“Eu gosto dos objetos inúteis”, diálogo com o artista Paulo Bruscky

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TEXTO Clarissa Macau

FOTOGRAFIA Bernardo Dantas

Fotografia: Bernardo Dantas

Fotografia: Bernardo Dantas

Em um dia do ano de 1972, um caixão boiava pelas águas do rio no centro da capital pernambucana com a palavra ARTE escrita na sua tampa. Pessoas, indo e voltando do trabalho, policiais e bombeiros, às margens ou sobre as ruas das pontes enviando lanchas para abordar o objeto navegante mais ou menos não identificado reagiam ao incidente em comoção. Por dentro do grande recipiente cortejado pelas correntes do manancial uma frase irônica, secreta, irritava as autoridades – os únicos que a leriam – anunciando algo que remetia a uma tentativa do enterro do sistema político brasileiro: na época a ditadura militar. Naqueles tempos, nas águas do rio era comum que o exército lançasse as suas vítimas executadas. De quem seria esse notável lembrete? O corpo de bombeiros levou a caixa mortuária embora.

As investigações oficiais através de suas próprias pesquisas de arte associando uma obra a outra, atrás de artistas culpados e ameaçadores da ordem social, chegaram até o nome que gerou a situação do caixão chamado ARTE: Paulo Bruscky, o artista visual recifense que atuava desde os anos 1960, com atividades artisticamente subversivas apresentadas abertamente ao público na rua. “Recife é uma cidade geograficamente boa para intervenções urbanas, por ser cortada por rios, banhada por mar e ser plana”, costuma repetir o elogio a quem pergunta sobre a sua relação com a cidade.  “Fiz o Enterro Aquático duas vezes, fui preso e proibído de fazer as coisas na rua. Depois, eu voltei assumindo a responsabilidade de ser morto”, conta Bruscky que teve ajuda do amigo e também artista Daniel Santiago para lançar aquele caixão ao rio.

Dois anos depois, o artista que sempre transformou a provocação no principal ato de sua obra contra o silêncio e a indiferença às barbaridades políticas que aconteciam no país, lançou a exposição Nadaísta, onde numa galeria tradicional da cidade não se encontrava nada além dele mesmo e um banco. Subiu nele para ler seu manifesto. O texto dizia que se alguém consumasse a destruição da obra que estava naquele salão, não seria acidente. Felizmente, Paulo Bruscky sobreviveu aos tempos de chumbo.

Meu Cérebro Desenha e Pinta Assim (1976), obra que está, atualmente, no acervo do MoMA. Paulo Bruscky ainda é mais conhecido internacionalmente, que em território nacional (divulgação)

Após mais de quatro décadas de carreira o pernambucano ganhou prêmios como a bolsa Guggeheim de artes visuais, possui peças espalhadas pelos maiores museus e exposições do mundo como o Museu de Arte Moderna de Nova York, o MoMA (E.U.A), Cisneros Fontanals Art Foundation (EUA), Tate Gallery (UK), Bronx Museum (EUA) e Stedelijk Museum Amsterdam (NL), além de compor coleções de investidores internacionais.  Utilizou-se de diferentes métodos para dialogar com os públicos da rua, das artes e de instituições fechadas. Desde exibições urbanas em Outdoors – como idealizou e concretizou no Recife em 1981, juntamente como Daniel Santiago, a primeira Exposição Internacional de Arte em Outdoor do Brasil com quase 200 artistas de mais de 20 países -, a também as xerox-filmes – com sequências construídas por xerografia -, as xerografias, as  xerox-artes, as artes postais, os happenings, as performances, videoartes, gravuras entre outras mídias contemporâneas. Ele chegou a usar equipamentos da medicina como um eletroencefalograma, para construir desenhos e pinturas codificados pelas atividades elétricas do cerébro. Hoje, ele possui mais de cinco mil obras próprias catalogadas e uma coleção importante de peças, correspondências e documentos de artistas dos famosos movimentos Fluxus e Gutai. Tudo isso “engaiolado” na companhia de milhares de bugigangas que encontra nas ruas por onde passa. Qualquer coisa que possa ter utilidade um dia.  Antes de ser artista em tempo integral, foi funcionário público e jornalista. “Sempre fiz o que quis, como quis, quando quis. Eu tinha como me manter, não precisava estar atrás de ninguém para fazer minha obra. Por isso eu tenho uma quantidade de obras incrível”, afirma a esta conversa com à Revista Cardamomo. Paulo Bruscky divagou com a CARDA sobre a relação da  arte com o cotidiano e sobre coisas “inúteis” para a construção artística. Para ele, “Alguns artistas entram em crise, mas a arte nunca”.

REVISTA CARDAMOMO – Você é um artista que acredita na simbiose entre arte e seres humanos. Logo, a arte estaria em qualquer lugar.  Até quando a  arte é do artista, e quando essa arte passa a ser das pessoas também, do público e como democratiza-la? 

PAULO BRUSCKY –  Eu venho de uma educação formal, a partir do exercício da minha obra fui me deseducando interiormente para criar uma nova estética. Eu sempre realizei muito trabalho na rua. A rua é o lugar no qual se leva a arte realmente para todo mundo. Também participo dos lugares fechados, das instituições, galerias, mas sei que pouca gente tem acesso. Trabalhar na rua me custou prisões na ditadura, por agir diretamente com intervenções urbanas e ações participativas a exemplo de artistas como Hélio Oiticica e Lygia Clark. Antigamente, existia o happening, que era uma forma na qual você provocava o início de uma ação, mas não sabia o meio, nem o final da sua provocação artística. Isso dependeria, totalmente, da participação do público. Depois chegou a performance. Ela saiu um pouco da rua, embora nos anos 1980 ela tenha voltado. Os coletivos, que ganharam força nos anos 1990, começam a resgatar esse contato com o urbano, com o cotidiano.  E isso Pernambuco sempre teve, com coletivos como Formiga sabe que  roça come, na década de 1980.  Cada época tem a sua escrita. Então que dizer, hoje o povo anda feito robô, mais autônomo em busca da própria sobrevivência. Para haver participação é preciso constantes trabalhos da arte na rua. Eu estava vendo TV um dia desses e vi Alceu Valença fazendo uma intervenção urbana na Avenida Paulista, em São Paulo, junto com um cantador de rua e isso foi inesperado. Ele começou a cantar La Belle De Jour e as pessoas participaram disso. A performance audiovisual envolve mais significados, mas essa que Alceu fez é um tipo de atitude necessária e válida.

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CARDA – Você já disse a frase: “Todo objeto é um ready-made porque nenhum objeto quer ser artístico, quer existir quer interagir com o artista, mas ele faz tudo para engaiolá-lo. Por isso eu gosto de quem não pertence à ninguém.” Por que você tem essa necessidade de “engaiolar” objetos?

BRUSCKY – Eu pego coisas pela rua. Aqui no ateliê está cheio de coisas que eu apanho. As coisas podem ter função um dia, ou não. Eu gosto dos objetos inúteis. Quer dizer, eu não estou preocupado em dar uma utilidade imediata. Ele já existe por si. Como ele vai mudar na interpretação do artista é outra história. Há uns dez anos eu fiz uma exposição no museu da Universidade de Alagoas, que se chamava Movimento à inutilidade. Eu pedi pra que as pessoas trouxessem coisas que não serviam mais, que elas achavam inúteis. E não deu lugar para tanta coisa que apareceu.  Tinha todo tipo de coisa, prego, martelo, roupa. As pessoas encheram uma parede enorme que tinha até escada para você montar o que trazia. A sociedade de consumo é cheia de coisas inúteis. As pessoas compram. Eu faço o inverso, eu apanho o que está no lixo.

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Fotografia: Bernardo Dantas

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CARDA Ferreira Gullar fez uma afirmação polêmica numa clássica entrevista dada a Ivan Claudio, na Revista Isto É!. Ele fala que dizer que todo mundo é capaz de ser um artista “(…) É uma mentira e desvaloriza o artista. É um democratismo, uma falsa liberalidade que não tem valor algum, porque é mentirosa. De fato, se você admite que qualquer um pode fazer arte, pode parecer que sua visão é igualitária”. Você concorda com essa frase?

BRUSCKY – É, Ferreira Gullar ficou meio Ferreira Gagá de uns tempos pra cá. Eu tenho a assinatura da Folha de S.P e leio a coluna dele. Quando ele fala sobre o seu Poema Enterrado [Obra poética de Gullar construída no subsolo da casa de Hélio Oiticica] ele fala bem, mas quando ele fala de outros artistas ele fala mal. É incrível como no Brasil as pessoas acham que quando deram alguma contribuição para a história podem parar ou não serão superadas. Eu acho muito infeliz o que ele tem escrito ultimamente. Não tem refletido muito. Mas eu acho legal que ele esteja retomando e relançando os poemas concretos dele. O trabalho dele é genial. Lamento as suas últimas opiniões. Aliás, no Brasil eu tenho escutado opiniões conservadoras de pessoas que eu nunca esperei. Eu acho que as pessoas estão perdendo a lucidez. As minhas convicções são minhas, não são de partido por exemplo. Acontece uma coisa e outra e não mudo meu posicionamento. Por isso, eu nunca me filiei a nenhum partido. Recebi convite, sempre me pautei pela esquerda, mas nunca aceitei. O que difere o artista das outras pessoas é a maneira de ver e não a de fazer a vida e as coisas. Sobre a afirmação de todo mundo ser artista… Isso é uma utopia grande, senão deixariam de existir outras profissões. O que seria da humanidade, hoje? [risos]Então, em certo aspecto, eu entendo. Ferreira não foi a primeira pessoa a dizer isso, nem será a última.

CARDA – Como as artes dialogam umas com as outras?   

BRUSCKY – Sempre existiu uma permuta. Eu, por exemplo, sempre tive mais amigos de música e literatura, do que das artes visuais. É muito legal essa troca. A performance é que congrega tudo isso envolvendo arquitetura, música, teatro, envolve tudo. Guto Lacaz tem uma frase que diz: “A performance é o teatro do artista plástico”. A performance, o happening acabam a distância entre uma arte e outra. Dick Riggins do movimento Fluxus, nos anos 1960,  traz a palavra intermedia que significa essa relação entre os diferentes meios  e as artes, que se fundem e criam algo novo.

CARDA – O que é caro e barato nas artes visuais, em termos financeiros?

BRUSCKY – Isso é muito relativo, porque hoje você tem a gravura, os múltiplos das obras originais, não precisa ter o original. Então, eu acho que as artes visuais estão mais acessíveis de um certo ponto de vista. Eu, por exemplo, sempre trabalhei muito com xerografia, héliografia, que são muito acessíveis. E depende do artista, do tempo de obra. Por exemplo, a obra valorizada do artista pernambucano Cícero Dias é da década de 1920 até 1940. Isso é muito relativo. O mercado de arte funciona como uma bolsa financeira normal, tanto é que tem bolsa de arte do Rio de Janeiro com leilões, cotações. Isso acontece mundo afora. Para se ter uma ideia existe uma revista chamada Economist art, dos Estados Unidos, que é uma revista só sobre economia da arte. As pessoas estão investindo mais em arte do que em poupança. Os artistas jovens e promissores são os principais alvos desse tipo de investimento.

CARDA – Mas você concorda com esse raciocínio do mercado da arte?

BRUSCKY – Sim, claro, tem que existir. Cildo Meirelles tem uma frase que eu gosto muito: “Se eu pudesse eu era o meu maior colecionador”. Você está produzindo e não pode parar. Fazer arte não é diferente de fazer qualquer outra coisa. Todo mundo tem a obrigação de ler e saber tudo o que foi feito para ser contemporâneo de si próprio. Lourival Cuquinha, por exemplo, na obra Bolha Bank, entra no mercado da arte ironizando politicamente o próprio mercado e seu dinheiro.

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Fotografia: Bernardo Dantas

CARDA – Assim como o dadaísta  Marcel Duchamp se apropriou do urinol e transformou isso em arte, os empresários não estariam, numa inversão de valores, apropriando-se desses artistas e os legitimando?

BRUSCKY – Grande parte dos artistas de hoje estão mais preocupados com o mercado de arte, o reconhecimento e a crítica de arte. Eles estão preocupados se serão publicados em revistas, catalogados ou não. Isso leva a um suicídio enquanto artista. A pesquisa para, há um distanciamento da sua própria arte. Eu acredito que o tempo faz a seleção natural de quem será reconhecido ou não. Às vezes tem artista que é mitômano, acredita na própria mentira. E isso na psicanalise é indicio de loucura. A mentira passa a ser a realidade da pessoa.

CARDA – As artes são meios de comunicação efetivos?

BRUSCKY – Sim, claro, tudo está ligado. Dizem que a arte está em crise. Mas a verdade é que alguns artistas entram em crise, a arte não.  A arte não precisa entender, basta que leve alguma reflexão ao público. Isso é o suficiente. Então, não precisa teorizar uma obra de arte, não existe uma leitura única. Às vezes, nem a crítica entende. Eu não estou preocupado com isso. Interessa-me que vejam sobre o ponto de vista do repertório de cada um. O que carregam de experiência. Ainda bem que cada pessoa é diferente uma da outra. Se a pessoa reagir de alguma maneira, alguma coisa já funcionou. Eu participei do movimento da Arte/Correio no início da década de 1970. A gente foi incorporando tudo o que foi surgindo relacionado aos meios de comunicação. Chegou o fax que já era transmissão em tempo real. A primeira obra de fax arte foi de Roberto Sandoval, no Recife. A internet, para nós, não foi coisa de outro mundo porque já trabalhávamos em rede, web. Se você quiser encontrar o público, você terá que usar as mídias contemporâneas. A acessibilidade é muito mais fácil. Aqui no Brasil, nem tanto. É uma deficiência, principalmente em relação aos aparelhos tecnológicos das escolas. Mas aos poucos as escolas estão adotando. Eu ganhei a melhor bolsa das artes visuais, vinda da fundação Guggeheim na década de 1980. Nela você concorre com outros profissionais como físico, químico… Não é uma bolsa só de artes, é uma bolsa de pesquisa que deve trazer uma contribuição para a humanidade. Então eu botei os multimeios na reeducação da percepção sensorial, voltada para arteeducação mais voltada ao público infantil, que é menos educado que o adulto. É importante que a arte entre como educação e motivação para a construção de repertório intelectual desde a infância.

Arte Correio (Divulgação)

Arte Correio (Divulgação)

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Fotografia: Bernardo Dantas

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CARDA – Até quando uma obra dentro de uma instituição como um Museu do Estado de Pernambuco (MEPE) ou de uma galeria pode ser revolucionária?

BRUSCKY – Ela é ou não é.  Uma arte quando é revolucionária ela não deixa de ser, onde ela estiver ela será revolucionaria. O que falta é rotatividade dos acervos. Em Pernambuco, mesmo, não há exposições dos acervos para que o público conheça seu patrimônio. Você não vê artistas importantes como Vicente do Rego Monteiro, Brennand e os contemporâneos. Os governos têm culpa nisso. Não tem política de aquisição. O Museu da Imagem e do Som de Pernambuco não tem imagem nem som, porque há muito tempo não grava e o que existe está jogado na Casa da Cultura. Existe um total descaso em Pernambuco.

Por Vicente do Rego Monteiro (1928)

Paulo Bruscky também é pesquisador de artistas como Vicente do Rego Monteiro, o quadro acima é de 1928. Paulo constatou que Vicente foi um dos pioneiros na prática da Arte/Correio no Brasil

CARDA – Uma de suas exposições se chama “A Arte é a última esperança”. Por que a arte é a última esperança?

BRUSCKY – É preciso repensar a humanidade. Diante dessa barbárie, das mortes vistas como as coisas mais naturais do mundo, polícia matando, bandido matando. Claro que tudo tem uma razão social, e é preciso ir lá na raiz. A arte sempre leva uma mensagem de denunciar essas barbáries, os erros, as falcatruas. Uma das principais funções da arte é participar da sociedade politicamente agindo a favor das causas legítimas da humanidade. Num país como o Brasil sempre há motivações políticas. Eu faço obra criticando tudo o que há de errado, denunciando através da minha arte o que acho errado numa sociedade, não num gueto. Não só a parte política, mas também a emocional, as questões psicológicas. A humanidade não foi feita para pedir esmola, isso tudo me dói. As coisas me entram pelos olhos e vão para a razão. Não é só razão, mas tem muito mais razão que emoção. É muito cerebral. As informações, as percepções entram como emoções e retornam como razão.

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Fotografia: Bernardo Dantas

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Sobre o autor

Clarissa Macau

Idealizadora, jornalista, editora e produtora da Revista Cardamomo. Formada em comunicação pela Universidade Católica de Pernambuco.

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