As emoções variadas de um dia no São Luiz

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Por Fillipe Vilar

Segunda noite no cinema mais tradicional da cidade teve curtas, bons longas e arrastão.

logo-2016No último domingo (30), na programação do Cinema São Luiz, houve o início da competição de curtas-metragens e continuidade da exibição dos longas. Antes, foi exibido em sessão especial o filme Cinema Novo, de Eryk Rocha, que organiza a história do movimento liderado pelo pai de Eryk, Glauber Rocha, de maneira cíclica, com notáveis fases de ascensão, estabelecimento, e fim. A reunião de trechos, abordando aspectos que lidam com diversos temas sociais e artísticos sensíveis ainda hoje  – questões de gênero, mercado e público, política e resistência, a relação com o cinema estrangeiro – monta um panorama do próprio cinema brasileiro como um todo, a partir do recorte que faz. Chamado por Eryk de “filme montagem”, a edição de imagens é inspirada no construtivismo russo (há, em meio aos trechos de filmes brasileiros, a famosa cena da Escadaria de Odessa, de O Encouraçado Potemkin), dialogando com trechos de filmes e entrevistas de época.

A primeira leva de curtas faz parte do Programa 1 – Mudanças de Eixo. Foram exibidos Dia de Pagamento (Fabiana Moraes, 28’), Nunca é noite no mapa (Ernesto de Carvalho, 6’), Estado Itinerante (Ana Carolina Soares, 25’) e Heterônimo (Vitor Medeiros, 25’). Todos eles têm em comum o impulso de esconder algumas coisas para mostrar outras. De alguma forma, lidam com um certo mistério, seja de produção, seja narrativo.

Dia de Pagamento conta a história de uma localidade, Rio da Barra, distrito de Sertânia, no interior de Pernambuco. O lugar cresceu economicamente após a chegada das obras da transposição do São Francisco. O curta lida com diversos aspectos disso, de forma complementar: o mesmo progresso que trouxe água, bens de consumo e oportunidades de emprego, trouxe corrupção de menores e exploração de mão-de-obra. Dia de Pagamento tem um caráter jornalístico, acerta na escolha da metalinguagem, mostrando a relação dos protagonistas com a equipe de filmagem, para dar um tom mais cinematográfico – apesar da aparência de filme para a televisão que ele tem, seja por pequenas dramatizações, seja por uma exibição de dados quase infográfica. Algumas cenas, que funcionaram como cômicas para o público do São Luiz, podem ser interpretadas como “rir de” e não “rir com”. Talvez se a estadia da equipe em Rio da Barra fosse mais longa, os depoimentos parecessem mais naturais. Mesmo assim, o talento de Fabiana Moraes para encontrar bons personagens aparece.

Segundo o diretor de Nunca é noite no mapa, Ernesto de Carvalho, a sociedade é atravessada por entidades invisíveis, sejam conceituais, sejam físicas. As corporações, como o Facebook, Monsanto, Bayer e o Google são exemplos de presenças que, de forma mais ou menos agressiva, moldam a forma do mundo, de uma maneira útil para as classes privilegiadas. A paranoia de viver sob uma vigilância constante vinda de uma entidade impessoal é trabalhada no curta através de um texto, narrado por Ernesto, com um tom quase poético, de crônica. O filme monta seu cenários através de imagens chocantes, colhidas no próprio Google Street View, e fotos feitas pelo diretor ao encontrar, por acaso, um carro do Google tentando entrar na rua de sua casa. A concisão do texto ajuda no entendimento da mensagem pelo público. Ernesto, co-diretor do documentário Martírio, se mostra como um bom narrador de temas engajados e de questionamento sociológico.

O argumento de Heterônimo poderia ser o de um episódio do seriado Catfish, onde são mostrados casos de pessoas que são iludidas na internet. É exatamente essa a história do curta: uma estudante vive um romance online com um estrangeiro. Há algumas incoerências lógicas na narrativa, porém mais detalhes sobre isso acabaria estragando o filme para quem não viu. Há uma cena honesta de sexo virtual que demonstrou entrega por partes dos envolvidos na produção. O início: uma sereia, metáfora visual, presa em uma piscina por uma membrana transparente, é o momento mais interessante desse curta que, por mais que tenha havido esforço por parte dos atores, em especial a protagonista, poderia ter desenvolvido melhor o seu argumento. Destaque para a trilha sonora, repleta de canções do filme A Pequena Sereia.

A primeira vez que Belo Horizonte aparece no dia como cenário é no curta de Ana Carolina Soares – mais tarde, seria a ambientação do longa A Cidade Onde Envelheço, de Marília Rocha, exibido para a competição de longas. Estado Itinerante lida com a questão da violência doméstica através de detalhes que não são necessariamente o foco dos diálogos. Uma cobradora de ônibus passa por dramas pessoais ligados à violência e tenta encontrar apoio nas amizades que fez dentro da empresa onde trabalha: outras cobradoras, periféricas, com estilos de vida parecidos com os seu. As blusas de manga longa para esconder os hematomas, a relação com a cadelinha no quintal e o medo de entrar em casa ajudam a montar, dentro da cabeça do espectador, que tipo de problema a protagonista tem de enfrentar. Com cenas de uma tensão vinda muitas vezes do extracampo, o curta de Ana Carolina Soares foi, na opinião deste redator, o melhor dessa primeira leva.

A Cidade Onde Envelheço, longa de Marília Rocha, grande vencedor do Festival de Brasília, foi o filme exibido para a mostra competitiva. Apresenta Teresa, portuguesa de Lisboa que sai de sua terra natal para tentar a vida em Belo Horizonte. Lá, encontra uma amiga, Francisca, também portuguesa, com quem combina de dividir o apartamento. As duas são personagens complementares: Teresa: expansiva, risonha e criadora de laços afetivos e possesivos. Francisca: desprendida, mais contida e irritável. Os diálogos, bem humorados e irônicos, parecem naturais, e conseguiram divertir o público. A história não se perde em nenhum momento e cria suas tensão mais pelos aspectos não vistos do que pelo que está sendo exibido. A riqueza de personagens também ajuda a cativar. Merece uma crítica mais longa, que entrará no ar em breve.

Os dois clássicos do dia não foram vistos por mim, por motivos diferentes. O da manhã, o filme da Disney Pinóquio, por impossibilidade física, o de encerramento, Hair, de Milos Forman, por receio do arrastão que tomou conta do centro do Recife na noite de ontem. O debate com a diretora Marília Rocha praticamente não aconteceu, graças à tensão nas ruas da cidade, o que é lamentável. Muita polícia na rua, pancadaria. Seria mais irônico ainda se, em vez do alegre musical de Forman, isso tivesse ocorrido na noite de exibição de Robocop.

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Sobre o autor

Fillipe Vilar

Fillipe Vilar é jornalista. É podcaster no Máquina Mistério (maquinamisterio.wordpress.com) e cineclubista no CineMáquina (facebook.com/cineclubecinemaquina), na Faculdade Boa Viagem. Colaborador da Revista Cardamomo, também escreve sobre cinema para o blog Cinegorfo e para o site Cineplayers.