A crise da cinéfila

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No filme as Patricinhas de Bervelyn Hills, Cher, é a patricinha fútil e adorável, e seu irmão de consideração, o intelectual

Pelo direito à futilidade cinéfila e cultural feminina ou quando a futilidade é mais densa que a ordem intelectual das imagens 

Por Maria Cecília Shamá

Certa vez  Guimarães Rosa disse algo do tipo: “A felicidade se encontra nas horinhas de descuido”. No mundo da cinefilia arcaica a futilidade pode ser traduzida como algo do tipo: uma mulher que gosta de cultura pop é apenas uma mulher que gosta de mais coisinhas de mulher. Nada de descuidos quando se trata de gosto.

A quebra do contrato social cinéfilo entre homens e mulheres prevalece na soberania da condescendência. E quase sempre a soberania da vontade, do gostar e defender essa ou aquela obra que nos toca, é rotulada de forma pedante e somos sempre as despreparadas de análise fílmica e social e cheias de achismos sem conteúdo analítico. Se você cita referências e preferências em um corpo textual ou numa mera postagem de seu facebook, poderá ser taxada como a louca dos achismos pessoais.

Quando eu assistia As patricinhas de Beverly Hills (Amy Heckerling,1995) lá na minha adolescência e via Cher e todo o seu grupinho realizando a transformação da colega maconheira ruiva em uma das suas, eu ficava louca para entrar no grupo das populares. O princípio da futilidade, ressignificado pela corrente pós-moderna, começa a ser visto como crítica social profunda, afinal, nostálgico no agora, o filme é material cult sobre a nostalgia e as brilhantes análises da protagonista sobre a sociedade em que vivia. Mas para mim, Cher sempre foi um ídolo inalcançável.

O filme influenciou diretamente a moda dos anos 1990 e ainda hoje é referência

Veja só: a futilidade é legítima quando é devidamente ressignificada como propositalmente vazia no invólucro, e densa na mensagem. Para mim aos vinte e cinco anos, já distante da adolescência, não fica crível ver essa postura social em Cher. Ela é apenas a garota adoravelmente alienada, loura, magra, alta, que encontra no oposto a rendição da sua estupidez.

As patricinhas de Beverly Hills se concentra na imitação do enredo de Emma, escrito lá em 1815 por Jane Austen. Mais uma referência fútil no corpo do meu texto: esqueça a crítica social de humor sarcástico britânico do livro e as tiradas ferinas da autora em seus outros livros presentes em minha estante. O que na verdade deve importar, o olhar que prevalece para além da crítica de costumes de Austen é sobre o fator romântico dentro do romance literário. Afinal, ele foi escrito por uma solteirona que perpetuou ideais românticos pastoris, onde os amargos homens de suas narrativas se transformam ao longo de seus romances num cavalheiro honroso por conta da feminilidade da razão de seu afeto. Esquecemos a crítica social e nos importamos apenas com a renda das toalhas de mesa e dos vestidos de suas mulheres.

A novelista inglesa - nascida em dezembro de 1775 - Jane Austen, num retrato de família (Autor desconhecido)

A novelista inglesa – nascida em dezembro de 1775 – Jane Austen, num retrato de família original

Emma assim como Cher (Alicia Silverstone) é uma casamenteira que adora seu status quo de Rainha do Baile. Cada qual em seu mundinho particular. Emma na vila em que vive, Cher na escola do bairro de elite em que está. E assim, tanto Emma como Cher encontram o amor em seu total oposto: a primeira em seu amigo mais velho, sensato, educado, rico, mas, que desde o início se faz presente nas horinhas de descuido de Emma; Cher no filho de sua madrasta, estudante de direito, defensor dos animais, usuário de camisas de flanela e entusiasta da Sociologia. Mas que se apaixona pela adorável futilidade da irmã postiça. Ela é tão adorável, afinal de contas.

A crise da democracia no tocante ao direito pela futilidade cinéfila e cultural feminina consiste em ver em Cher a graciosidade da futilidade como crítica social bem humorada junto à adorável sensação de condescendência em relação à protagonista – valorizada como feminista pela passagem dos anos desde a primeira exibição do filme em 1995. Cher é o fantasma de todas as garotas descoladas que são legitimadas sexualmente pelo sexo oposto, por apreenderem o mundo ao seu redor através da ótica de seus namorados. O que difere Emma de Cher: Emma se dá conta do todo da vila, do além de seu mundinho; Cher precisa ser conduzida à mudança pelas mãos do namorado estudante de Direito.

Se Rousseau fosse uma garota

Adaptações cinematográficas de Clássicos permitem que nos sintamos universais. Se Emma era a mean girl de Austen, enquanto Cher é a popular riquinha descolada dos anos 90, como balancear as estruturas entre os gêneros?

Penso com meus botões se quando Rosseau escreveu o contrato social, como seria alguns dos termos se ele fosse uma garota. Essa falsa democracia do gosto cinéfilo vem à tona no olhar condescendente que nem Austen tinha tanto em 1800 e bolinha quanto As patricinhas em 1995 possui. Olhar de importância pelo caráter de filme de nosso imaginário adolescente passado, denso apenas pela condução das estruturas sociais entre homens e mulheres, na sensatez da figura masculina do irmão de Cher.

Emma e Regina

Que louco seria se a Emma de 1815 encontrasse as Meninas Malvadas de 2004. A vilã Regina, escrita com um olhar ácido por Tina Fey, acaba por nos fazer identificar mais com ela, falha, insegura e abertamente problemática do que com a nerd linda e inteligente, Cady. Quem no mundo escolhe cursar a cadeira de matemática porque essa é igual em todas as línguas? É mais crível, atualmente, ser uma mean girl. Abertamente falha. É o balanço perfeito que a roteirista encontrou como forma de olhar tanto Regina quanto Cady como frutos da geração bombada de tecnologia.

E olha que Tina Fey ao adaptar o livro Queen Bees and Wannabes, da escritora Rosalind Wiseman, publicado em 2002, escreveu o roteiro para o filme pensando em sua experiência como uma mean girl no colegial. Só que seu bullying partia do princípio de ser a intelectual artística da escola que menosprezava as lourinhas e rainhas do baile, toda e qualquer futilidade. Mas sem condescendência sobre si mesma, ironizou todos os arquétipos adolescentes como crítica social.

Quando Mad Max: estrada da fúria (George Miller, 2014) e toda a polêmica sobre ter ou não ter, ser ou não ser filme feminista pipocou pelas redes sociais, provocou mais uma separação entre os sexos. Veio-me à tona nossa falta de costume com personagens femininos em filmes de “macho”, e, portanto, rotulamos uma representatividade feminina como sendo feminista. Mas no final das contas, mesmo, uma Furiosa ainda precisa da ajuda do herói do filme. Que horrível pensar que Mad Max possa ser apenas um filme muito legal de assistir, com toda uma destruição plástica parecendo um balé de imagens no deserto laranja. Que morte horrível como mulher.

Parece não haver solução entre nossos corpos, mentes e gostos e a cinefilia reconhecida. A cinefilia feminina muitas vezes é taxada como sinônimo de frigidez ou de gosto adquirido para impressionar o outro. Ou pior: drama de nossos hormônios irracionais, que se agarram aos seus filmes preferidos sem a separação entre Igreja e Estado, provocando uma sensação eterna de que estamos de TPM quando defendemos esse ou aquele filme. Com ou sem densidade legitimada.

O que mais me agrada em Meninas Malvadas, com mais uma loirinha como protagonista, é que dessa vez minha futilidade cinéfila não foi ressignificada, um de meus filmes preferidos não serve como teor social feminista, mas que termina sendo marco cultural de toda uma geração por mostrar que o bem o mal foram divisores de água na cultura pop para o feminino.

Que nossas futilidades permaneçam intactas em prazeres não culposos, em gostos legitimados ou não, em incoerências pessoais da cinefilia feminina, da cinefilia em si, e das suas estruturas de projeção cultural e pessoal de uma geração, ou do gosto parcial, mais sincero que as opiniões assépticas que nos impõe a imparcialidade dos gostos no pastiche pós-moderno que é estudar ou gostar de Cinema em 2015. Ou de cinema com letra minúscula.

Meninas Malvadas cantando "Jingle Bell Rock" para vocês

Meninas Malvadas

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Sobre o autor

Maria Cecília Shamá

Cinéfila, maquiadora e escritora, sem amarras sociais