A carne mais barata do mercado é a carne do príncipe da Dinamarca

3

Por Rafaela Cruz

Há uma expressão bem comum no Reino Unido para falar que algo não faz sentido ou que não tem graça: ‘como Hamlet sem o príncipe da Dinamarca’. Isso porque o príncipe Hamlet, que dá título a peça, está tão presente no drama que é quase impossível achar uma cena em que ele não esteja ou que não seja o assunto da fala e interação dos outros personagens. O americano Harold Bloom, um dos maiores e mais tradicionais críticos literários em atividade, quando imposto a missão de localizar Shakespeare no cânone literário ocidental, afirmou categoricamente que Shakespeare não estava no cânone, mas que ele era o cânone. Para Bloom, nenhum outro dramaturgo, poeta ou romancista é pós-shakesperiano, apenas uma pessoa em toda a história conseguiu ultrapassar o bardo e essa pessoa seria o próprio príncipe. Hamlet seria tão impecavelmente humano, completo e intelectualizado que conseguia ser maior não apenas que o texto que lhe abrigava, mas também superar o homem que lhe criara.

Quatrocentos anos depois, o Hamlet sentado no banco dos réus do salão de honra da faculdade de direito do Recife poderia muito bem nem estar ali, diferente do anti-herói sem o qual o drama de Shakespeare não faria sentido, em Please continue (HAMLET), o protagonista é só um nome e um rosto para personificá-lo, a peça acontece cruelmente apesar dele e aí está o grande trunfo do autor e diretor espanhol Roger Bernat.

A ideia é simples, um exercício argumentativo comum tanto em faculdades de direito quanto em salas de aula de ensino médio. Um júri simulado é organizado, há um caso, há um acusado, testemunhas, promotor para a acusação e advogado de defesa. O caso é o seguinte, Hamlet está sendo acusado de assassinar, com dolo, o pai de sua noiva, Ofélia. A acusação quer garantir que ele seja responsabilizado pelo crime e a defesa deseja que o crime seja entendido com culposo, isto é, sem intencionalidade.  O espetáculo não conta com o texto dramático fechado, apenas com um dossiê com informações básicas sobre o caso e o funcionamento da peça, o resto fica a cargo do elenco; em itálico porque para além dos três atores que interpretam Hamlet, Ofélia e Getrudes, mãe de Hamlet, todos os outros: o Juiz, a promotora, o advogado de defesa, o médico legista e o psiquiatra chamados para testemunhar são de fato profissionais dessas áreas, convidados a tomar parte da brincadeira com base apenas no dossiê de informações básica. E, ao final, um júri popular composto por sete integrantes do público seria formado através de sorteio para a decisão do veredicto. Uma maquinação criativa corriqueira no teatro moderno pós-Brecht, a quebra da quarta parede e, quase como um gracejo, a chamada de atenção para o processo teatral.

O espaço ocupado em total capacidade fala tanto da tradição do festival quanto do fascínio pela proposta, a ficcionalização do espetáculo jurídico é comum no imaginário de um publico de classe média que tem contato com todos aqueles seriados de TV americanos onde os advogados fazem performances inventivas, dramáticas, quase absurdas para vencerem seu caso. Please,continue é uma radicalização dessa proposta e uma das perguntas iniciais que surgem é quanto do show hollywoodiano é próximo da realidade.

O juiz, José Junior Florentino Santos, titubeia um pouco em sua fala de abertura, talvez pelo burburinho da sala, mas logo recupera a estabilidade de quem está acostumado ao público, brevemente apresenta o caso, a promotora, Dalva Cabral, e o advogado de Hamlet, Daniel Lima. Quando, finalmente, pede para que o acusado seja trazido a público, não há muita surpresa no Hamlet que entra, negro, cabisbaixo, olhar vidrado no chão, a boca se movendo como se murmurasse palavras perdidas. A camiseta amarela que veste traz nas costas a inscrição Hamlet (ator) e não é sem alívio que nos lembramos que, apesar do tribunal e dos profissionais, aquele não é de fato um homem acusado. Logo depois, também vestindo uma camiseta amarela, Ofélia entra para dar seu depoimento, fala dos dois anos de relacionamento com Hamlet e com a fala marcada por palavras como rapariga e expressões do tipo ‘e apois, viu?’ leva o público a gargalhadas breves e um pouco desconcertantes, afinal é difícil não se perguntar quem é realmente essa Ofélia de Santa Mônica, Camaragibe de quem rimos tão abertamente enquanto ela depõe sobre a noite que perdeu o pai, quem ela representa. Promotora e advogado a interrogam e assim também o faz o público, perguntam-lhe sobre que tipo de relação tinha o seu pai com o ex-noivo, se eram amigos, se seu pai tinha inimigos na comunidade. Como na peça de Shakespeare, Ofélia diz que Hamlet gosta muito de estudar e que passou anos fora em outro estado estudando, que seu pai depois dos primeiros contatos começou a bem querer a relação dos dois, que seu pai era um homem bem quisto

Depois do depoimento de Ofélia, o médico legista é chamado para testemunhar. As perguntas da promotora são feitas e igualmente respondidas numa terminologia difícil para leigos o que simultaneamente aliena por alguns minutos o público, mas confere a autenticidade que reconhecemos em certas coisas que não podemos compreender. ‘Não tô entendendo nada’, diz um rapaz ao meu lado, ‘parece mesmo aquelas coisas que a gente vê na TV senado ou tipo isso’. Da troca dá pra entender que havia marcas de dedos ao redor da boca de Polônio, como se ele tivesse sido calado por uma mão violenta, e escoriações na parte posterior do joelho por decorrência de possivelmente ter sido arrastado depois de morto, além das marcas perfuro-cortante causadas por arma branca na região sub-torácica. A linguagem burocrática esfria o sangue das ações violentas, tira a cor do absurdo e do estranhamento, aquelas pessoas conversando estão acostumadas com a morte e, diferente da maioria, seu trabalho é não fingir o contrário.  

Antes que Gertrudes, mãe de Hamlet, seja chamada o diretor vem e explica que todos os depoimentos anteriores e os que se seguiriam não foram ensaiados, o único texto prévio era mesmo o dossiê de informações sobre o caso. Quando Gertrudes é finalmente chamada o advogado de defesa diz que não quer mais ouvi-la e, didaticamente, explica porque ele pode decidir prescindir dela. Há uma troca acalorada entre ele e a promotora que é, até aquele momento, o ápice dramático da peça. Ela diz que Gertrudes é testemunha do juízo, que o público – que mais tarde formará o júri – precisa ouvi-la. Nesse instante algumas barreiras de polidez se desfazem e uma das realidades do exercício vem à tona, é um jogo para além de qualquer destino e os dois desejam a vitória.

A próxima peça do jogo é um psiquiatra que forneceu laudo psicopatológico de Hamlet e apesar da fala de Ofélia sobre como Hamlet era um poeta que amava estudar, o laudo se afasta da loucura tantas vezes romantizada do personagem de  Shakespeare e aproxima-se do desenho do perfil cruel que a sociedade comumente enxerga nos meninos pretos da favela: viciado, preguiçoso, afeito a violência. Preguiçoso e violento. Preguiçoso, violento e viciado são teclas que a promotora bate sem cessar e quando chama Gertrudes a depor, esta é também transformada em réu: mãe permissiva, de aparente relação edípica com seu filho, deixava-o solto das ruas, casou-se com o irmão de seu falecido marido apenas dois meses depois de sua morte, fez amor com seu novo homem enquanto o corpo de Polônio jazia sem vida no chão de seu quarto. ‘Esse foi o primeiro rato que apareceu na sua casa?’, perguntou com graça a promotora enquanto Gertrudes explicava que Hamlet havia pensado que era um gabiru atrás da cortina, que por isso ele havia lançado sua lâmina contra o corpo escondido de Polônio. ‘Esse foi o primeiro gabiru que a senhora, viu?’ e a pergunta não dita de toda forma se faz presente ‘Sendo quem é, vivendo onde vive, como não está acostumados o suficiente com ratos para distingui-los de homens?’

Depois dos depoimentos e testemunhos, a promotora e o advogado apresentam suas palavras finais. Ela é fervorosa ao falar do passado de Hamlet, de seus vícios, de sua instabilidade bipolar, do ódio que nutria pelo marido de sua mãe. Fala também de Gertrudes, mais uma vez fala de sua permissividade e de uma relação tão estranha com seu filho que não havia permitido que ele de fato crescesse com a real presença masculina do pai. ‘Este foi um menino que cresceu sem a presença de um Homem’, mas mesmo enxergando isso com muita gravidade, não há piedade aqui, cada segundo mais a teatralidade toma conta de sua voz a medida que se convence da real possibilidade de sua vitória, no final cita Shakespeare e antes mesmo que encerre sua fala boa parte da sala se derrete em palmas. O juiz lembra a todos que ao final sete pessoas serão escolhidas para votar, por isso não devemos demonstrar tais reações, mas é tarde para isso, todos saíram de casa para um espetáculo catártico e Dalva, a promotora, tinha tomado para si a responsabilidade. Daniel, o advogado de defesa, que havia começado a peça tão contundente, se perde nas voltas de seus argumentos, difícil convencer alguém de algo de que não se está convencido. No final apela para a virtude de seu ato solidário. ‘Eu estou aqui para retribuir um pouco do que me foi dado, pois não estudei nessa universidade de graça, foram vocês senhores do júri que pagaram a minha educação, eu sei, não Hamlet ou sua mãe, por que eles não podem, mas eles precisam de alguém para defendê-los, esses somos nós’.  É em igual medida triste e esclarecedor.

Depois de encerradas as duas falas, o juiz se prepara para convocar o júri sorteado, lembrando aos familiares tanto da promotoria quanto da defesa que tenham o bom senso de se absterem caso selecionados, gritos de ‘tu arrasa, Dalvinha’ saem altos.

Antes do veredicto, Bernart volta ao centro do palco e, num portunhol experiente, lê algumas estatísticas da peça em sua volta pelo mundo, especialmente na Europa. Conta, curiosamente, que em Zurique não apenas fora Hamlet absolvido, mas que o estado deveria pagar-lhe uma indenização pelos dias que passou encarcerado. É notável que algumas pessoas na platéia se surpreendem, não pensaram nessa alternativa. O Juiz pede a urna e rapidamente conta os votos. A maioria dos sete decidiu que Hamlet não deveria ser absolvido. Algumas pessoas sorriem ao espelhamento de suas vontades, outras balançam a cabeça e sacodem com certa veemência uma indignação curiosa, afinal é só uma peça

A experiência estética do ambiente é incomum aos freqüentadores de teatro, não há cortinas para serem fechadas e nem mudança de luz, assim a peça termina sem nenhuma indicação dramática específica, há palmas, assobios de familiares dos profissionais que participaram, mas nem os atores e nem o diretor voltam para tradicionais cumprimentos. Na saída, alguns alunos que passavam pelo corredor perguntam que julgamento era aquele que acontecia tão tarde e voltavam para o corredor ainda mais confusos, porém claramente encantados com as respostas dadas por aqueles que estavam na plateia.

Possivelmente a maior vitória da peça é de fato alcançar aquilo que boa parte dos artistas desejam com suas produções: falar de um momento, um lugar, um povo e de uma cultura além daquela presente na diegese da ação. Nisso, especificamente, a montagem reverbera Shakespeare, que escreveu estórias que passavam em Veneza e em Verona em língua inglesa e, ainda assim apesar da inegável naturalidade inglesa, era idolatrado na Alemanha como um autor nativo, ganz unser – totalmente nosso – clamavam os poetas alemães dos séculos XVIII e XIX. A leitura das estatísticas é parte do jogo, janela do mundo, que tenciona o próximo movimento, um caleidoscópio irônicos das possibilidades.

Não há nenhum grande avanço de linguagem, não apenas é um exercício conhecido, como os resultados, apesar de aberto, são restritos a uma análise combinatória simples e as regras legislativas de cada país. Além disso, como apontariam os defensores do teatro pós-dramático, apesar de apenas contar com um ‘dossiê’, o enredo seguia forte. Afinal de contas, escolher esta peça de Shakespeare para nomear os envolvidos no caso é bem determinante, pois sabemos quem fora o príncipe e, apesar de elogiar sua inteligência e eloqüência, conhecemos sua loucura e sabemos que ele não apenas matou Polônio, mas que por causa disso Ofélia cometeria suicídio e que muito mais sangue ainda seria derramado pelas mãos do jovem Hamlet.

A maior contribuição da montagem é, porém, a elegância e a coragem com a qual se engaja. Sim, falo de engajamento, do desejo do comentário social claro, palavra que alternadamente nas viradas da história da arte é hora elogio, outra maldição. E coragem por ser uma intervenção estrangeira, apesar de falada sempre em língua nativa, em questões muito sensíveis de um determinado povo. O saldo final é um pouco assustador, pois é cruel a lembrança de que todos os julgamentos de júri popular são tristemente parecidos com o Big Brother, nesse mundo de celebridades de reality TV, todos já começam o julgamento condenados ou absolvidos dependendo de quão heróis ou vilões eles se parecem; e assim reviravoltas tornam-se termos quase obsoletos de uma poética aristotélica decorativa.  No Brasil, o vilão tem perfil certo. Periférico, louco, preto.

Compartilhar:

Sobre o autor

Rafaela Cruz

Oficialmente, Rafaela é Mestra e doutoranda em Teoria da Literatura, professora de Literaturas de Língua Inglesa na UFRPE (Universidade Rural Federal de Pernambuco, tradutora e intérprete de formação. Extraoficialmente, ela é uma eterna fã de Harry Potter, entusiasta apaixonada da internet, especialmente em sua manifestação tupiniquim, uma entre trinta primos e devota fervorosa da ficção e suas engrenagens loucas. Para além de ler, escrever, emitir opiniões não solicitadas, montar o apartamento ideal em painéis do Pinterest e cantar Alcione no karaoke, seu maior hobby é meter os pés pelas mãos. Reflitam.

3 Comentários

  1. Fazia tempo que não lia uma critica tão sensata e com muito prazer. Mente e olhos estavam bastante abertos, pelo visto o cochilo e a dissociação do que passava não fez parte de tua dinâmica, não é Rafaela Cruz? Fico a espera de outras criticas, pois ela é de fundamental importância para todos nós. Não é só de elogios que se faz a critica, mas antes tudo de sensatez. Parabéns. Além do mais a Cardamomo vai dar o que falar muito mais.
    Axé!