A face política da arte no “Cultura Ocupa UFPE”

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Por Eduardo Gonçalves

TORRES

Construir torres abstratas 

porém a luta é real.

Sobre a luta  nossa visão se constrói.

O real nos doerá para sempre.

Orides Fontela

 

O movimento de Ocupações que acontece em todo o Brasil já rasura a nossa história recente e tornou-se, com força resistente e construtiva, torre simbólica para o real que dói: que nos doerá para sem para sempre, haja vista o modo de tomada do poder que levou o atual governo ao topo das decisões arbitrárias e impositivas. Um retrospecto muito rápido do tempo da atuação dessa força ilegítima leva-nos à reminiscência claramente deslocada das pautas sociais e culturais: o rebaixamento da pasta de cultura como uma subárea do Ministério da Educação, decisão revogada graças à força popular aliada ao movimento Ocupe MinC; a revisão de programas de governo, que tinham como objetivo minimizar a desigualdade na distribuição de renda e moradia; e, mais recentemente, a inclusão, para aprovação comprada, da PEC 55/241 e da Reforma do Ensino Médio, esta feita como Medida Provisória sem o debate com especialistas da Educação, desconsiderando – inclusive – a consulta pública que o Governo de Dilma Rousseff mantinha com Professores Especialistas em diversas áreas por meio de uma plataforma para anexar as sugestões. Esta, sim, parecia ser uma medida de reforma construtivista e abortada pelo triádico golpe.

(Fotografia: divulgação/OcupaUFPE)

(Fotografia: divulgação/OcupaUFPE)

Agora, para tentar barrar essas duas últimas medidas do atual governo, Instituições de Ensino, em todo o Brasil, estão sendo ocupadas – e o movimento só cresce com novas ocupações, a exemplo da que aconteceu no dia 16 de novembro no Ginásio Pernambuco, escola pública tradicional do Estado de Pernambuco. Contrária às narrativas midiáticas e do governo, alunas e alunos – construtores articulados e conscientes – promovem espaços públicos de debate e de ressignificação do que seria uma aula: os moldes enfileirados substituídos pelos grandes círculos que, já na organização de sua estrutura, apontam para uma aula de verdadeira Democracia e horizontalidade nas construções discursivas. Dentre esses debates e “aulas” públicas, o lugar da arte em sua faceta política vem sendo amplamente debatido e produções artísticas como intervenções, instalações, espetáculos teatrais e performáticos vêm sendo realizados. Em cada sarau, versos de ordem e de chamamento à luta.

É no clima de arte-política, e que aponta para um significado sociopolítico das ocupações, que o evento Cultura Ocupa UFPE aparece. A proposta, segundo o movimento, é construir um espaço de simultaneidade artística e de movimentação política.  Uma ação conjunta entre professores e técnicos mobilizados em greve ativa, os estudantes, que estão nas ocupações estudantis, realizam, neste sábado (19/11), na Cidade Universitária, um dia de programação aberta no campus ocupado desde outubro, a partir das 14 horas, com apresentações de grupos musicais, como o Som da Rural e Matalanamão, e a intervenção de artistas, como Paulo Bruscky e Paulo Meira. A programação, que envolve atividades para crianças e adultos, inclui jam de performes e DJs, apresentações teatrais, oficinas, exposições, contação de histórias e discussões sobre as medidas do governo Temer, vistas como provocadors da precarização da educação, da saúde e da assistência social.

Na universidade o CAC, desde que foi ocupado, recebe manifestações artísticas de estudantes e artistas solidários à causa (Fotografia: divulgação/OcupaUFPE)

Na universidade, o CAC, desde que foi ocupado, recebe manifestações artísticas de estudantes e artistas solidários à causa (Fotografia: divulgação/OcupaUFPE)

A proposta dos organizadores é realizar outras edições do Cultura Ocupa UFPE nos sábados 26 de novembro, 03 e 10 de dezembro, além de fazer uma vigília na forma de “virada cultural” na noite anterior à votação da PEC 55 no Senado. Os Centros ocupados – e já são oito no total, no interior e na capital –, têm pautas que vão das articulações nacionais às discussões que dizem respeito a cada um, especificamente. Nesse espaço de discussão da arte (essa posta como disciplina opcional na MP de reforma do Ensino Médio), o Centro de Artes e Comunicação – CAC – da UPFE, ocupado desde o dia 27 de outubro, apresenta na sua Carta Manifesto pontos que articulam o valor da arte e a resistência para não tê-la a serviço de um ensino técnico e sem respaldo à vida do educando, para além da escola:

“Enfatizamos a correlação entre o desmonte da educação pública e o boicote a produção cultural nacional, ambas marginalizadas por um governo submisso aos interesses do mercado financeiro. É nítido o processo de cerceamento na formação e produção crítica, criativa e política, prova disso foi a extinção do Ministério da Cultura (MinC) e a retirada das disciplinas Arte, Filosofia e Sociologia do currículo obrigatório do ensino médio, primeiras medidas antidemocráticas do governo golpista. A SAÍDA ESTÁ NAS RESISTÊNCIAS! São as novas formas de fazer política, produzir cultura, educar e ser educado, com maior autonomia, participação direta e construção horizontal e coletiva, que garantem as recentes ocupações do MinC, Cine Olinda, Casarão da Várzea, institutos, universidades e escolas secundaristas no Brasil inteiro. […] Ocupamos e seguiremos organizadas contra o desmonte da educação e da produção artística, do país ao nosso Centro. Construímos aqui e agora alternativas emancipatórias de resistência contra a PEC DO FIM DO MUNDO, contra o golpe ao Novo Estatuto e por uma educação pública e popular.”

Esta colocação, coletiva e elucidativa, é também sensivelmente partilhada por construtoras e construtores da ocupação que veem a arte como espaço de luta e de contestação do real dado: “Acho que a arte é sempre um grande questionamento em movimento. O tempo inteiro ela nos faz perguntas: quem somos, pra onde vamos, de onde viemos, qual nosso lugar aqui, nossa missão, qual nosso espaço… Então, partindo do princípio que todo o processo de revolução no indivíduo acontece através desse questionamento, a arte está para a luta, assim como a luta está para a arte. A luta é um movimento contínuo de não se conformar, de transformações constantes. E a arte é uma das diversas manifestações de luta política, a arte é processo, marca um tempo, marca a sociedade, e a arte também é política.”, diz uma aluna* do Curso de Letras-Português, da UFPE.

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É desse debate da/pela arte e ações culturais que o Cultura UFPE parte para um chamamento à comunidade no entorno da Universidade, e a sociedade de modo geral, uma vez que essas ocupações têm como objetivo ser um espaço de resistência e contestação Nacional sobre as medidas tomadas pelo Governo Temer, sobretudo a PEC 55 (241) e a Medida Provisória de reforma do Ensino Médio. Fica, então, o convite para a construção de torres simbólicas, resistentes e imponentes para se evidenciar como marca de luta e do não aceitar calado ou vendado as imposições precarizantes de um governo que se diz ser, mas não é.

Para conhecer, acompanhar e construir o evento basta acessar o link: https://www.facebook.com/events/421080371614292/.

Confira programação completa do Cultura Ocupa UFPE, neste sábado (19):

14h – Oficina de Artes Visuais para crianças e adultos, Rodrigo Silva (arte-educador)

14h às 17h
Visita mediada à exposição “Incerteza, viva!” – Estudantes de Artes Visuais UFPE

15h – até o fim
Com intervalos Som da Rural, de Roger de Renor

15:30h – Narração de histórias
16:30h – Oficina de tecido
17:30h – Jam de Performers
8:30h – Sarau #LeiaMulheres – A poesia em resistência
19:15h – Teatro: leitura dramática de algum episódio de Terror e Miséria no Terceiro Reich, com Stella Maris e Germano Haiut
20h – Música – Arca de Pandora

20:40h – O mascate – Teatro de objetos para adulto, com Diógenes D. Lima
21:15h – Videodança Imanência, de Breno César, Maria Agrelli
21:30h – A televisão não será revolucionada?!, do Media Sana
22h – Filme Sarafina! O som da Liberdade. Dir. Darrell James Roodt
23:30h – Música – Matalanamão
0:15h – Música – MC Profeta
1h – Dj Incidental

*Como forma de proteção à ocupante entrevistada, dado o histórico de perseguição institucionalizada a partir de fotografias e registros nominais de outras mobilizações, a sua identidade foi suprimida.

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Sobre o autor

Eduardo Gonçalves

Mestrando em Teoria da literatura pela Universidade Federal de Pernambuco, integrante do Núcleo de Estudos em Literatura e Intersemiose – NELI -, pesquisador da atuação Concreta e Pós-Concreta com foco na obra de Augusto de Campos. Leitor de poesia.