À margem da margem: a poesia eletrônica como efeito sincrônico da invenção literária

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Da poesia concreta aos dias de hoje: quais os lugares da poesia de invenção? Uma entrevista com o poeta, tradutor e designer André Vallias, e a busca das relações possíveis entre a vanguarda brasileira de meados do século XX e a guinada recente da poesia no contextos das novas tecnologias

Por Eduardo Gonçalves

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pois é: poesia. nos limites da linguagem, na porosidade entre signos e na ruptura com as instâncias fixas do verso: eterno REVER. Poesia em movimento contínuo que chega aos dias de hoje. Breve retrospecto: poemas que escorregam da página, que se lançam como corpos autônomos–transgressores, que rasuram os limites do livro em danças, saltos e gritos. Da recepção, vaias vivas e contestações “poesia?”, “poesia & etc”. A poesia concreta potencializou o verso, ideogramatizou a palavra e criou mundos possíveis para habitação do poema, no limite do verbal com o não-verbal, na construção e na produção de partículas sensivelmente partilhadas. E o leitor? Este passa de uma instância de recepção passiva para atuar como co-poeta, basta lembrarmos a viagem em linguagem que Augusto de Campos opera com seu linguaviagem: em vias de linguagem inventiva – e organizada pela sensibilidade leitora – o poema se constrói em variados caminhos, em múltiplas viagens. Décio Pignatari, marginalizado e ferozmente contestado por parte da crítica, apresenta seu lance de invenção com o organismo: em repetições e efeitos de zoom, o poema leva o seu leitor ao caminho da genuína ação verbivocovisual, ao momento de ampliação da fonte ao restar o gozo em gritos silenciosos, vertiginosos.

“Organismo”, poema de Décio Pignatari

“Organismo”, poema de Décio Pignatari

O fato é que, pós-tudo, o poema continuou a movimentar-se na esteira da invenção e a tríade noigandres (formada pelos poetas Haroldo de Campos e os já citados Décio Pignatari, Augusto de Campos, criadores da revista homônima [1952-1962] que lançava e discutia poemas concretos), toma-se aqui as contribuições de Haroldo em sua proesia, criou solo fértil ao momento de interface cada vez maior entre as linguagens, ainda que na incapacidade de dizer o que se quer: a poesia concreta lançou silenciosos dados de invenção que chegou aos dias de hoje, em também silenciosas atuações tecnológicas, basta olharmos a compilação Cinco poemas Concretos, que lança luz de movimento e som aos poemas que já saltavam na página como corpos em movimento, pois é: movimentos movimentam. Parece mesmo ser essa a nova marginalidade da produção literária, em caleidoscópio poético, de margem sincrônica, a fim de se levar em consideração os ganhos da vanguarda concreta e ampliá-los. Atenuado os limites entre as linguagens, o que se vê são poemas organizados em sites e antologias no ciberespaço, a exemplo da revista Errática, na libertação completa do livro enquanto corpo e da página enquanto fronteira. A poesia eletrônica, ou a ciberpoesia, instaura-se ao momento em que vivemos e se impõe como lugar de flerte contínuo com seu entorno de produção, em reivindicações que partem da linguagem – esta sendo a meta – para se chegar às problemáticas sociais mais amplas, mais recentes. São dois os caminhos de organização: aquele que prescinde do leitor para se organizar, para se corporificar, e aquele que se apresenta como quadros eletrônicos, ora estáveis em sua experimentação visual, ora em movimento incontroláveis que leva ao abismo da quase recusa: é necessário estar aberto ao novo que se quer sempre novo.

"Autômatos", André Vallias, 2016

“Autômatos”, André Vallias, 2016

Dois nomes, então – para melhor falar e me fazer entender com relação ao que vem a ser poesia eletrônica/ciberpoesia –, apresento: André Vallias e Augusto de Campos, ambos poetas, mas não só. São, sobretudo, continuadores de um projeto de interface entre os códigos, de atenuação entre os signos. Em Augusto vê-se o interesse em experimentar a experiência de sua obra na inserção do elemento eletrônico e, assim, pode-se apreciar os palimpséstico Greve, que já no impresso se apresenta como um poema sob o poema, com a fonte em vermelho, saltando aos olhos como forma de chamamento ao leitor para uma única palavra, que também remente ao papel do poeta em estado de greve, à luta na/pela palavra em grito grifo grafo gravo. Mais que uma contemporanização, ou experimentação atrelada ao código digital, o que faz Augusto é democratizar sua obra, abri-la ao grande público ao lança-la passível de acesso em links, em esbarros na navegação, como força poética atrelada e, ao mesmo tempo, desatrelada ao livro. Outros poemas, a exemplo do cidade, são lançados ao ciberespaço e ganham oralizações e organizações visuais que complexificam ainda mais o lugar do verbo (e do não verbo) para a construção da poesia. Para além de transcriar sua própria poesia, Augusto de Campos segue firme em lançamentos inéditos, poemas que falam sobre o lugar da não saída, a construção da poesia recente em outros e a negação – esta temática que sempre rasurou a obra do ex-poeta – do elemento poético, ou dos elementos catalisadores da poesia: desafia, em estrada muito comprida.

"Sem saída", Augusto de Campos, 2003

“Sem saída”, Augusto de Campos, 2003

CÓDIGOS COMPUTACIONAIS E LITERATURA

Na estrada sem saída, e da experimentação, também caminha André Vallias que destaca-se por fazer uso genuíno do código computacional para atuar em literatura, recuperando o conceito de poeta designer e assumindo a perspectiva do trânsito intersemiótico para a produção de linguagem literária. Seu site, íntegro em linguagens que relaciona o fazer literário ao uso das novas tecnologias, lança aos olhares interatores poemas intersemióticos que estão em estreita relação com o seu entorno social e com questões pulsantes no que diz respeito ao fazer literário. É assim, então, que André Vallias atua no ciberespaço, integrando canção, procedimentos visuais e movimentos em sua literatura. Compilando suas obras no campo de seu site e da revista Errática, o trabalho do poeta é, também, de contribuição para a democratização da produção literária e para uma ressignificação da concepção de poesia, levando a crítica a se desinstrumentalizar para o alcance sensível das potências por ele partilhadas. São obras que exigem olhos e ouvidos abertos e dispostos à interação e à manipulação. Nele, o poema é feito e desfeito a partir do modo como o leitor mobiliza as setas e os caminhos possíveis apresentados pela página não-impressa, na possibilidade de se navegar naquilo que introduz o poema, uma vez que a efetividade da leitura se dá por meio dessa interação leitora. Ciberpoema em espiral, a obra de Vallias é posta como diagrama aberto que se fecha em virtude dos toques entre as suas partes, recuperando – inclusive – a raiz da palavra poeta, que Décio Pignatari apresenta em suas atuações poéticas: aquele que cria linguagens.

Num exemplo de recuperação crítica do passado e de atualização da tônica concreta do fazer literário, Vallias apresenta o poema 450|RIO, que é construído ao modo da relação entre uma palavra enquanto radical: rio, a exemplo do Cidade, de Augusto de Campos. Além de se organizar como uma antipublicidade do cosmopolitismo dos grandes centros urbanos, uma vez que as palavras que são formadas, na junção do radical para uma palavra nova, evidenciam em seus movimentos a luta diária de se viver nas condições de cidades caóticas: AtentáRIO, LavatóRIO, DesbRIO.

"450 Rio", André Vallias, 2016

450 Rio“(aperte no link para ver esse trabalho que integra sentidos), André Vallias, 2016

Múltiplas são as possibilidade de relação entre rio e os sufixos, na atuação de uma palavra nova, o que nos leva a crer num trabalho integrado entre os sentidos apontados pelo poema e o código computacional, ainda mais quando aquele só se faz possível por esse: ora na relação visual, ora na articulação entre som-imagem-palavra. Na articulação da melodia, que não diz a palavra, o poema é formado e aponta para a dupla relação verbivocovisual: um ser em linguagem que se atualiza a cada clique e que atualiza – em cada clique – uma poética calcada na experimentação.

A Revista Cardamomo conversou por e-mail com o poeta, tradutor e designer André Vallias sobre suas obras recentes – 450|RIO, Autômatos, De verso/The verse –,  os seus primeiros contatos com computadores e softwares e a esteira da experimentação: ora guiando olhares para um caminho desapegado das inflexibilidades críticas, ora lançando mão de conceitos e apreciações que renovam o modo de pensar e de apreciar uma produção que se quer sempre nova. Uma entre-vista, na verdade, com o laconismo e abreviações que requer o ciberespaço, André Vallias abre pontos significativos que podem ser explorados pelos leitores de poesia, na renovação dos valores literários, a um click de distância. Confira:

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REVISTA CARDAMOMO – Seu trabalho no campo da criação artística é amplo, ora como tradutor, ora como poeta/designer da linguagem. Como acontece a interação entre as atuações?

ANDRÉ VALLIAS – Naturalmente, porque, no fundo, é tudo a mesma coisa: “poetar é traduzir” já dizia Novalis, reiterado no século XX por Marina Tsvetáeva. E, no entanto, a atividade da tradução poética implica num mergulho na criação de um outro poeta, e numa outra língua. É um desafio que acaba repercutindo na nossa maneira de criar. Como, aliás, tudo o que se lê. Traduzir — no sentido de “transcriar” e “outraduzir” – talvez seja o “esporte radical” da poesia.

CARDA – A sua criação no campo da poesia visual data do período anterior ao uso – propriamente dito – do computador como tecnologia criativa. Com criações em serigrafias e livro-objeto, seu trabalho é admirado, inclusive, por contestadores da poesia em contextos eletrônicos. Como você avalia essa recepção e traça uma linha evolutiva de sua criação em literatura de invenção, para usar uma expressão corrente entre os tri-gênios concretos?
ANDRÉ  – Procuro não avaliar a recepção do meu trabalho. Deixo isso para os especialistas

CARDA – Em mais de uma ocasião, são mencionados as trocas entre os desejos criativo-poéticos de Décio Pignatari e os seus, bem como a alusão a Augusto de Campos como um incentivador de sua guinada às novas tecnologias. Como se deu essa troca entre a poesia de viés concreto e a sua? Quais são as diferenças e semelhanças que você consegue apontar?
ANDRÉ – Augusto de Campos não foi exatamente um incentivador de minha guinada às novas tecnologias. Esse papel coube ao filósofo tcheco-brasileiro Vilém Flusser, a quem tive o privilégio de conhecer quando fui morar na Alemanha. Foi lá que, estimulado por suas ideias, resolvi adquirir meu primeiro computador. Quando voltei ao Brasil, em 1994, é que passei a ter um contato mais próximo com Augusto, que também já tinha seu computador. Começamos aí a trocar figurinhas. Como já trabalhava com softwares de autoração multimídia e animação, pude passar muita informação para ele, que começou então a fazer seus clipe-poemas animados e com alguns recursos de interatividade.

CARDA – Parte da crítica recente apresenta receios, com relação ao flerte entre a poesia e o ciberespaço como suporte criativo, parte aponta que esse caminho pode levar a literatura ao encontro orgânico do leitor com a obra, numa possível democratização da criação literária. Qual seu lugar acerca dos ganhos e perdas da obra de arte na era de sua interação tecnológica?
ANDRÉ – A criação poética se dá no contexto maior de uma cultura. Não dá para separar cultura de tecnologia; e é um erro chamar de tecnólógico apenas aquilo que é referente às ditas “novas tecnologias”. Portanto, impossível fazer poesia hoje sem interagir, ainda que negativamente, com as tecnologias que estão ao nosso redor. Mesmo a revalorização de técnicas passadas como reação ao predomínio das novas tecnologias não seria possível sem essas. A crítica não precisa ter receios até porque ninguém mais dá atenção aos receios da crítica, que se encontra, aliás, numa situação bem mais crítica do que a poesia.

CARDA – Existe, na sua concepção poética, o conceito de poema enquanto diagrama aberto, em porosidade com os signos em rotação e em pluralidade de leitura. Ao interagirmos com seus poemas, percebemos que o leitor é responsável, certo modo, pelos caminhos que o poema vai construindo. O que se tem como ganho nesse lançar para o leitor a rota a ser seguida e os sentidos a serem construídos?
ANDRÉ – Não proponho o conceito de “diagrama aberto” com o intuito de criar um diferencial para meus poemas ou similares, mas para ampliar o conceito, de modo que dê conta de práticas que ficam pouco à vontade no antigo. O que falo sobre diagrama aberto se aplica, no fundo, a qualquer tipo de leitura. Os poemas chamados interativos apenas explicitam isso em sua própria dinâmica e nem sempre, diga-se de passagem, da maneira mais eficaz e complexa. Não há nada ainda no campo computadorizado que se compare a experiência de um cérebro humano lendo a “Odisseia” de Homero ou a “Divina Comédia” de Dante, para ficarmos apenas em dois exemplos.

CARDA – Certa vez perguntado sobre seu processo de produção recente, Augusto de Campos menciona que é o computador o lugar da sua criação literária, desde quando começou a usá-lo. Vez ou outra, segue Augusto , anota-se uma ideia num papel e recupera-se para o trabalho no computador. E o seu trabalho em criação poética como acontece? Existe um suporte que anteceda o computador, enquanto lugar de criação literária?
ANDRÉ – Sim, o cérebro (risos). Passo a maior parte do tempo na frente de um computador conectado à rede, portanto, interagindo com softwares e informações na tela. Desse processo, muita coisa vai sendo esboçada e registrada para trabalho futuro. Mas muito coisa fica simplesmente rodando na cabeça, enquanto ando, dirijo o carro, etc e vai sendo reprocessada para, eventualmente ser anotada e de repente tomar uma forma mais consistente. Então, a “cabeça” é mesmo a grande plataforma. Computadores, smartphones, blocos de anotação não passam de extenções e próteses.

CARDA – Definindo literatura eletrônica, Katherine Hayles menciona a tendência de interação leitora constante e o não funcionamento do texto literário eletrônico em outros suportes. Parte de sua obra – no entanto e enquanto potência visual –, pode habitar diferentes suportes. Quais as vozes conceituais você aponta como norteadora de suas criações?
ANDRÉ – Não tenho qualquer vínculo com o conceito de “literatura eletrônica”. E adoto a ideia de “diagrama” justamente para evitar essas simplificações, como “poesia visual”. O diagrama parte do pressuposto de que tudo é uma amarração muito mais complexa de códigos que envolvem em maior ou menor grau: imagens, sons, números, ideias, etc.

CARDA – Como você pensa a partilha do poeta, na interface estético-política, com os temas sociais que circula a sua produção, ainda mais quando se pensa num contexto político como o que vivemos – de sucessivos golpes e perdas diárias?
ANDRÉ – Creio que toda criação poética – e uso aqui o termo no sentido mais abrangente possível (do grego ’poiésis’ = o que é feito) – tem dimensão política, até mesmo quando pretende não ter. A partilha são as múltiplas e imprevisíveis leituras que uma obra possa instigar. Acho que escapa ao âmbito do criador, pertence ao “deus-dará” do mundo.

Algumas dicas de sites para experienciar a poesia eletrônica/o ciberpoema:

http://www.erratica.com.br/
http://www2.uol.com.br/augustodecampos/home.htm
http://www.andrevallias.com/
http://andrevallias.tumblr.com/

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Sobre o autor

Eduardo Gonçalves

Mestrando em Teoria da literatura pela Universidade Federal de Pernambuco, integrante do Núcleo de Estudos em Literatura e Intersemiose - NELI -, pesquisador da atuação Concreta e Pós-Concreta com foco na obra de Augusto de Campos. Leitor de poesia.