O cinema, a universidade e o mundo – uma conversa com o MOV Festival

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Uma nova cadeia cinematográfica nasce sem ou quase nenhum incentivo através de relações em salas de aula e nos corredores de universidades ao redor do mundo. O Mov festival, no Recife, mostra um panorama do que está sendo produzido no chamado cinema universitário e expande para a audiência diferentes olhares sobre a sociedade   

TEXTO E EDIÇÃO Clarissa Macau

FOTOGRAFIA Úrsula Freire

Ainda uma incógnita para o grande público e até mesmo à cena artística brasileira, o cinema feito nas universidades parece questionar hierarquias, preconceitos, estéticas e perspectivas sociais da atualidade. Espaços como o MOV – Festival Internacional de Cinema Universitário de Pernambuco, criado em 2014 por quatro  estudantes da UFPE, surgiram para ajudar a legitimar um nicho que ainda não é totalmente aceito pelos grandes mercados e festivais cinematográficos e discutir “O que é fazer cinema universitário?”. A indagação, justamente, norteou a terceira edição desse evento que aconteceu no Recife do dia 31 de janeiro até este domingo (05) no Cine São Luiz e Parque Dona Lindu. Alguns realizadores universitários responderam à pergunta afirmando que esse filão é uma “Utopia!” ou “Um lugar de criação, não apenas físico, mas também de fala”. As respostas estão impressas nas páginas do catálogo da programação que trouxe 60 filmes, entre 600 inscritos, com olhares de jovens estudantes do Brasil e de países como Eslováquia, Cuba, França, México, Portugal e África do Sul.

“Muitas das respostas falaram sobre baixos orçamentos ou da liberdade de criação, mas há nas produções, principalmente, o sentimento de um cinema que se relaciona com as questões contemporâneas de forma reflexiva. A universidade como um espaço de crítica e num formato de filme”, conta a produtora Thaís Vidal, idealizadora do MOV junto aos cineastas Txai Ferraz, Vinicius Gouveia e Amanda Beça. “A nossa curadoria não vai tanto pela perfeição da técnica e se guia por um olhar que traz novas e outras perspectivas que um cinemão mais mainstream talvez não dê conta”, pensa Amanda. Integrante do time de curadores ela destaca a importância de curtas metragens como Deus  (2016), de Vinícius Silva, da Universidade Federal de Pelotas – ele flerta com as causas negras e feministas e ganhou o prêmio de melhor filme do festival -, e Noite escura de são nunca (2010), o diretor Samuel Lobo, da Federal do Rio de Janeiro, faz um filme experimental sobre a influência invasiva de forças militares na vida de duas irmãs.

Vinicius Silva, diretor de DEUS - filme; Lílian de Alcântara, diretora de Putta, um documentário; André Antônio, mediador e curado convidado do MOV; e Adan Sousa, diretor de Multiplicai em debate no Cinema São Luiz (Fotografia: Tiago Calazans/Divulgação)

Vinicius Silva, diretor de DEUS – filme; Lílian de Alcântara, diretora de Putta, um documentário; André Antônio, mediador e curador convidado do MOV; e Adan Sousa, diretor de Multiplicai em debate no Cinema São Luiz (Fotografia: Tiago Calazans/Divulgação)

A programação repercute a tendência sentida na maioria dos festivais nacionais. Uma seleção de filmes que interage com recentes acontecimentos da esfera política nacional e temas emergentes ligados aos setores que buscam por mais direitos na sociedade, a exemplo dos LGBT, da população negra e das mulheres. “Eu vejo como o principal papel social do MOV uma busca por representatividades dos universitários e de outras lutas”, afirma Thaís. Um dos filmes mais carismáticos da edição leva o nome de Cuscuz Peitinho. O curta produzido na cidade de Natal (RN), através da parceria entre o cineasta Rodrigo Sena e o estudante de cinema da Universidade Potiguar  Júlio Castro, aborda a pauta da identidade de gênero ao narrar as autodescobertas de um adolescente que vive no ambiente machista de uma fábrica cuscuz. “No nosso estado a gente tem o curso, mas fora a ele não temos onde reverberar o trabalho. Um festival como MOV acaba dando a oportunidade pro realizador que tá na escada de crescimento. Eu sou o único da equipe que não fez universidade de cinema. Os cabeças pensantes tendem a se associar com essas pessoas. A gente conhece um que trabalha com áudio, o outro com fotografia e junta essa galera”, conta Sena, representando a equipe de universitários que não puderam estar presentes no festival.

O cineasta Rodrigo Sena na frente do cine São Luiz. "Muitos pensam que a capital do audiovisual é o Rio ou São Paulo, mas na realidade é o Recife. Estar aqui no MOV e nesse cinema São Luiz é muito massa". (Fotografia: Úrsula Freira para a Revista Cardamomo)

O cineasta Rodrigo Sena na frente do cine São Luiz. “Muitos pensam que a capital do audiovisual é o Rio ou São Paulo, mas na realidade é o Recife. Estar aqui no MOV e nesse cinema, o São Luiz, é muito massa”, contou para a CARDA. Outro filme da programação, O Menino de Dente de Ouro também foi de sua autoria. (Fotografia: Úrsula Freire para a Revista Cardamomo)

DE IGUAL PARA IGUAL

A qualidade cinematográfica foi analisada pelo Júri nacional formado pelos professores Thiago Soares, Cristina Texeira e a realizadora Maria Cardozo. “Estamos impressionados não só com os filmes, mas com a organização do festival que possibilita as pessoas de se conhecerem e conhecerem filmes de lugares imprevisíveis, que ainda recebem o aval do MOV para circular em outros festivais”, opina Cristina que é professora de cinema da UFPE. Thiago, professor de comunicação na mesma instituição, percebe inovações no evento: “A noção de premiação que o Mov faz é muito interessante. As categorias levam nomes como Criação de Atmosfera [,Construção de narratividade e Jogo de Cena]. É muito menos uma coisa específica, de um expertise individual, e muito mais uma articulação entre direção de arte e direção de atores, por exemplo. Algo que rompe com a hierarquia usual do cinema. É um desafio de reflexão pro Júri e é um lugar de aprendizado”.

As produções vindas da Universidade Federal de Pelotas chamaram a atenção dos jurados. “Pelotas está fora de um circuito convencional formado por capitais como Rio de Janeiro, São Paulo e Recife, mas me parece que a presença da universidade lá cria um universo muito singular que faz surgir nomes como um Lucas Sá [diretor do curta Balada para os Mortos (2016), que esteve na programação e venceu o prêmio Um Novo Olhar]”, completa. Segundo Maria, o que se vê na mostra é um lugar de abertura. “São filmes, feitos por estudantes, que são de uma qualidade incrível, mas que talvez não tenham acesso aos festivais mais mercadológicos. Aqui é um espaço aberto ao debate da estética universitária e isso estimula muito a juventude ao ato de fazer e pensar filmes. Vários festivais dialogam muito com o público jovem, mas o MOV tem essa potência de falar de igual pra igual. A direção artística tem profissionais recém-formados e a curadoria convida estudantes de cinema para construir a programação”, conta.

POR UM ESPAÇO DE CINEMA MAIS DEMOCRÁTICO

Como atrações inéditas desse ano a organização trouxe dois longas-metragens que recaem sobre os exercícios políticos da militância estudantil. O documentário Ressurgentes: Uma Ação Direta (2014), da cineasta e professora de cinema da UnB Dácia Ibiapina, abriu o festival. No penúltimo dia do evento foi exibida a versão restaurada do clássico Cabra marcado para morrer (1984), de Eduardo Coutinho e com a produção, durante os anos 60, do Centro Popular de Cultura (CPC) da União Nacional de Estudantes. O festival também apresentou dois programas projetados ao ar livre no Parque Dona Lindu, que conversam com o público infantil chamados As Crianças e o mundo – produções criadas através de oficinas de cinema em escolas – e os Curtinhas Animados com animações de universitários.

Thaís, Txai, Amanda e Vinicius já se formaram, mas a fim de perdurar o contato do festival com a universidade convidaram estudantes da graduação de cinema para compor a equipe principal. Mayara Santana foi convidada para ser curadora e Juliana Soares para a assistência da programação coordenada por Txai. “A existência do MOV é muito importante porque dentro dos grandes festivais a competição entre o cinema universitário e o cinema de diretores veteranos não é muito justa. Se inserir dentro desse circuito é difícil. Os festivais universitários são um espaço mais democrático nesse sentido. Pra mim, como estudante foi super importante participar porque deu visão ampla sobre o que outros estudantes estão fazendo ao redor do mundo. Vi filmes que eu jamais veria antes, sabe? E aí, deu pra sacar que ao mesmo tempo em que é um cinema geralmente feito sem nenhuma grana, a variedade de linguagens, de temas e de estéticas é enorme”, conta Juliana para a CARDA. A seleção de curtas internacionais sob um perfil de assuntos mais universais exibiu documentários da mostra portuguesa DocLisboa e filmes premiados na mostra como The Girl from Kangbashi, de Yinon Beeri da Tel Aviv University de Israel e Zero – G, de Jannis Lenz, Filmakademie Wien, Áustria.

Thaís Vidal e Amanda Beça deram uma pausa na correria do festival entre a sala de cinema, a cabine de exibição e o saguão do São Luiz para conversar, na tarde da quinta-feira, dia 2 de fevereiro, com a Revista Cardamomo. Elas expressaram suas opiniões sobre o que é fazer cinema na universidade, como as salas de aula podem servir de fonte de inovação para o cinema e os modos de produção numa equipe feita de amigos e incentivada por um edital como o Fundo Pernambucano de Incentivo à Cultura (Funcultura PE). As duas contaram também sobre a ideia de consolidar uma mostra itinerante de cinema universitário, o Mov Circula, que pode ser convocado por qualquer cinéfilo em qualquer lugar do país através do e-mail movfilmfestival@gmail.com. Amanda, Thaís e, depois por telefone, Txai, ainda observaram as relações existentes entre estudantes e instituições de ensino no Brasil e no mundo. “Os filmes trazem a fagulha do atrito entre o universitário e o mundo, pistas de quais são os conflitos que os realizadores dessa geração enfrentam”, reflete Txai. Confira:

No primeiro andar do Cinema São Luiz Amanda e Thaís conversaram com a CARDA (Fotografia: Úrsula Freira especial para a Revista Cardamomo)

No primeiro andar do Cinema São Luiz, Amanda e Thaís conversaram com a CARDA (Fotografia: Úrsula Freire especial para a Revista Cardamomo)

REVISTA CARDAMOMO – Por que um longa político como Ressurgentes [um filme que mostra a visão e o cotidiano de militantes brasilienses em protestos entre os anos de 2005 e 2013] para abrir a terceira edição do MOV?

AMANDA BEÇA – Ressurgentes veio muito de uma necessidade da gente de querer trazer novas coisas paro o MOV e da nossa vontade enquanto um festival de cinema universitário de se integrar com essa movimentação política que estava rolando no país. A gente viu nesse filme, especificamente, uma ressonância de um movimento estudantil desde 2013 que pode ser considerada um dos fatores de origem das atuais movimentações nas universidades e do ano passado, quando rolaram várias ocupações por causa da PEC 241 e da reforma do ensino médio. Ressurgentes é um filme que aborda uma resistência de um movimento estudantil.

THAÍS VIDAL – A gente sempre discute o que é o cinema universitário, desde a primeira edição. Nesse ano a gente abriu a pergunta para os inscritos e vieram respostas no sentido do cinema de militância. Ressurgentes traz essa relação da universidade como um espaço de crítica e por meio do formato cinema. A gente tentou trazer para o espaço de debate do festival o momento político da gente. Através do filme a gente consegue se posicionar enquanto festival, assim como tantos outros filmes que estão na programação.

CARDA Como vocês mencionaram, houve essa indagação por parte do festival aos inscritos sobre o que seria fazer cinema universitário. Mas para vocês: o que é fazer cinema na universidade? 

AMANDA – Eu que vim do curso de cinema, vejo a universidade como um lugar onde você tá se descobrindo ainda e abre seus olhos para novas possibilidades de existência. Possibilidades que você quando era mais jovem não atentava muito. Fazer cinema universitário é também se conhecer, conhecer o mundo e fazer as experimentações enquanto esse processo de amadurecimento pessoal e profissional tá rolando. É produzir uma obra porque tá com muita vontade de fazer, mesmo que não exista orçamento. Ser um festival universitário é um lugar de encontrar pessoas que estão começando ou querem começar uma carreira. É lançar essas pessoas, elas existem.

Amanda Beça, que acumula as atividades de curadora e coordenadora técnica, na cabine de exibição do Cinema São Luiz. (Fotografia: Úrsula Freire especial para a Revista Cardamomo)

Amanda Beça, que acumula as atividades de curadora e coordenadora técnica, na cabine de exibição do Cinema São Luiz. (Fotografia: Úrsula Freire especial para a Revista Cardamomo)

TXAI FERRAZ –  Uma certa juventude gera um novo olhar, de alguém que ainda está em formação. Os filmes trazem a fagulha do atrito entre o universitário e o mundo, pistas de quais os conflitos do que os realizadores dessa geração enfrentam. O cinema universitário é um termo novo. Antes de haver um curso de cinema na UFPE existiam pessoas que faziam filmes com grupos da universidade [como por exemplo os cineastas Marcelo Pedroso e Mascaro que eram do curso de comunicação e montaram a produtora Símio Filmes], mas não sei se eles davam esse nome para o que estavam fazendo. Esse termo começa a aparecer a partir dos anos 90. Os festivais voltados a esse cinema têm no máximo 20 anos. O mais velho é o FBCU [Festival Brasileiro de Cinema Universitário], do Rio de Janeiro. O que eu noto é que a maioria desses festivais não funciona para receber filmes que foram feitos pra serem passados numa sala de aula, mas para serem espaços para esse cinema feito por pessoas da universidade. Então, daí a gente pode pensar que o cinema feito na universidade é muito diversificado.

THAÍS – A gente tá falando sobre um processo criativo. A criatividade não é dada pela universidade. A intenção e a ideia não vão estar necessariamente atreladas a uma burocratização dentro da universidade. É um filme. Isso de ser um filme universitário é uma segmentação. É importante fazê-la porque, justamente, a ideia do MOV é ter um espaço para esses filmes que vêm das universidades. Mas eles são, antes de tudo, filmes.

CARDA – Vocês acreditam que realmente existe ou existiu preconceito com o cinema universitário por parte, por exemplo, do mercado, ou isso está mudando?

TXAI – Há uma indisposição e alguns conflitos de geração entre os profissionais. É um pouco confuso. As pessoas ainda desconhecem que o cinema universitário também pode ser uma produção que passa em outros festivais. Algumas produções que estão no MOV acabaram de ser exibidas na mostra Tiradentes. O MOV vem pra quebrar essa barreira. O Brasil tem vivido um contexto da virada do digital. Os equipamentos digitais eram tidos como algo amador. A nova cena de câmeras mais leves tá sendo legitimada numa crítica independente e tá muito ligada ao contexto de produção universitária. Isso abre espaço para os filmes em eventos fora do rótulo de universidade. Antes havia, mesmo, uma dificuldade de exibição na época da película, porque os eventos não tinham o equipamento necessário para exibir um VHS, um digital, mais acessíveis para os estudantes. E quando se fala em cinema universitário pode se pensar num filme amador, com modo de produção muito precário. Não é que isso seja uma inverdade, mas eu vejo essas características de amador e precário como positivas. Elas podem instigar uma inventividade maior e fazer com que a gente aprenda, por exemplo, a lidar com cronogramas de gravação de filme muito rápidos. Eu acho que essas fraquezas podem acabar sendo a superação dos filmes.

CARDA – Vocês todos se formaram na mesma universidade. Thaís Vidal é a única que não é formada em audiovisual. É formada em jornalismo, mas atua como produtora de cinema. Como foi esse encontro de três cineastas e uma produtora, jornalista de formação? Como vocês viram que essa união poderia dar certo?

(Fotografia: Úrsula Freire especial para a Revista Cardamomo)

(Fotografia: Úrsula Freire especial para a Revista Cardamomo)

THAÍS – Quando eu entrei no curso de jornalismo, a gente se encontrou no CAC (Centro de Artes e Comunicação da UFPE). Cinema e jornalismo eram no mesmo horário e tínhamos amigos em comum, pessoas de cinema que já vinham de antes e tal. A gente fez um curso chamado Curta em Curso [em 2011]e foi quando a gente despertou a vontade de fazer cinema na universidade. Comecei a produzir vários projetos com a galera de cinema, nessa coisa de guerrilha mesmo, fazer cotinhas e as coisas acontecerem. A partir disso, a gente foi se relacionando, construindo amizades e parceria profissional. A ideia do MOV em si veio muito a partir da experiência da galera. Eles tiveram a oportunidade de participar do programa do Ciências sem Fronteiras. Viajaram para o exterior durante a graduação e observaram a relação das universidades fora do Brasil e como era produção dentro da universidade.

AMANDA – No Curta em Curso, a gente teve que produzir alguns filmes e aí a partir disso a gente já criou essa rede de contato. Depois, Txai teve a ideia de filmar um curta chamado De Novo Aqui, que inclusive já passou aqui no Cine São Luiz, e chamou Thaís e a galera pra produzir fora do ambiente da universidade. O MOV tem uma relação direta com o Ciências sem fronteiras. Pelo programa eu fui pra Alemanha [dentro da universidade Hochschule für Film und Fernsehen Konrad-Wolf Potsdam Babelsberg]e Vinícius e Txai foram para a França [na université Rennes II]. Encontramos várias pessoas estudando cinema, tanto dos países que a gente estava visitando, quanto também de outros países. Eu e eles tivemos experiências totalmente diferentes do Brasil e diferentes entre si na forma de encarar o cinema. Na Alemanha, os estudantes tinham uma visão muito mais profissional e técnica em relação ao que eles querem fazer, além da faculdade ser bem mais rica, ter mais recurso. A gente aqui no Brasil estuda cinema teórico e prático, lá só se estudava na prática. É claro que, no final das contas, se questionava muito a teoria dentro da criação prática. Se por exemplo, você quer fazer direção de fotografia, eu quero fazer montagem, Thaís queria fazer produção,  Thaís, eu e você passaríamos quatro anos estudando só a área do nosso interesse. Os trabalhos da universidade eram integrados entre pessoas que escolheram diferentes áreas, entendeu? Era uma outra maneira de se relacionar com a produção de cinema. Eu e os menino voltamos pra Recife com nossas experiências à flor da pele e Vinicius [Gouveia] teve essa ideia de fazer um festival de cinema universitário que convergisse todas as nossas experiências. A gente ficou, “Pô, os filmes feitos em cada país são tão diferentes, vamos fazer um festival internacional para enxergar o que está acontecendo e esses novos olhares”.

Três voltas, dirigido por Txai Ferraz e Vinicius Gouveia (Fotografia: Divulgação)

Três voltas, dirigido por Txai Ferraz e Vinicius Gouveia (Fotografia: Divulgação)

TXAI – Eu e Vinicius fomos para a mesma universidade pública na França e passamos um ano. Amanda na Alemanha teve a possibilidade de escolher uma área. Ela fez uma habilitação em montagem. Na França não era assim. A  estrutura da universidade e a qualidade de vida estudantil era muito boa, tinha uma midiateca maravilhosa, com filmes que a gente não encontraria aqui no Brasil. A universidade também incentivava produções dentro da instituição dando 650 euros e existia um cineclube muito atuante. Mas também deu pra quebrar o paradigma que o que vem de fora é sempre melhor. O ensino que a gente tem no Brasil em cinema não está devendo tanto ao que a gente encontrou na Europa. Os alunos tinham uma prática meio enrijecida, eles só podiam fazer certas cadeiras, não podiam escolher muito, os intercambistas é que tinham mais liberdade. Na França, eu e Vini dirigimos um curta chamado Três Voltas feito com imagem de arquivo da nossa viagem. O filme passou, em 2013, no festival universitário NOIA, de Fortaleza, que tem 16 anos de história. A gente ganhou melhor roteiro e filme e foi bom pra gente se inserir nesse circuito universitário. E em 2014 a gente fez parte do congresso nacional da SUA [a 8ª Semana Universitária Audiovisual]que foi sediado em Recife e nos conectou com muitos outros jovens interessados em dialogar sobre cinema.

THAÍS – Sobre essa questão sobre os outros países, é perceptível em muito filmes que têm vindo pro MOV, tanto nacionais e internacionais, modelos de produção diferentes vindos de cada uma das universidades. Na segunda edição em 2015, a gente trouxe alguns filmes de uma distribuidora alemã [Aug & Ohr Medien] e eles tinham vários trabalhos estudantis universitários. Lá acontece um modelo de produção e distribuição já dentro da universidade, algo que não acontece aqui. A gente tá construindo o tempo todo o que é o MOV e eu acho que é conhecendo essas experiências diferentes que a gente cresce.  Vendo os filmes a gente pode refletir, analisar e trocar informações sobre modelos de produção, de distribuição. O festival tem como papel principal e até social o da representatividade. Nessa edição a gente tá produzindo um livro, dentro do orçamento do MOV, que tem como tema Cinema e universidades. A gente convidou alguns professores de universidades do Brasil e eles escrevem sobre experiências de produção, de ensino, implementação de curso, vivência pessoal acadêmica. Quem tá coordenando é [o professor]Laécio Ricardo. Eu e Txai estamos produzindo o livro. O perfil da UFPE e de boa parte das universidades do Brasil é bem teórico. A gente também escreve um capítulo recordando toda a trajetória do MOV.

AMANDA – O cinema universitário também não é só a prática é também reflexão do cinema. E o MOV também quis trazer isso.

O MOV também trouxe oficinas de formação e rodas de diálogo como ""Cinema Universitário: Do Processo ao Produto" (Fotografia: Tiago Calazans/Divulgação)

O MOV também trouxe oficinas de formação e rodas de diálogo como a “Cinema Universitário: Do Processo ao Produto” (Fotografia: Tiago Calazans/Divulgação)

CARDA – Como é o modo de produção do MOV, a divisão de trabalhos?

THAÍS – Nós quatro, eu, Amanda, Txai e Vini, a gente pensa o festival junto todo ano, desde o projeto até a execução. Por isso que a gente assina a direção artística juntos. É um coisa bem horizontal para decidir quem a gente vai chamar pra curadoria, quais as estratégias, que tipo de representatividade a gente quer dentro do festival. Tomadas as decisões a gente se divide em funções. Eu faço a direção executiva, Vinicius faz a direção de produção, Txai faz a coordenação da programação, Amanda faz coordenação técnica e curadoria. Esse ano, eu e Txai também estamos na coordenação de produção do livro, como eu já falei. Porque eu tô fazendo mestrado e ele também. A pesquisa dele é sobre processos criativos dentro da universidade, a minha é sobre mercado. A gente chamou algumas pessoas para fazer parte da equipe como Juliana Soares [estudante de cinema da UFPE] para auxiliar Txai na programação, [a pesquisadora de cinema] Sabrina Tenório Luna para fazer a coordenação da curadoria e como curadores, além de Amanda, tem [o cineasta e integrante do coletivo Surto & Deslumbramento] André Antônio e [a estudante da UFPE e cineasta] Mayara Santana. Também tem Pedro Melo, nosso amigo que fica nas legendas, [a produtora] Julia Machado que tá fazendo a assistência de executivo. Ana Lu na fotografia e Tomaz [Alencar] na identidade visual e outros amigos.

AMANDA – O que eu sinto também da nossa maneira de produção é que todo mundo que tá no MOV, por mais que não seja mais universitário, foi dessa época na universidade. Tomaz, Ana lu, enfim. Sabrina é um pouco mais velha, mas ela é doutora, estava ensinando até o ano passado. E por isso a gente achou interessante chama-la para fazer a coordenação da curadoria.

THAÍS –  Quem trabalha com a gente é porque acredita no projeto. A gente não paga cachês maravilhosos. A gente paga o que cabe no orçamento que ganhamos pelo incentivo do Funcultura [cerca de R$90 mil]e não estoura. É esse o patrocínio que mantém o festival por três anos. A fraqueza de ser um festival novo, com recurso baixo, a impossibilidade de não conseguir passar o ano inteiro pensando nesse projeto, justamente porque ele não pode nos sustentar financeiramente, isso é recompensado pelas pessoas que gostam do festival e que estão com a gente. A gente percebe que o estado está não só apostando, mas investindo mesmo em algo que ele acredita e que a gente acredita.

Público do MOV no Cinema São Luiz (Fotografia: Tiago Calazans/Divulgação)

O público do MOV no Cinema São Luiz (Fotografia: Tiago Calazans/Divulgação)

CARDA – Agora que estão todos formados e não são mais estudantes, como isso influencia no MOV?

AMANDA – Olha, eu não sei se isso influencia diretamente no MOV. A gente sempre tá tentando conectar a galera da universidade com o MOV, por exemplo ter na curadoria Mayara Santana que é estudante de cinema e fez parte da curadoria, assistiu todos os filmes com a gente. É uma maneira de se conectar com o que está acontecendo na universidade de maneira geral, por mais que a gente esteja fora.

THAÍS – Uma coisa que me instiga muito no MOV é não perder o vínculo com a universidade em termos de profissionais que estão produzindo. Na Ponte [produtora de audiovisual fundada por Thaís junto à produtora Dora Amorim], a gente tem trabalhado com muitos realizadores diferentes daqui e de fora de Pernambuco. É importante que esse mercado, no qual a gente está gradativamente se inserindo, não perca conexão com os universitários. Ainda existe um vácuo entre a universidade e o mercado e que não necessariamente é responsabilidade da universidade. É muito do mercado que não abrange todo mundo dessa origem. O MOV pra mim tem esse papel quase que pessoal de não perder contato com o pensamento, os modos de produção que estão sendo criados e as inovações dos estudantes. Porque dentro do mercado, por mais que se inove, há uma replicação muito grande do modo de produção que tá associado aos editais, como o Funcultura, ao fundo setorial da Ancine, modelos muito arraigados a divisão de funções muito claras, sobre quem faz o quê, quem dirige e produz o quê. No cinema universitário nem sempre é assim.

AMANDA – Isso se quebra na universidade. Porque a hierarquia não está tão dada, né? Quando você tá fazendo um filme com seus amigos essa hierarquia se dilui um pouco.

THAÍS – Tanto que é o que a gente tenta refletir nos prêmios que a gente dá no MOV que não são prêmios técnicos [as premiações levam títulos subjetivos como Criação de Atmosfera e prestigiam o resultado do filme como um todo através da interação de sua equipe]. É isso que atende a produção universitária. Principalmente a produção universitária nacional onde as funções se misturam muito.

CARDA – O MOV, para acontecer, se inspira em outros festivais?

AMANDA – A gente se inspira no Janela de Cinema, porque não tem como não. Eu, Vinicius e Thaís integramos a equipe do Janela. Ele está muito ligado ao modo de fazer festival de outros festivais do mundo e ele aplica aqui. É uma visão mais diversificada do cinema. Na Alemanha eu também participei de um festival que era da universidade que eu estava.

TXAI – Eu, pessoalmente, trabalhei, na França, num festival dentro da universidade chamado Travelling [- Rennes Int’l Film Festival]. Todo ano ele é temático sobre um país. Em 2014, o Brasil foi o escolhido. Eu participei da pré-produção e como eu falava português e era o único brasileiro me envolvi muito com a programação, negociando filmes. Foi um trabalho que influenciou muito o MOV, principalmente mostrando como a internet conseguia mobilizar alunos do país.

CARDA – A curadoria contou com quatro pessoas. Eu vi uma entrevista recente com uma curadora de Tiradentes, que ela diz que sentiu informalmente que uma das suas funções, enquanto única mulher daquela equipe curatorial, era o de recusar representações equivocadas, preconceituosas e ultrapassadas do universo feminino entre os filme inscritos. Eu fiquei pensando se também existe uma função incorporada por cada um de vocês. Vocês se dividem para fazer a curadoria?

AMANDA – Talvez cada um incorpore uma função. Eu gostaria de frisar que a curadoria muda a cada edição. Esse ano a gente teve um olhar mais cuidadoso quanto a quem escolher. Por exemplo, Mayara é uma mulher negra, André é um homem gay, eu sou lésbica e Sabrina é uma mulher hetero. Todos têm vivências muito distintas e de certa forma veem com um olhar mais crítico essa forma mainstream de ver o mundo, normalmente sempre feita através do olhar masculino hetero e branco. Então, a gente se instigava muito com filmes que quebravam paradigmas. Por exemplo, a gente trouxe o filme Deus que fala de uma mulher negra e solteira. Nos guiamos muito através do que os filmes poderiam levantar de discussões. Tem um filme ou outro que talvez seja muito bom, mas que não levanta uma questão tão pertinente atualmente na sociedade.

Detalhe de uma das salas da cabine de exibição do São Luiz, onde a équipe técnica do MOV ficou entre os dias 31 de janeiro e 5 de fevereiro de 2017. É a primeira vez que o evento acontece no começo do ano (Fotografia: Úrsula Freire especial para a Revista Cardamomo)

Detalhe de uma das salas da cabine de exibição do São Luiz, onde a équipe técnica do MOV ficou entre os dias 31 de janeiro e 4 de fevereiro de 2017. É a primeira vez que o evento acontece no começo do ano (Fotografia: Úrsula Freire especial para a Revista Cardamomo)

CARDA – Vocês conseguem perceber um perfil ou uma tendência no cinema universitário nacional e internacional, pelo menos durante esse ano?

AMANDA – Não somente os filmes escolhidos, mas todos os filmes que chegaram estão próximos da ideia de quebrar barreiras, de estar a par de temas como a LGBTfobia ou o racismo. Claro ainda existem filmes muito quadradinhos, esses chegam demais.

THAÍS – Eu sinto nessas três edições, a tendência de falar sobre temas emergentes. Sinto isso mais fortemente no cinema nacional. Os internacionais tratam de coisas mais universais e até alegóricas.

AMANDA –   Na categoria internacional tem muito mais filmes europeus e americanos. Então, é uma visão ainda muito eurocêntrica. Uma visão do civilizado. Tem os filmes da América Latina, mas não tem muitos filmes da África, Ásia. Tem uns ou outros. E é uma coisa que a gente vem tentando conquistar. Esse ano tem um da África do Sul [Never a next train, de Devon Delmar, da University of Cape Town].

THAÍS – A visão eurocêntrica é bem diferente da brasileira e da latino-americana.

CARDA – Numa entrevista que Thaís deu para o programa Pausa pro Café, do Canal Brasil, ela falou sobre uma dificuldade em acessar a América Latina. Por que isso?

THAÍS – Tá dentro dessa ideia de que a gente é muito eurocêntrico em termos de cinema. A Europa domina as referências de cinema europeu fora e dentro da universidade. Quem ainda carimba a credibilidade dos filmes são os festivais europeus, então isso é o que tá no mercado e isso se reflete em todas as esferas da produção de cinema. A lacuna com a América Latina é muito grande em todas as áreas. Há uma aproximação grande de realidade política e social entre os países latino-americanos. Isso se reflete no modelo de produção técnico e temático. Eu acho que esse é um perfil do cinema como um todo, não necessariamente o cinema universitário. Nós vimos alguns filmes colombianos para tentar trazer, acabou que a gente não trouxe, mas dava para perceber que tinha uma realidade muito próxima do Brasil com temas atuais e de militância contra as opressões. Não é que a gente tenha que deixar a Europa de lado, porém é preciso expandir mais.

CARDA – Vocês costumam viajar para ver filmes em outras cidades, ou países ou é só por inscrição?

AMANDA – Esse ano a inscrição foi feita por meio do FilmFreeway, mas antes não tinha isso. Daí a gente fazia por uma publicidade de guerrilha mesmo, de pedir para as universidades divulgarem as inscrições abertas do MOV, mandar e-mails para as coordenações que repassassem aos alunos e pelo Facebook. Pra o âmbito internacional, a gente tinha uma lista de festivais universitários mundo afora e aí saía olhando o catálogo, que sempre têm os contatos dos realizadores, convidando o pessoal e apresentando a nossa proposta. Um trabalho de formiguinha mesmo.

CARDA – Vocês estão com um projeto muito interessante chamado Mov Circula – que já aconteceu ano passado em Belo Horizonte – onde vocês têm a intenção de montar festivais itinerantes em outros lugares fora do Recife. Como acontecerá esse projeto e como ele se articula com o MOV festival?

THAÍS – A gente fica muito feliz com as sessões no festival, mas é algo que aparece uma vez aqui e depois passa. A gente quer circular. Rolou uma versão meio mambembe em BH, até que a gente formalizou ano passado e fez a sessão no Cine Olinda também. A partir de agora a gente vai fazer uma coisa mais estratégica de buscar espaços para cineclubes, ocupação, festival. A ideia é fazer um circuito de fato. Na inscrição a gente pede autorização para os filmes que são exibidos pra poder passa-los em circuitos sem fins lucrativos. O objetivo é socializar o filme. Os filmes podem ser de qualquer ano. Seria muito bom se a gente pudesse ter um acervo mais acessível dos filmes que são exibidos e premiados. No futuro a gente pensa em disponibilizar isso.

AMANDA – Tem gente que autoriza e gente que não. A maioria diz sim, mas algumas pessoas têm estratégias com seus filmes. Kbela [filme de 2015, de Yasmin Thayná e eleito o melhor filme da segunda edição do MOV], por exemplo, botou “não”. Eu acho que ela tem uma ideia certa do que vai fazer com os direitos autorais.

THAÍS – E o filme tá fazendo uma trajetória foda.

CARDA – Pela primeira vez o MOV abre um espaço voltado ao público infantil, o que inclui a ideia de exibir, no Parque Dona Lindu, filmes feitos pelas próprias crianças em oficinas. Me falem um pouco sobre essa ideia.

THAÍS – Essa ideia foi de Txai. O livro que a gente tá produzindo traz [a pesquisadora]Mariana Porto escrevendo um texto sobre a Escola Engenho [responsável pela oficina que criou o filme A Paz Lunática]. Todos os textos do livro são da universidade, mas esse de Mariana é um projeto de educação através do cinema. Txai se instigou para ampliar essa relação cinema e educação, para além da universidade e da academia.

AMANDA – Os filmes feitos por crianças não são necessariamente feito para crianças. As ideias que vêm da cabeça delas, crianças de no máximo uns dez anos, são muito imprevisíveis. É uma sessão bem legal!

TXAI – A gente quis olhar para alunos de formação que de alguma forma fazem filmes instigados por uma Ong ou por uma oficina e dessa forma foi muito natural pensar os filmes que são feitos por alunos que não têm as idades convencionais dos realizadores universitários. O Dona Lindu é um lugar onde as crianças já circulam, então propomos uma sessão chamada As Crianças e o Mundo feita por crianças. Isso quase como se fosse o filme universitário das crianças, como uma analogia muito simples. A gente também tem outra sessão que se chama Curtinhas Animados. Animações feitas por universitários mesmo. A gente investiu nesse tipo de cinema acreditando que é uma técnica que atrai visualmente as crianças e ao mesmo tempo sofre uma carência. Como é muito caro, o cinema universitário brasileiro não se volta muito pra animação.

THAÍS – Os longas e os infantis foram as novidades desse MOV de 2017. A gente tá muito feliz com o resultado da programação desse ano, mas ainda não sabemos se iremos manter esse formato. A ideia é que a cada edição apareçam novas ideias para o público.

(Fotografia: Úrsula Freire especial para a Revista Cardamomo)

(Fotografia: Úrsula Freire especial para a Revista Cardamomo)

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Sobre o autor

Clarissa Macau

Idealizadora, jornalista, editora e produtora da Revista Cardamomo. Formada em comunicação pela Universidade Católica de Pernambuco.