Carta a Borges, por Cláudia Barral

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São Paulo, 18 de novembro de 2015. 

Querido Borges,

Eu acredito nos sonhos. Acho que os sonhos são, como disse Freud, a realização de um desejo infantil reeditado. São também um punhado de coisas que não sabemos. Uma noite, há muito tempo, sonhei contigo. Vou te contar porque é uma história cheia de mistérios. Eu devia ter uns quatorze anos e sabia muito pouco de sua vida. No meu sonho, eu estava numa biblioteca imensa e aparecia um senhor que, entre os livros, me dizia:

“Para Leonor, como sempre, como tudo”.

Quando acordei, tive a impressão de que era você. Tive a impressão que a frase era uma dedicatória. Fui dar uma olhada nas dedicatórias de seus livros que meus pais tinham em casa. Nenhuma menção a Leonor.

Muitos anos mais tarde, estive em Buenos Aires. Comprei vários livros a seu respeito. Gosto muito de saber como a vida e a literatura de alguém se entrelaçam. Pois foi lendo uma dessas biografias que descobri que o nome da mulher que te sonhou pela primeira vez e, por tê-lo sonhado, o pariu e, por tê-lo parido, o acompanhou durante seus vinte anos de cegueira e por todos os outros, a mulher a quem você devia a vida e o que mais importasse, era a sua mãe, Leonor.

Mais tarde, li o senhor dizendo que a sua ideia de paraíso era uma biblioteca.

Eu gosto de pensar que eu sonhei com o seu paraíso. Você, o homem que me convenceu de que não existe a morte. Eu gosto de pensar que, da mesma forma que a sua Buenos Aires é a cidade nunca visitada, o seu verdadeiro livro, o único que permanece seu, é justamente o livro que nunca foi escrito, o livro cuja dedicatória, entre os labirintos do sono, você me segredou.

Se os sonhos forem uma parte do mistério que a todos envolve, só você pode saber o sentido que há por trás dessa história, já que atravessou o grande portal.

Se os sonhos forem uma reedição de um desejo infantil, me vejo menina desejando ter um avô a quem se pode recorrer como a uma bússola, desejando ter uma mãe a quem possa dedicar poemas, desejando ter alguém a quem possa mandar recados. Até hoje, recorro a você quando me sinto perdida.

Abraços,

Cláudia*

Fotografia: Eduardo Comesaña

Fotografia: Eduardo Comesaña

*Cláudia Barral é escritora e psicanalista. Publicações em poesia incluem O Coração da Baleia (Ed. P55, 2011) e Primavera em Vão (Ed. Penalux, 2015). Suas peças de teatro contam com numerosas premiações e montagens, no Brasil e em países como Alemanha, Itália, Portugal e Peru.

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Sobre o autor

Revista de cultura e amenidades aberta para qualquer papo cabeça ou conversa cotidiana e suas sugestões. Bem-vindo e boa leitura!

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