Dea Ferraz: “O feminino não é uma coisa específica e estereotipada como querem dizer pra gente”

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Por Clarissa Macau

Num cinema historicamente dominado por homens que observam e julgam a figura feminina, uma diretora decide mudar as perspectivas 

logo-2016Numa mesa de bar repleta de homens héteros – rodeada pelo costumeiro burburinho ensurdecedor de vozes e gargalhadas – “é natural” que eles se sintam livres para conversar, abertamente, sobre uma das coisas que mais gostam: mulheres. Mulheres vistas e citadas, não raramente, como suas posses, conquistas e, mesmo, alvos de chacota. Para alguns, e até algumas – nesse caso, o claro resultado da construção machista que todos estão sujeitos -, soa um pouco exagerado falar nesse tom. Mas a verdade  é que ser mulher e acessar o universo tão cotidiano dos homens, quase sempre se mostra um retrato assustador de sua própria vivência. Nesses debates informais, o ato de confirmar ideias preconceituosas sobre a mulher – como aquela da figura tagarela neurótica -, ou a ação de julgar suas condutas sexuais – se deve ou não ser casta -, e seu modo de vida – ao, por exemplo, selecionar o tipo de roupa com as quais ela pode andar – , é uma possibilidade corriqueira e muito bem aceita pelos pares.  A cineasta pernambucana Dea Ferraz decidiu, num ato de coragem, isolar esses papos de boteco tão descontraídos num silêncio coletivo sepulcral. No tenso e revolucionário documentário Câmara de Espelhos, seu primeiro longa-metragem de autora, piadas e sensos comuns se transformam em uma espécie de reflexo constrangedor para a maioria dos homens  sentados no cinema e num panorama das violências sofridas diariamente pelas mulheres.

Nos debates, temáticas como traição da mulher ao homem são assimiladas sem dificuldade à consequência da morte, e aborto é um tabu irrefletidamente reprovado numa sociedade que ainda naturaliza o domínio machista e a cultura do estupro, justificados equivocadamente pelos instintos de um tal sexo “dominante”. “Alguns sociólogos falam que a identidade só se completa a partir do olhar do outro. O projeto nasce dessa pergunta muito simples: ‘Que mulher sou eu diante desse mundo construído e pensado por homens?’ Eu comecei a pensar o olhar masculino sobre as mulheres e ter o desejo de filmar o universo da mesa de bar masculina. Como os homens se permitem falar o que querem quando estão só entre homens?”, indaga a diretora à Revista Cardamomo.

Dea transpõe a mesa de bar ao mundo paralelo de uma caixa preta que simula o cenário confortável de uma sala de estar. Ao invés do burburinho dos botecos, os homens que aceitaram a proposta desse documentário estão cercados por espelhos refletindo a construção social de si mesmos. Eles não têm contato algum com a diretora antes ou depois da filmagem e são filmados sem prever os ângulos em que aparecem, pois as câmeras estão camufladas. Também nos arredores há quadros e imagens feitas para ou por mulheres,”Uma forma muito simbólica de mostrar que nós estamos observando. Além de perguntar em que lugar da caixa você está? Fora, dentro, ou do limiar?”, pensa.

(Fotografia: Marília Araújo especial para a Revista Cardamomo)

(Fotografia: Marília Araújo especial para a Revista Cardamomo)

Câmara de Espelhos segue a ideologia dos filmes dispositivo, como Doméstica, de Gabriel Mascaro, e Filmefobia, de Jean-Claude Bernardet. A partir de um método e um sistema elaborado, Dea aciona uma situação corriqueira da realidade na frente das câmeras, expondo narrativas, normalmente, emudecidas pelas mídias maiores e denunciando as palavras e ações daqueles que representam ideias antagônicas às mulheres. Aqui há a tentativa de filmar o “inimigo”, no sentido retórico. Com um anúncio de jornal, sua equipe convidou pessoas do gênero masculino para participarem da obra. Sessenta homens se inscreveram, doze de classes, origens e profissões diferentes foram selecionados. Eles são estimulados a conversar sobre o sexo oposto através de uma TV que exibe vídeos famosos da internet, jornais e novelas criando discussões num clima cômico ou de crítica em relação à figura feminina – debates evangélicos que aprovam a submissão da esposa ao marido, piadas machistas ou registros de protestos feministas.

Os personagens masculinos, mesmo sabendo que estão sendo observados, não medem muito suas palavras. Reflexões absurdas são ditas em ritmo de naturalidade, o mesmo das mesas de bares. A autora também se coloca como indivíduo atuante a fim de explorar sua visão e reconhecer o seu lugar no filme. Ela não aparece como imagem, mas é escutada como voz condutora e dominadora da situação, a representação da mulher racional, como sempre foi. Porém essa escolha implica uma consciência: “Eu represento uma grande parte das mulheres, mas não todas. Por isso, por mais que me doesse, eu tive que tirar algumas discussões do filme, como a causa trans e das mulheres negras, porque sou branca. Eu apoio o transfeminismo, mas nunca poderei representá-lo. Eu não tenho meu gênero questionado diariamente, nem sou provocada ao ser chamada ‘de ele’. Não preciso reafirmar para o mundo que sou uma mulher, como as trans”.

Segundo Dea, Câmara de Espelhos é a denúncia às opiniões desses homens e está longe de ser um espaço receptivo ao discurso de poder. Apesar de tudo isso, ela tenta ser cuidadosa para não transformar os personagens em algozes. Deixa de lado um fácil cinismo e escuta atentamente às ideias de gênero daqueles homens. Eles reproduzem o que aprenderam com a tradição da sociedade. São opressores natos, acham-se os  protagonistas da história. Para a cineasta, o autoritarismo com o qual falam sobre mulheres é uma postura que deve se desnaturalizar e até os pretensamente bem intencionados devem pensar duas vezes antes de falar sobre a mulher e a sua luta feminista. “Até onde é permitido a eles entrarem na discussão feminista e da mulher?! Talvez não seja permitido, mas, sim, se sensibilizar e se perceber como parte do problema e, então, se questionar”, defende. “Vamos destampar o ouvido e entender que a opressão está no nosso dia dia e só nós podemos combater esse discurso”.

Mulheres do Audiovisual pernambucano ocupam a Janela Internacional de Cinema do Recife durante debate sobre o filme "Câmara de Espelhos" (Fotografia: Victor Jucá)

Mulheres do Audiovisual pernambucano ocupam a Janela Internacional de Cinema do Recife durante debate sobre o filme “Câmara de Espelhos” (Fotografia: Victor Jucá/ divulgação)

MACHISMO NO SET

A opressão machista também está presente no cenário da sétima arte. Para se ter uma ideia, fazendo uma retrospectiva rápida, o cinema surge no Brasil no Império, em 1897, mas só na década de 30 se tem conhecimento do primeiro filme dirigido por uma mulher, O mistério do Dominó Preto de Cléo Verberana. Nos primeiros trinta anos da história cinematográfica brasileira apenas seis mulheres ocuparam a função de diretora como Gilda Abreu e Zélia Costa. No presente, as possibilidades de participação são maiores, mas ainda não são completamente bem vistas. “A gente vai se dando conta de quanto o cinema é historicamente um lugar dos homens e sobretudo na realização dos filmes. A imagem da mulher está sempre associada a esse olhar do diretor. E se fosse ao contrário?!”, imagina Dea. Ela lembra de um fato marcante na cena do estado de Pernambuco, quando no século 21 a mesa de bar masculina se reconfigura abertamente nas redes sociais da internet. Em 2015 algumas cineastas pernambucanas tiveram a ideia de fazer um festival chamado Cinema de Mulher. O termo utilizado revoltou vários diretores na época. Comentários irônicos como “O que porra é cinema de mulher?”,  “Cinema de trator. tudo sobre filmes com tratores”, “Vincular cinema a uma ideia de genero, hello???”, “Pra mim cinema é e sempre foi uma mulher. e eu vejo isso até em filmes do Charles Bronson” foram repercutidos no Facebook e depois arquivados para eternidade no tumblr http://cinemademulher.tumblr.com/.

Esse cinema foi assunto de uma das mesas da nona edição do Janela Internacional  de Cinema. Dea Ferraz participou na última quinta-feira (3), do encontro Um Cinema Tomado por Mulheres, mediado pela crítica de cinema Carol Almeida. Lá, ela e a realizadora baiana Marília Hughes, diretora de Cidade do Futuro (2016), as pernambucanas Nara Normande, de Sem Coração (2014), e Juliana Lima, de Psiu (2014), além da distribuidora da Vitrine Filmes, Silvia Cruz, criticaram a inferiorização da mulher no set de filmagens. “Essa imposição é tão forte que às vezes eu já me vi tentando agir feito os homens, me descaracterizando ao ter que rir de piadas horríveis e machistas pra me sentir respeitada no set. Já aconteceu de pedir para um diretor de fotografia filmar de um jeito e ele dizer que tem uma solução melhor. Mas eu tô pedindo pra ele fazer da forma que condiz com a minha direção. Aí ele faz do jeito que eu disse, mas logo depois faz questão de também fazer do jeito dele”, conta a cineasta sobre a desconfiança que as mulheres enfrentam na profissão. Esse desconforto foi relatado por todas as integrantes do evento. Principalmente aquelas que já experienciaram a co-direção com um homem. A equipe parece respeitar primeiro ao representante masculino e a mulher ganha a pecha injusta de ser somente uma auxiliar, uma criadora em segundo plano. Dea, dois dias antes desse debate ocorrido no dia 2 de novembro, estreou Câmara de Espelhos na capital pernambucana através do Janela. O evento foi histórico para o festival e para o próprio cinema do estado celebrando a existência de todas as profissionais de audiovisual de Pernambuco, muitas delas subiram ao palco do Cinema São Luiz num ato que defendia palavras como “Representatividade já!”.

Já faz algum tempo que as mesas de bares e de qualquer lugar não são mais só de homens. As representatividade avançou bastante ao longo dos anos graças à luta e à uma consciência feminista que impulsiona a causa para além do meio acadêmico e expande o que é discutido entre os coletivos culturais para a mídia e o dia dia. Entrando nessa travessia de diálogos escorregadios e relevantes, a Revista Cardamomo trocou uma ideia com Dea Ferraz sobre o cinema de mulher e Câmara de Espelhos, filme de formato simples, mas tão forte e único em seu papel de provocador e desconstruidor de reações e relações, o seu maior trunfo. Câmara é grande ao colocar a luta pela dignidade da mulher em primeiríssimo plano.

REVISTA CARDAMOMO – O Câmara de Espelhos foi seu primeiro longa-metragem autoral, quais as influências? E como foi o processo de escolhas dos personagens para o seu filme? 

DEA FERRAZ – Antes de Câmara de Espelhos eu filmei Sete corações, meu primeiro longa. É sobre sete maestros de frevo que são os mestres do Maestro Spok, uma história de discípulo. Não é um projeto que nasce em mim porque fui convidada a dirigir. Fui uma espécie de tradutora de desejos. Câmara de Espelhos é o meu primeiro filme autoral, sim. Na época eu estava trabalhando com Gabriel Mascaro e lendo muito sobre filme dispositivo e o documentário na adversidade. O filme dispositivo é aquele filme que os teóricos dizem que só existe a partir do acionamento de um sistema específico, que no meu caso foi convidar esses homens a partir de um anúncio de jornal e coloca-los numa caixa, pra que eles mostrassem o que pensavam sobre as mulheres. Eles apareceram e a gente fez uma entrevista com cada um. Quem faz essa entrevista são meus assistentes. A entrevista era conduzida para tentar entender o universo familiar desses homens, se eram casados, a sexualidade, a relação na família. E tinha outra característica que a gente buscava, que era a desenvoltura. Homens que se sentiriam confortáveis ao falar na frente de pessoas que eles não conheciam. Foi um jogo de xadrez montar os dois grupos formados de seis pessoas. A gente simulava esses grupos e tentava imaginar o que é que sairia dali, desses encontros. É como se a gente tivesse o controle do dispositivo e o funcionamento, mas a gente não fazia ideia do que poderia realmente acontecer, se um grande silêncio ou uma explosão. E se eles começassem a se atacar? No filme tive influências de Gabriel Mascaro, também de Marcelo Pedroso que foi consultor do filme. A obra dele dialoga muito com a questão do documentário na adversidade. Também conversei muito com mulheres como [a socióloga]Sophia Branco e [a integrante da Action Aid – Brasil]Daiane Dutra.

CARDA – Você chegou a se surpreender com esses homens, de forma negativa ou positiva?

DEA – Me surpreendi com o funcionamento do dispositivo. Eu acho que funcionou muito melhor do que eu pensava. Ele causou uma inversão de encenação. Como eles não tinha sabiam onde as câmeras estavam, ao invés dos homens encenarem para as câmeras,  eles começavam a encenar para eles mesmos. Essa dinâmica reproduz um comportamento do dia dia, a gente sempre está encenando pro outro. Eles buscam sinal de aprovação ou reprovação. E eles vão se legitimando, respeitando uns aos outros. Não teve um grande confronto. Mas isso foi se intensificando ao longo dos dias, foram 6 dias de filmagem, três com cada grupo.  Não teve uma frase específica que me supreendeu ou machucou mais. Havia essa incapacidade de se colocar no lugar da mulher. Inclusive enquanto eles falam de  traição, eles tocam numa vulnerabilidade masculina, mas eles não levam em conta a vulnerabilidade feminina na hora de fazer um aborto, por exemplo. Como é difícil entender esse lugar da mulher. Eu me impressiono como eles realmente vão se permitindo falar as coisas. Podem ter pessoas que veem o filme e que não se deem conta da violência que está acontecendo naquelas falas, dependendo do público…

CARDA – Existe uma ideia de documentário que filma o “inimigo” que é praticada e estudada por diretores pernambucanos como Marcelo Pedroso e Gabriel Mascaro e vocês se diz influenciada por esses autores. Você consideraria o “homem” um inimigo?

DEA – Eu acho que isso diz muito sobre essa abordagem documental. Tem um teórico francês chamado [Jean-Louis] Commoli que tem esse texto famoso Como filmar o inimigo. O inimigo é aquele que você não necessariamente admira ou que se coloca como antagonista, no sentido de que há algo ali que não comunica com você. Eu acho que é nesse sentido. Não é que o homem seja meu inimigo, mas naquele momento e naquela forma o filme se coloca nesse lugar de filmar alguém que não necessariamente é admirado ou compactua com uma ideia. O filme tem essa característica de denúncia, reflexão e de jogar luz na naturalização dos discursos machistas escutados o tempo todo. Os homens não se dão conta que estão falando aquilo. É o que pedroso chama de documentário na adversidade. Foi muito difícil montar o filme. Por mais que eu não admire o que está sendo dito, eu preciso levar em conta que são pessoas que estão ali e que têm uma vida fora do filme. É o cuidado de não transformar esses homens em monstros e culpados pelo machismo social. Todo mundo é vítima dele. Só voltei a montar o material três anos depois da filmagem por causa dessa dificuldade de me relacionar com esses personagens. As filmagens foram fisicamente difíceis. Eu fiquei com medo de andar na rua, como se eu tivesse acessado um alógica do pensamento masculino que até então eu desconhecia. Comecei a pensar: “Meu Deus o homem que passa por mim, olha como se estivesse vendo um objeto”. Às vezes estava com uma roupa e me sentia desconfortável ao andar na rua, comecei a voltar pra casa para me trocar.  Em 2016 eu volto para a edição entendendo esses caras não como algozes. Mas é lógico que a balança é outra. Somos todos vítimas de um sistema machista patriarcal, mas as oprimidas são as mulheres. Há um desequilíbrio nessa balança. Não tem como não olhar para isso. Enquanto os caras não derem conta dessas micro-violências a gente não vai sair do canto. Já as grandes violência nem se fala.

(Fotografia: Marília Araújo especial para a Revista Cardamomo)

(Fotografia: Marília Araújo especial para a Revista Cardamomo)

CARDA – Você teve uma visão, talvez, diferente da de Gabriel Mascaro. Ele foi lá na cara de pau entrevistar as pessoas nas coberturas no filme O Lugar ao Sol. Teve esse impulso de fazer um filme extremamente crítico para o público e não pensando, também, nas pessoas que ele entrevistou. E isso implicou em várias discussões sobre ética no cinema, se ele foi ou não ético…

DEA – Eu, inclusive, na época, perguntei para Mascaro: “Como tu teve coragem de fazer isso?”. Ele respondeu que chegava, subia, entrevistava e ia embora, não tinha nenhuma relação com essas pessoas. Eu não tenho relação com os personagens também. Eu fiz questão de não criar. Se não, eu não sei se eu seria capaz de montar o filme de uma forma mais distanciada. Eu poderia ter transformado os caras em monstros. A gente não queria fazer um filme que afastasse o espectador daquela caixa, mas que ele se visse naquela caixa. Pra mim aqueles caras estão o tempo todo em construção de si, ali eles estão tentando montar um discurso sobre esses temas que estão sendo colocados.

CARDA – Inclusive, em muitos momentos, esses homens admitem erros… Mas admitem que também irão continuar pensando de certa maneira

DEA – Em um momento do filme um cara está num discurso sobre a necessidade do diálogo entre um casal. Ele fala: “A mulher abafada não é legal, ela tem que dizer o que pensa mesmo” [ao assistir um vídeo no qual uma personagem admite concretizar vontades sexuais com muitos homens]. Aí depois tem um outro cara que retruca: “E se for a nossa mulher dizendo uma coisa dessas? Como é que a gente vai reagir ?”, e aí ele repensa: “É verdade, por mais modernos que sejamos a gente vai estranhar”. Quer dizer, ele tenta um discurso de liberdade para a mulher e imediatamente contradiz essa ideia. O outro compara a mulher a um animal, “O que eu vou dizer agora é estranho, mas sabe o cachorrinho abanando o rabo quando a gente chega em casa?”. Ele sabe que o que ele vai dizer não é legal… Mas mesmo assim ele diz. Tem uma complexidade da existência dessas pessoas enquanto construtoras de um discurso. É muito mais que transformar em vilão. Uma preocupação que a gente tinha na montagem era evitar ao máximo o close, preferindo desfocar ou colocar no plano aberto a imagem do personagem quando ele estivesse falando as coisas mais absurdas. Porque aquilo não é um pensamento dele, é uma fala da sociedade que ele está reproduzindo, é para além dele. As falas absurdas nunca entram recortadas. A gente tentou manter o que a gente chamou de “ilhas” no material bruto que mantém a temporalidade real daquelas citações. A gente não quis manipular frase por frase. E essa ilha tinha que reproduzir esse lugar dos homens, dos machos, o ambiente tão masculino que permite os caras dizerem o que eles quiserem sem se colocar em nenhum momento no lugar das mulheres.

CARDA – Há mais ou menos um mês quando conversamos pela primeira vez, você disse que estava num dilema se mostrava ou não o filme aos personagens filmados. Você decidiu fazer uma exibição para eles alguns dias antes da estreia no Recife, durante o Janela Internacional de Cinema do Recife, como foram as reações?

DEA – A sessão foi no Porto Mídia, uma parceria com o instituto PAPAI. Eles tinham a opção de me ver ou não. Eu chamei todos os 12, mas só cinco compareceram. Muitos não conseguiram ser encontrados. São pessoas de classe sociais muito diferentes. Eles quiseram me ver e me surpreendi muito. Alguns não entenderam nada, até se orgulharam do que diziam. Mas teve um menino que fez um depoimento que está ressoando em mim até hoje. Ele disse “Dea, eu tinha 19 anos e morava numa bolha com a minha vó. De lá pra cá não moro mais com minha vó porque ela morreu, faz três anos que eu entrei na faculdade e eu tenho discutido muito a questão do feminismo. Essa imagem de mim mesmo me entristece, eu tenho vergonha do que eu fui. Quando eu li sobre o filme nos jornais eu pensava que isso ia resvalar na minha imagem. Mas agora vendo, vejo que foi por um motivo importante”. Outro cara que era evangélico disse que esse filme deve ser uma porrada para as mulheres, mas que a sociedade é assim. O que é muito contraditório porque os evangélicos têm essa idealização do amor incondicional, mas na realidade não é bem assim…

(Fotografia: Marília Araújo especial para a Revista Cardamomo)

(Fotografia: Marília Araújo especial para a Revista Cardamomo)

CARDA – Recentemente houve uma grande repercussão na internet sobre um texto intitulado “Como foi transar com uma vítima de estupro”. Um texto bastante romantizado no qual o autor relata o dia em que teve relações com uma mulher traumatizada pela violência sexual. Ele diz ter sido cuidadoso, como se estivesse libertando a moça. De alguma forma ele tenta se colocar no lugar da mulher e motiva outros homens a tentarem fazer o mesmo, o que é positivo. Mas existe um lado negativo, porque afinal era mais uma vez o homem se colocando no lugar de protagonista desse tema tão delicado e extremamente difícil. Você que fez um filme focando no discurso desses homens, qual seria, na sua opinião, o lugar deles nessa discussão?

DEA – Boa. É… Eu me peguei pensando muito sobre isso. Tem uma diferença nessa história que é justamente a diversidade. Eu não coloco o discurso desses homens num lugar de exaltação, mas de denúncia e eu respeito quem critica e não aceita essa forma de denúncia. Mas é diferente de dar espaço aos homens nessa luta que é tão da mulher.  A gente vai se dando conta de quanto o cinema é masculino. Essa arte é historicamente um lugar dos homens e sobretudo no olhar do diretor. A mulher está sempre sexualizada, objetificada e isso reproduz o que a sociedade faz conosco. Câmara de Espelhos inverte isso, ele coloca uma mulher realizadora olhando esse homens. Então, assim, é quase como dizer: “Como é que vocês estão se sentindo sendo olhados por uma mulher que tá focando nessas pequenas e grandes violências que vocês cometem?” Mas entender até que ponto o homem pode se engajar nessa luta é motivo de muitas discussões dentro do próprio movimento. Algumas acreditam que não há espaço para o homem, para elas o feminismo é só da mulher, só ela sabe o que é ser mulher. Outras acreditam numa espécie de pedagogia dos homens, no sentido de que é preciso trazê-los para a causa. Quando eu faço esse filme eu estou dizendo: “Veja o que eles falam quando a gente não está por perto”. Vamos destampar o ouvido e entender que essa violência está no dia dia da gente e só a gente pode combater esse discurso. E tento dizer pros homens: “Perceba as violências que vocês estão cometendo”.  Eu respeito muito quem não acredita nessa pedagogia, porque já estão há muito tempo nessa luta e cansaram de tentar educar essas pessoas. Mas, eles precisam fazer um esforço pra entender. Em 2013 eu estava fazendo o filme e não era engajada em nenhum movimento. Agora, um pouco antes do filme ter sido lançado é que eu começo a me engajar com essas questões de forma mais sistemática e embasada. Nem me sinto autorizada para falar sobre o lugar desse homem nessa luta. Daqui a um tempo posso te dizer, acho que é bem complexo. Enquanto os homens não se sensibilizarem, eu não sei se muda alguma coisa. Até onde é permitido a eles entrar nessa discussão?! Talvez não seja permitido entrar na discussão, mas, sim, se sensibilizar e se perceber como parte do problema e, então, se questionar.

CARDA  – Debater ideias nos tempos de hoje está difícil. Em tempos de “coxinhas” versus “mortadelas/petralhas” existem guerras ideológicas a todo o momento. Você foi muito corajosa em abrir espaço para o debate, dessa forma, com essas pessoas e para o público

DEA – Na montagem eu ficava toda hora pensando que os homens iam me matar, de outro achava que as feministas iam me matar. Mas o que me guiava era uma busca minha, pessoal, não era algo ligado a um movimento específico. Por isso eu me faço presente no filme. Uma personagem mulher por trás daquela caixa, construindo aquele processo em busca de alguma coisa. Foi muito difícil, pra mim, tirar questões sobre, por exemplo, o feminismo negro. Mas, eu não posso falar disso. Não me cabe falar disso. Isso já ia recortando até que ponto eu poderia falar. Eu seria muito criticada se eu tentasse fazê-lo, pelo caminho de ter a minha personagem como parte do filme. Eu não posso falar disso. Assim, eu creio, faço às pazes com o movimento feminista.

CARDA – No meio daqueles homens há um infiltrado. Quem era aquele infiltrado, era um ator ou um amigo de vocês e por que coloca-lo? Foi tão difícil, assim, encontrar um homem que tivesse uma opinião mais razoável a respeito das mulheres?

DEA – Na verdade, eu não tinha como prever o que esses homens iriam falar. Eu achava que eles amenizariam muito o discurso, por saberem que estavam sendo filmados. O infiltrado, que eu gosto mais de chamar de provocador, não é um ator, ele é uma figura que trabalha com questões de gênero há muito tempo. A escolha por ter uma pessoa que fosse uma interface entre eu e os homens, minha representação na caixa, partiu de duas questões. Uma foi certa insegurança por não saber o que iria acontecer. Eu percebo que é uma fragilidade do dispositivo. Era como se eu não estivesse plenamente confiante no que eu criei, aí eu crio esse personagem para dar uma segurança, evitar qualquer briga mais séria. Depois, o que aconteceu é que ele que virou uma espécie de voz dissonante, a pessoa que tentava mostrar outra possibilidade de pensar sobre aqueles temas. E aí eu gosto disso. Em um momento específico quando falam sobre aborto ele se coloca de uma forma inflamada com a minha autorização. Depois ele saiu e disse que achou algo muito forte, precisou de um tempo para digerir o que aconteceu. Não foi fácil ouvir o que ele ouviu e calar o que ele calou.

CARDA – A estreia do filme foi no Festival de Brasília, um dos maiores do país. Como foi a experiência e como vem sendo a recepção crítica do meio cinematográfico para você?

DEA – A gente teve uma sessão bem bonita de estreia. Quatrocentas pessoas num lugar que cabiam seiscentas pessoas às 17h, um horário difícil, no Cine Brasília. Muitas pessoas, homens vieram dizer que se viram, repensaram a vida, tentando entender onde eles estavam. As mulheres costumam aderir imediatamente ao filme e ter um sentimento de engajamento. Não é um tema fácil para o cinema e para o público. Também há uma dificuldade do meio cinematográfico de se relacionar com esse tipo de filme. É um meio masculino, a maioria dos espaços de poder são de homens. A gente fez um seminário no dia seguinte do filme, a sala estava cheia. Só que de dez críticos pernambucanos que estavam no festival, só dois compareceram. Acho que não posso fechar meus olhos para isso. Ás vezes, a sensação que eu tenho é que o filme é um espécie de lanterna iluminando esses lugares, denunciando esses espaços, a dificuldade de tratar desse tema. Já vi reações bem violentas de homens que assistiram e ficaram com raiva. Eu acho que ele estava puto consigo mesmo. Não reconhecer essas falas é bizarro, porque são falas do cotidiano. Dizer que isso não existe é um auto-boicote. É uma dificuldade grande de se ver no espelho. Ás vezes o espelho é cruel e a negação acontece. E é isso.

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CARDA – Você acha que existe cinema de mulher e de homem?

DEA – É uma das questões polêmicas e já vivemos isso fortemente em Pernambuco nas redes sociais quando algumas colegas tentaram fazer um festival antes do Fincar, uma mostra de quatro curtas que defendiam o cinema de mulher. A galera caiu de pau em cima, inclusive grandes nomes do cinema pernambucano. dizendo que cinema é uma arte universal. Eu concordo que cinema é uma arte universal, mas o que acontece e o que eu defendo é que a gente ainda vive numa sociedade machista e patriarcal. Enquanto a desigualdade é concreta a gente precisa demarcar os lugares. Aí a gente pode falar de cinema de mulher. Isso faz parte da construção da gente, o nosso olhar está vinculado a vida que agente levou, ás violências que sofremos. Primeiro, eu preciso dizer que mulheres existem, que pra os homens nem existem. A mulher é invisibilizada o tempo todo. Para dizerem que eu existo eu preciso me colocar como tal. É óbvio que nenhuma mulher quer só ficar falando de cinema de gênero, a gente quer que o cinema seja igual a todos, mas é preciso essa demarcação ainda. Chegará o dia que a gente vai poder dizer que o cinema é universal. É uma luta por espaço, mesmo. E, novamente, eu não quero só falar disso em todo o festival. E com certeza o meu olhar feminino será diferente do seu, será diferente do de cada mulher. O feminino não é uma coisa concreta, específica e estereotipada como querem dizer pra gente, o feminino é de cada mulher.

CARDA – Uma questão mais externa ao cinema do que de estética!?

DEA – De uns tempos pra cá a gente criou um movimento, o Mulheres no Audiovisual PE. O movimento é muito interessante. O que eu achava que era uma coisa pessoal, de “O problema sou eu, ninguém gosta dos meus filmes, ninguém faz matéria [jornalística] sobre”, era uma questão muito mais complexa do que você pode imaginar. Não é “Não gosto do seu filme”, é “Eu não vejo o seu filme”. Uma vez [a diretora de Amores de Chumbo]Tuca Siqueira convidou vinte cineastas pernambucanas. Cada uma fez um curta sobre um poema de Cida Pedrosa [poeta]. A conversa que chegou pra mim, é que vários homens do audiovisual estavam falando sobre isso. O comentário era “Não existe cineastas mulheres em pernambuco”. Como assim, cara? Existe. Você pode não gostar ou achar uma bosta, mas dizer que não existe é leviano demais. Ainda há a história da mulher no set de filmagem, que é outra história. Ser diretora é difícil. É uma mulher mandando em um homem. A dificuldade da sociedade em lidar com esse protagonismo da mulher é punk.

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Sobre o autor

Clarissa Macau

Idealizadora, jornalista, editora e produtora da Revista Cardamomo. Formada em comunicação pela Universidade Católica de Pernambuco.

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