A abertura do Janela de Cinema 2017

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Por Germano Rabelo

Começa o Janela de Cinema . De repente convergem numa mesma emoção os olhares interessados em um cinema desafiador e livre. Gente que não aparecia há séculos, talvez por estar fazendo mestrado/doutorado e de repente surge do nada, talvez surgidos dos esgotos e bueiros da rua da Aurora e da Conde da Boa Vista. Sempre uma surpresa familiar, dá vontade dizer “Oi, sumido” ao próprio festival.

Sem maiores introduções, direto ao que interessa: três longas escolhidos para abrir a programação do São Luiz nesta sexta. São eles: Filhas do Pó, de Julie Dash, Me chame pelo seu nome, de Luca Guadagnino e Zama, de Lucrecia Martel. Cheguei ao cinema sem muita informação sobre qualquer um dos filmes, o que geralmente é bom.

Do primeiro, Filhas do Pó, só consegui ver alguns pedaços. Festival é isso: é ter que escolher. Entre um filme e outro, entre um telefonema e outro pra resolver questões da vida pessoal, você tem que medir o tempo disponível pra tomar água, fazer um lanche, ir ao banheiro. Consegui ver meia hora, com o filme já em andamento. Existe certa atemporalidade nas imagens que a princípio me deixou desnorteado, uma comunidade negra de cabeças erguidas, altiva, cultivando seus elos familiares, sua memória. Na América do que parecia ser o século 19 ou começo do 20, beira da praia ou do rio, cenários naturais. A sensação de novidade ao ver essas cores tão pouco representadas num olhar tão positivo, numa canção de afirmação. Algo nas composições da fotografia me remeteu ao clipe clássico do REM, Losing my Religion.

Imagem de “Filhas do Pó”, de Julie Dash (Divulgação)

Existe um uso bem recorrente de cenas oníricas em câmera lenta, efeitos perigosos que facilmente passam do ponto de equilíbrio. Existe uma trilha excessiva, misturando toques de percussão em arranjos new age. Mesmo com tudo isso, eu ainda estava acreditando que o filme tinha sido feito ontem. Tive que chegar em casa e pesquisar pra perceber o óbvio: foi lançado em 1991. Com este filme independente, a diretora Julie Dash foi a primeira mulher afro-americana a ter um longa lançado nos cinemas. A exibição no Janela faz parte do programa L.A. Rebellion, com um conjunto de longas e curtas que contemplam as questões negras da América.

Interrompida a sessão para um lanche vegetariano na rua do Riachuelo, volto com força total pra ver Me chame pelo seu nome (EUA, 2017) de Luca Guadagnino. Pergunta daqui, pergunta dali, descubro que o filme estava sendo aguardado com expectativa e boas críticas. A produção é franco-ítalo-brasileiro-estadunidense , mas enfim, o diretor é italiano e a trama se passa na Itália, embora a família fale inglês. Bom, aí de repente um americano vai passar um tempo lá com eles. Acontece que Oliver é o maior gatão e conquista todo mundo com seu jeito meio displicente, andando de bicicleta, visual clean dos anos 80 – época retratada de forma periférica no filme, afinal essas famílias com casarão na Europa vivem de um jeito praticamente atemporal (essa palavra de novo).

Elio, 17 anos, é quem cede seu quarto a Oliver, ficando no quarto ao lado. O filme consegue mostrar a progressão interessantíssima de fatos e contexto em que a atração entre Oliver e Elio começa a crescer. Essa coisa da cultura europeia e da atração sexual nos anos 1980 lembrou imediatamente os filmes do diretor francês Eric Rohmer nessa mesma época. As conversas com os pais, o envolvimento de Elio com uma menina (Words de F.R. David rolando num radinho de pilha) são os contrapontos interessantes desse romance inevitável entre os protagonistas. A narrativa forte vai construindo esse caminho de forma segura, bonita. Toda a beleza dos primeiros encontros e a forma como vão se transformando em ansiedade e depois virando tristeza com a eminente partida de Oliver. Um excelente filme sobre adolescência e paixão.

Imagem de “Me chame pelo seu nome” (Divulgação)

Tem seus pontos fracos. Pra começar, a extrema linearidade com que as coisas acontecem, e a partir de certo momento começa a cansar. O final me pareceu totalmente desnecessário, já que apresenta a sofrência óbvia que se segue a qualquer romance de verão. E enquanto o personagem de Oliver não consegue se aprofundar em nenhum momento do filme, Elio está maravilhosamente caracterizado em seu misto de insegurança e ousadia juvenil, bem interpretado por Timothée Chalamet.

Alguns abraços e conversas depois, a sessão das 21h se inicia com algum atraso, mas com a pompa e a circunstância de ter a diretora argentina Lucrecia Martel e sua nova cria, depois de um hiato de nove anos. Seus longas O Pântano (filme de 2002 que passa neste sábado (04), às 18h40, no Cinema do Museu), A Menina Santa (2004), A mulher sem cabeça (2008) são tesouros exclusivamente conhecidos do público cinéfilo, e que vão muito além da fórmula roteiros bem amarrados + Ricardo Darín que caracterizou boa parte do cinema argentino destes anos.

E eis que Zama chega em 2017 quebrando o silêncio. É um drama de época e também um desafio à qualquer classificação, produção em parceria com vários países e trazendo o ator brasileiro Matheus Nachtergaele num papel importante. A história demora um tanto a ficar nítida. Existe aliás, algo na narrativa que remete a um absurdo de Camus ou Kafka, das maneiras como a sorte se lança contrária ao protagonista, seu destino afetado por decisões incompreensíveis do poder – e também pela omissão deles. De corregedor em Assuncion, Don Diego de Zama passa por sucessivas perdas de poder e status enquanto espera uma transferência. Da coroa espanhola, uma autoridade obscura além do mar, nada consegue obter, nem de seus intermediários. Suas tensões sexuais não se resolvem em nenhum sentido.

Inúmeros animais estão em cena, compondo cenários inesperados. Aliás, o filme é essa brutal imprevisibilidade: Zama ouve a mensagem de um funcionário negro, fora da câmera se ouve um tiro, um cavalo morto. O inesperado sempre arranja um jeito de irromper. As coisas se amontoam como deveria ser no confuso cenário de uma civilização tentando se estabelecer onde tudo é mato: perucas à Luis XV convivendo com negros e índios seminus. Impressiona a capacidade de criar climas, de mudar de climas a cada cena. Os efeitos de som, algo que Lucrecia sempre experimentou, estão aqui também presentes, intensificando sensações e emoções dos personagens. A beleza das paisagens dos pampas, dos alagados, algo que tão poucas vezes a gente vê no cinema. E as situações que dão margem a mil interpretações, místicas, surreais, profundamente humanas.

“Pra escrever um livro não tenho amo”. É o que diz um dos personagens do filme, a certa altura. Escrever um livro, sem estar servindo diretamente o rei é uma ameaça aos poderes estabelecidos. Lucrecia Martel não segue nenhuma regra aqui. Faz suas próprias regras. Seus personagens à deriva parecem tentar isso, ao reconhecer a falência e o desinteresse das instituições. Nem sempre com sorte. Mas o olhar parece o mais isento possível, abarcando o processo da vida na totalidade. O filme termina com uma pergunta ambígua que parece ser a chave do enigma. Intrigante e irregular.

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Sobre o autor

Germano Rabello

Jornalista formado pela UFPE, Ilustrador, quadrinista, roteirista, escritor, músico e profissional na arte de participar de sorteios avulsos promovidos pela TV e pelas mídias sociais