A orquestra das máquinas do “Brasil S/A”

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Por Clarissa Macau

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Há quem diga – a exemplo do filósofo alemão Johann GottFried Herder – que a música tem o poder de demonstrar o caráter interior de uma nação e seus habitantes. Exposta por meio de partituras musicais que evocam grandiosidade, a sátira cinematográfica Brasil S/A, filme dirigido pelo pernambucano Marcelo Pedroso, apresenta de forma fantasiosa um país da América Latina que atinge uma estranha ordem e o seu progresso após se confirmar como uma corporação empresarial. A exaltação caminha através dos topos de apáticos prédios de cinquenta andares testemunhando florestas, mangues, canaviais aprendendo a conviver com invasores destrutivos – os personagens-máquinas incorporados por tratores e carros. No meio da paisagem, assistimos a um cortador de cana, que – ao ver sua profissão se extinguir sob tecnologias carnívoras – decide se engajar “na sua primeira missão espacial”.

No longa-metragem sem diálogos, a trilha sonora composta por Mateus Alves, em mais de vinte minutos de músicas de concerto, torna-se a voz dos seres dessa utopia construída em esquetes, que delineiam o espírito ambicioso de um povo brasileiro vivendo um sonho forjado, ignorando defeitos sociais, diante da vontade de já ser o que não é – um lugar perfeito. Pedroso, nesse filme, derrama descrença sobre essa visão. A estética fílmica brinca, justamente, com a ideia de perfeição transmitida pelo marketing audiovisual dos horários políticos eleitorais seja da situação governista, de seus adversários ou das propagandas institucionais, que sempre defendem imagens otimistas – e “clean” – para convencer os cidadãos de que está tudo bem no recinto e resguardar o poder conquistado em outras eleições.

“Eu percebi o Brasil S/A como uma espécie de grande ópera. Cada personagem deveria ter um tema. A ideia das máquinas foi o norte principal, daí eu fui criando e correlacionando as outras peças. Pedroso me disse que queria algo que soasse grandiloquente e virtuoso, a ideia de um lugar bem sucedido”, diz Mateus. O longa filmado, entre 2012 e 2013 e lançado nos festivais em 2014, época em que o Brasil, para além do cinema, atingiria o sexto lugar no ranking de maiores economias do mundo, mostrava que a maioria de seus habitantes não esperava o que estava por vir. Hoje, o músico diz: “É engraçado porque o filme de Pedroso previa certas coisas. É como se ele fosse pós-apocalíptico. A gente tá está num presente de muita incerteza”, conta Mateus se referindo às turbulências sofridas, nos últimos anos, pelo país antes tão próspero, agora em recessão e com a presença de um golpe que culminou na tentativa de impeachment da presidenta Dilma Rousseff, atualmente em curso.

Para ajudar a contar história dessa ambígua nação, Mateus sugeriu, antes mesmo de criar a trilha original, obras de grandes nomes da musicalidade clássica para servir de referência às cenas do filme. Assim como Pedroso satirizou, em seu ensaio, as imagens altamente plásticas da publicidade oficial do Estado, o compositor se inspirou nas composições de artistas como os alemães Johann Sebastian Bach (1685 – 1750),  Ludwig Van Beethoven (1770 – 1827) e o russo Piotr Llich Tchaikovsky (1840 – 1893). Ao oscilar por momentos de exaltação, leveza, decadência e uma superação de obstáculos suspeita, Mateus costura o progresso virtuoso de um herói – ou anti-herói, a depender do ponto de vista do espectador – chamado Brasil.

Assista abaixo entrevista especial com o trilheiro Mateus Alves:

A partir das partituras criadas para um formato mais erudito, ele também mostra elasticidade na seu modo de compor quando abarca duas músicas de viés pop: um rap e um baião. “Como eu conhecia muito a trilha, eu me utilizei de alguns temas de forma sutil.  Não fica claro, mas tudo tem a ver musicalmente”, diz à Cardamomo. Essa composição, feita em parceria com o americano Ryan Cockerham, o tecladista Pierre Leite e o DJ Renato da Mata, traz versos que falam sobre mulher e dinheiro embalando uma cena de embate tragicômico entre homens flanelinhas e um carro. “Para o baião eu chamei Julio Cesar Mendes, um dos maiores acordeonistas daqui de Recife. Eu mostrei a Marcha das Máquinas e ele improvisou em cima”, lembra.

Todas as músicas foram gravadas em um dia de domingo do ano de 2014. O Estúdio Carranca (PE) entrou como parceiro levando uma unidade móvel para captar as composições executadas por 25 integrantes da Orquestra sinfônica Jovem do Conservatório Pernambucano de Música, no Seminário da cidade de Olinda. O grupo original da Jovem, em inatividade desde 2013 por falta de recursos financeiros, deu lugar à nomeada, por Mateus e o maestro José Renato Accioly, como Cinemaorquestra de Pernambuco. Na estreia nacional do filme, ocorrida no histórico Cinema São Luiz, em agosto desse ano, a trilha sonora foi tocadas ao vivo para uma casa cheia. Mais de mil pessoas assistiram ao espetáculo.

A trilha de Brasil S/A foi premiada e debatida em diversos festivais de cinema brasileiros como o de Brasília e internacionais como a Berlinale, na Alemanha – terra de grande parte das referências da, ainda hoje, chamada música clássica. “Eu vejo o cinema como mais uma possibilidade para a música de concerto. É um nicho sempre estreito tanto no meio musical, quanto no cinema. Quando eu nomeei uma Cinemaorquestra Pernambuco foi para motivar, também, outros diretores a desejarem fazer uma trilha de orquestra. Não somente no Recife, mas no Brasil”, reflete Mateus.

Mateus Alves compôs trilha sonora que satiriza grandes referências da música clássica como Bach e Beethoven. Tudo isso para contar a história de um país quase do futuro chamado Brasil (Fotografia: Pedro Vasconcelos para Cardamomo)

Mateus Alves compôs trilha sonora que satiriza grandes referências da música clássica como Bach e Beethoven. Tudo isso para contar a história de um país quase do futuro. O longa-metragem Brasil S/A foi a segunda parceria entre Mateus e Pedroso, a primeira experiência foi o curta-metragem Em Trânsito  (Fotografia: Pedro Vasconcelos para Cardamomo)

Leia outras opiniões de Mateus Alves:

A TRILHA SONORA EM EQUIPE 

“Eu sempre gosto de me envolver com muitas pessoas. Para chegar num resultado interessantes de composição e execução existem várias etapas. As pessoas pensam que a trilha é estalar o dedo e está pronta. Não. Gravar é uma coisa, mixar é outra, tocar é outra  e compor é outra. É possível você fazer tudo só, como muitos fazem, até por questão de orçamento. Mas, eu, particularmente, acho interessante envolver todo mundo. Eu tenho o meu momento de estudo, chamo um amigo meu pra tocar, as pessoas já sabem como é meu trabalho. Eu me sinto satisfeito com um grupo de câmara com cinco,seis pessoas. Prefiro fugir de um trabalho muito individual.”

INÍCIO DA CARREIRA

“Eu comecei a minha relação mais forte com a música em 1996, quando eu aprendi violão tocando Raimundos, Geraldo Azevedo, Nirvana com os meninos que moravam no meu prédio. Meu pai é aficionado em música clássica. É um cara que tem uma coleção de mais de mil CD’s. Desde que eu era um bebê escutava Brahms, Bach, Beethoven, Mozart. Meu irmão, que é quatro anos mais velho que eu, também compositor de trilha para cinema, tem uma coleção enorme de música pop, música negra americana, jazz. Mas, eu nunca imaginei que música seria uma possibilidade profissional. Um pouco antes teve o movimento mangue. O primeiro show que eu fui na minha vida foi em 1994, para ver o Chico Science. Eu tinha 14 anos, ali eu disse: “Oxente, Recife é massa e eu não sabia”. Meu irmão brincava de ter bandas. Uma delas foi a Profiterólis. Existia um baixo elétrico na minha casa, aí ele perguntou “Quer tocar baixo na banda?”. Cheguei a estudar Ciências da Computação, depois física e aí entrei na licenciatura de música da Universidade Federal de Pernambucano. Na universidade aprendi a tocar o baixo acústico. Um ou dois anos depois abriu o teste para a Orquestra da Jovem. Sozinho eu fui começando a ouvir mais e me envolvendo com a composição. Nas bandas mais instrumentais que eu participei, Chambaril e Alhlev de Bossa, já fazia as composições dos temas.

Eu cheguei a fazer um curso de extensão na UFPB, um laboratório de composição – porque não existe nenhum curso do tipo no Recife –  mas precisava de algo para me aprimorar mais. Eu gravei um CD [Música de Câmara e Orquestral] antes de acabar a licenciatura com minha primeira peça orquestral e que me serviu de portfólio. Decidi ir para Londres e fui aprovado no Mestrado [em Composição da Royal College of Music]em 2011.”

AQUARIUS E A “JOVEM”

“Esse CD também foi executado pela ‘Jovem’. Três peças do álbum estão na trilha sonora do longa-metragem de Kléber Mendonça Filho, Aquarius. De repente, minha música está interagindo com [a atriz]Sônia Braga [risos]. Ele usa um vídeo que gravamos há alguns anos, inclusive Pedroso ajudou a filmar. Em Aquarius a personagem de Sônia assiste ao concerto.  É interessante porque eu já estava distanciado desse trabalho e é legal porque dá uma ressurgida na Orquestra sinfônica Jovem do Conservatório Pernambucano de Música, que está parada. O filme fala dessa coisa do Recife transformado num banheiro gigante, não só na questão urbanística, mas também na cultural que está sendo cada vez mais esquecida. A orquestra não está sem atividade à toa. Faz parte de um processo maior, de uma borracha sendo passada por cima de umas coisas que eu considero que têm uma importância educativa grande. A orquestra casa perfeitamente com a narrativa do filme. Um grupo sempre muito aberto, para além da música erudita. Sempre tocava com músicos como Dominguinhos e outras músicas populares e aí rolou esse desafio com o cinema. Infelizmente, no final de 2013 a orquestra parou por problemas de grana, o governo não conseguiu disponibilizar orçamento. Era um trabalho incrível. O que eu faço hoje eu só faço graças à minha experiência na orquestra. De outro modo, você vai compor para qual orquestra tocar? Tem um amigo meu, o Paulo Arruda, entre outros – a gente foi se desenvolvendo como compositor por causa da ‘Jovem’.”

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Sobre o autor

Clarissa Macau

Idealizadora, jornalista, editora e produtora da Revista Cardamomo. Formada em comunicação pela Universidade Católica de Pernambuco.