lida com essas questões é algo que me mobiliza enquanto realizador. E foi algo central para a realização do filme no Batalhão de Choque.

CARDA – Você ultrapassa a linha de escudos com o consentimento do Choque e escolhe não trair a confiança dos choqueanos. O filme se propõe a complexificar a instituição, humanizar aqueles personagens e abandona o tom de denúncia adotado em filmes militantes (que você inclusive já fez). Você não acha que, diante de uma polícia de extermínio e de um contexto de acirramento político intenso que remonta 2013 o filme pode ter se tornado/ser visto como condescendente?

MP – O risco da condescendência esteve presente o tempo todo durante a filmagem e ainda paira hoje como algo que as pessoas podem ver no filme. Mas eu pessoalmente estou bastante tranquilo pela forma como essa questão se resolveu no processo e na narrativa. Filmar nessas condições é um exercício muito delicado e arriscado – e você precisa bancar o risco, encarar o problema. A filmagem foi feita sob uma perspectiva empática, um desejo genuíno de conhecer o(a) outro(a), saber suas motivações, sua rotina, os afetos que os(as) mobilizam em seu cotidiano de trabalho. Acho importante diferenciar o tipo de empatia aqui evocado de um gesto de condescendência. Não são a mesma coisa. Mas o risco do gesto de se dispor a conhecer os(as) policiais ser confundido com uma atitude condescendente é grande porque, enquanto diretor, eu precisava de fato me deixar envolver pelo contato, pelos encontros, pelas pessoas. Era necessário para que o filme existisse dentro das escolhas que eu fiz. Então foi assim que agi. Os(as) choqueanos(as) nos receberam e acolheram durante três semanas, permitiram que nós acompanhássemos suas atividades e, dentro do possível, abriram também um pouco de seu coração pra nós. São coisas muito generosas – ainda mais eles(as) sabendo de nosso engajamento político.

Isso só foi possível porque havia uma disponibilidade ao encontro que foi se tornando mútua ao longo do processo. Mas existem gestos muito firmes no filme que demarcam um posicionamento. As diferenças não são erradicadas – e não o devem ser nunca. O conflito continua – mas a grande questão para mim hoje talvez seja de tentar entender se pode haver alguma transformação a partir desse tipo de encontro, se nós conseguimos criar espaços para isso na dinâmica da vida coletiva democrática. Retomando o pensamento de Mouffe, ela defende que para que o(a) inimigo(a) se transforme em adversário(a), é preciso haver a instituição de um comum entre as partes, um espaço em que um lado possa se reconhecer no outro e vice-versa. Num documentário, este comum pode ser visto como a própria cena, aquele lugar que investimos com nossos corpos e afetos, instalando uma dinâmica de trocas.

Agora é preciso estar atento ao fato de que essa possibilidade de encontro com a polícia, da forma como eu me dispus a fazer, é reflexo do próprio privilégio de classe e cor que eu ocupo. A simples possibilidade de agir como eu agi já reflete essa minha condição. Eu sempre tive muita consciência disso ao longo do processo – o que aumenta ainda mais a responsabilidade. Mas, ao mesmo tempo, não pudendo deixar de ser quem eu sou, a questão passava a ser o que fazer com esse privilégio, como conseguir torná-lo um aliado nas lutas com as quais busco alinhamento.

CARDA – Você adota um lugar extremamente arriscado em pelo menos dois momentos: primeiro, ao filmar o choque, se expõe à polícia, sendo inclusive reconhecido como integrante do Movimento Ocupe Estelita. Na medida em que você não localiza o filme na trincheira contra o choque, você escolhe um caminho que pode desagradar a esquerda ou até ser capturado pela direita. Me fale sobre os riscos que você escolheu assumir.

MP –Durante a filmagem, eu disse em alguns momentos aos soldados e soldadas que o fato de estarmos convivendo ali não significava que não voltaríamos a nos enfrentar numa situação de conflito de rua. Eu sempre tive isso muito claro e acredito que eles(as) também. Muitas vezes, os soldados e soldadas se organizam em torno de um discurso de neutralidade, de impessoalidade, de que estão apenas cumprindo ordens, que representam o Estado e que o Estado não tem um lado. Eu tenho a impressão de que muitos(as) não acreditam mais nestes propósitos – mas precisam continuar recorrendo a eles como parte do processo de identificação coletiva. Afinal, deve ser isso que as academias de polícia ensinam – assim como nossas universidades ensinam um monte de abobrinhas para justificar sua própria existência. Mas acho também – ou pelo menos, tenho esperança – de que aqueles soldados e soldadas que ainda acreditam nessa pretensa imparcialidade do Estado aos poucos vão entender que não é bem assim que a banda toca, que não existe esse Estado neutro – como não existe uma escola sem partido.

Para mim, esse momento de convulsão política pode ajudar a ir escancarando isso aos poucos. Espero que consigamos, enquanto sociedade, sair fortalecidos(as) nesta compreensão. Toda essa falácia messiânica do judiciário vai ruir aos poucos, a crise está mostrando que ninguém pode pretender uma superioridade moral sobre o(a) outro(a). O Estado está em disputa e precisamos renascer politicamente para reocupá-lo. As outras formas de organização que tem surgido estão encontrando seu espaço agora – e as ocupações de escolas, universidades e prédios públicos tem sido o grande laboratório para esse redespertar. A esquerda está uma grande bagunça – mas uma bagunça que acredito que pode ser muito saudável, pra reorganizar a casa, rever os erros. É difícil fazer auto-crítica quando existe um movimento maciço e orquestrado de criminalização contra você. Quando o país inteiro está mostrando os dentes, vociferando ferozmente contra o mais singelo ideal de esquerda. “Esquerdopata!”, eles/as gritam. E a gente ainda tem que fazer a auto-crítica? Para mim, parece não haver outra saída.

Precisamos aproveitar o momento para fazer o exame interior, perceber como chegamos a isto (ao invés de apenas gritar “golpistas!” – embora também não possamos deixar de fazê-lo), reavaliar os modos de organização, o pacto político, a relação dos partidos com os movimentos etc. E principalmente aprender com os novos protagonismos, feminino, indígena, negro, LGBTQ… Agora voltando ao filme, eu não creio que exista risco de ele ser apropriado pela direita. Como acredito também que a companheirada de esquerda tende a entender o gesto, refletir sobre ele. Agora tudo isso são apenas suposições – ou desejos. Resta a ver o que ele vai mobilizar em sua trajetória.

CARDA- Ao longo do filme, você e sua equipe se submetem ao treinamento violento do choque. Você também acompanha, do lado deles, uma ação em um presídio de menores de idade, onde adolescentes vivem diversas violências. Em uma das cenas você se olha pelo espelho do escudo do Choque e acaba por refletir sobre o choqueano que também o habita o que leva o filme para um caminho mais psicológico. Filmar é também vivenciar. Como essa experiência reverberou em você? Que sentimentos você teve ao participar desses momentos?

MP – Eu sabia que o caminho do debate verbal não ia prosperar muito no filme. Simplesmente não haveria entendimento. Eu dificilmente conseguiria convencer alguém do Choque de minhas opiniões assim como eles(as) tampouco me fariam rever minhas posições políticas. Se eu fosse investir nesse caminho, a coisa poderia descambar para um tensionamento que terminaria por inviabilizar o próprio filme. Não haveria mais cena, eu e os/as choqueanos/as não poderíamos coabitar o mesmo espaço. Em situações extremas assim, em que o diálogo sobre determinados assuntos poderia levar a uma desagregação, se você quer que o espaço continue existindo (e eu queria que o filme existisse!), o que lhe resta é a experiência, o estar-juntos(as). A experiência é a catalisadora de afetos que permite as trocas. E são justamente esses afetos que possibilitam que se veja o mundo um pouco pela perspectiva do(a) outro(a). E assim se operam algumas transformações.

Esse pode ser um instrumento político poderoso. Mas para isso é preciso que algo esteja se transformando dentro de você também. Eu sou uma pessoa que acumula muitos privilégios sociais, em várias camadas de minha existência. Enquanto homem, branco, hétero, classe média, estudante de doutorado numa instituição de ensino público, bolsista de um órgão de fomento à pesquisa, morador da cidade num bairro confortável, dono de um carro… O pacote completo, enfim. Eu sou essa pessoa que tenho tido que aprender com os sujeitos políticos insurgentes, que preciso estar sempre atento a como minha simples forma de vida é ou pode ser geradora de violência para pessoas e grupos da população que tem tido seus direitos historicamente negados, que morrem pelo simples fato de serem quem são. Então parece que o momento tem intimado a um auto-exame permanente – e isso não é nada fácil. Você fica em crise consigo, uma crise que vai lhe acompanhando em todo canto… Tem horas que você precisa simplesmente sair de cena e se cuidar um pouco. Mas a luta é essa e é necessária. Ela segue e a maioria das pessoas não tem sequer essa oportunidade de se cuidar um pouco. Então é preciso seguir. E acho que o filme reflete esse momento de auto-avaliação também, num plano muito pessoal e também dolorido. Porque ele é uma continuidade da vida, de quem nós somos, do que estamos construindo, buscando, experimentando. Então o filme segue, como também segue a vida, na crise, na dor, na dúvida, mas também no desejo, na esperança e felicidade.

CARDA – A primeira exibição do filme no CahcoeiraDoc no último sábado (9/9) foi marcada por duras críticas. “Por trás da linha de escudos” foi recebido por parte dos espectadores como um filme classista e racista, uma vez que não confronta o Choque diretamente e lhe confere uma humanização empatizada. Fugir do embate e do discurso da raiva só teria sido possível como consequencia de sua branquitude e classe, espelhados no personagem do professor de ioga. Como você recebe essas críticas e sobre o que elas te fazem refletir?

MP – A sessão foi muito, muito intensa, e eu e uma parte da equipe (no caso Kika, produtora, e Luís, fotógrafo) passamos o resto da noite inteira ouvindo as críticas dirigidas ao filme e a nós – na verdade, talvez mais particularmente a mim. Foram críticas muito contundentes e legítimas, vindas de pessoas que tinham muita propriedade para falar sobre o que estavam falando. Em muitos momentos, eu fiquei atordoado e confuso porque o bombardeio de reações era grande e meio que generalizado. Houve um gesto muito enfático de rejeição ao filme. É difícil resumir a quantidade de coisas que ouvi, mas acredito que, de modo geral, havia uma indignação muito forte pela forma como foi feita a aproximação com a polícia, pela escuta que dediquei aos(às) policiais sem necessariamente confrontá-los em seus posicionamentos. Houve pessoas que ficaram bastante transtornadas, que se sentiram muito ofendidas com o gesto do filme. Isso foi bem difícil para mim, continua sendo. Ficar sabendo de como essas pessoas se sentiram, algumas próximas e que eu admiro, foi a parte que mais me abalou emocionalmente. Pois como eu falei antes, eu sempre tive clareza do lugar de privilégio que era a possibilidade de fazer o filme dessa forma, mas minha intenção era de pensar uma maneira de esse privilégio servir para avançarmos na luta política. Então o lançamento foi um momento de grande estremecimento, de escuta e aprendizado. De ouvir essas vozes, que vinham principalmente de grupos de mulheres negras. Eu acho que passei a entender um pouco mais sobre o filme e pretendo inclusive fazer uma alteração pontual nele. Não vou mexer no corte porque não é o caso, eu continuo acreditando no gesto do filme e sua importância para o momento que estamos vivendo. Mas quero introduzir algo que pode ser uma chave para a compreensão de um posicionamento político que acredito que não está claro, que as pessoas não acessaram. Sei que a rejeição que o filme sofreu tem a ver com muitas coisas, que é uma questão muito complexa, mas tendo a achar também que boa parte da indignação se deva ao fato deste posicionamento político não estar totalmente claro. Não sei se essa alteração vai resolver – possivelmente não – mas sinto que ela é necessária para que o gesto do filme se complete por inteiro. É importante para mim perceber que esse clamor generalizado contra o filme pode ter me ensinado algumas coisas.

 

CARDA – A raiva parece ser um elemento central para o entendimento do seu filme. Mais especificamente a ausência dela na tela. Sua forma de filmar está permeada pela ótica da empatia e parte de uma decisão de “não trair” o seu entrevistado, mesmo que este seja o Batalhão de Choque (e somente por isso, você pode voltar para exibir o filme para os oficiais). Ao silenciar essa raiva na maneira em que você filma e monta, você acaba por se desfiliar de um grupo social que usa a raiva como estratégia de sobrevivência – justo os que mais sofrem com a violência policial – e acaba por ocupar, na visão de alguns, o local de não aliado na luta contra as injustiças raciais e sociais e, afinal, atrair a raiva para você. Como você lida com isso?

MP – Acho que tua pergunta já tem uma elaboração sobre a qual eu não conseguiria avançar muito mais. Por isso prefiro me ater ao que rolou em Cachoeira, depois da sessão do filme. Eu sentia que a raiva estava no ar, dispersa nos ambientes, nas conversas. As falas eram muito exaltadas e até inflamadas. E, embora eu soubesse que aquela raiva toda estava dirigida a mim, não houve nenhum episódio específico em que alguém tenha me tratado com agressividade. Eu ouvi muitas coisas e de tudo um pouco. As pessoas eram enfáticas e incisivas – e às vezes pouco abertas a me ouvir. Mas pude sentir também que elas vinham conversar comigo com respeito. Isso foi muito importante e me permitiu lidar com a situação toda.

Sobre ser aliado ou deixar de ver visto como tal, acho que é uma questão que não passa necessariamente pela raiva. Como eu já disse antes, minha experiência social é determinada pela possibilidade privilegiada de usufruir de alguns direitos – não todos, não completos, mas muito mais do que a maioria das pessoas. A população que vivencia a violência policial de maneira epidérmica e cotidiana tem todos os motivos para reagir com raiva e fazer disso sua estratégia de sobrevivência, como você bem disse. Mas eu não sei se a rejeição ao filme está no fato de eu não agir com raiva em relação à polícia (e, logo, de eles(as) não se sentirem representados(as) por mim) ou pelo fato do posicionamento político do filme não estar totalmente claro (algo que, como eu disse, pretendo aprimorar). Porque dificilmente eu poderia pretender representar, por exemplo, a população negra no filme através de minha presença. Um filme assim não poderia existir nunca. Eu só posso fazer o filme sendo quem eu sou – e tentando ser o mais atento às contradições decorrentes de minha posição.

 

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Sobre o autor

Chico Ludermir

Chico Ludermir é jornalista, escritor e artista visual. É integrante dos movimentos Coque Vive/Coque (R)existe e Ocupe Estelita. Atualmente é mestrando em sociologia pelo PPGS-UFPE e pesquisa as relações entre arte e política.